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quarta-feira, 2 de novembro de 2011

OS CINCO SENTIDOS - O TACTO (II) - Provocatio


No topo do Tacto

Agora é o chamamento da Natureza.... oh, tanto que dizer.... Abram os olhos e ouçam na pele, nas papilas gustativas, pelos olhos ou pelos dedos, mas sintam por inteiro.


Berenice Greco

terça-feira, 26 de outubro de 2010

SEMANA DA POESIA I


Cerejas

Espero
A comer cerejas
À sombra de um muro com séculos
Na frescura de um sol piedoso

Vejo
As nuvens que desenham
Sobre um rio que chora
Devagarinho

As ondas do vento contam-me segredos
De paixões desmedidas
Com sabor a açafrão
De cores esbatidas
Pelo tempo

Respiro
De olhos fechados
Em ritmo ascendente
De telhados azuis
Com a lua a dormir

Vou
Por caminhos fechados
De estrelas salpicados
Sem bússola nem destino
E não volto.


Berenice Greco

quarta-feira, 15 de setembro de 2010


A Chegada de Sofia

Sofia chegou nesse dia desfeita de braços e de alma com o peso das malas e com o desgosto que a abatera nos últimos meses. Largou tudo no meio da sua sala que não via fazia muito e cheirou o bafio cinzento abandonado que dominava a casa toda. Acabara de chegar de Atenas, cidade onde leccionara durante os dois últimos anos. Trazia, porém, consigo ainda o olhar castanho de candura inexplicável combinada com um sorriso que surgia muitas vezes de forma imprevisível e deixava qualquer pessoa sortudamente desarmada.
Rapidamente deu uma volta esvoaçante por toda a casa para verificar se estava tudo como tinha deixado antes de partir. Bastava agora abrir as persianas e as janelas e trazer a casa de novo à vida. A luz do sol entrou sem pedir licença, coada pelo pó que pairava, e depressa Sofia se apercebeu que tinha muito que limpar e arrumar. Não demorou a levantar todos os lençóis e trapos enormes que protegiam os móveis e pechisbeques. A lassidão da casa deu lugar a uma lascívia irrequieta e inquieta que havia de querer revigorar a alma de Sofia para uma nova vida.
Mal viu o seu largo sofá cor de avelã, atirou sem misericórdia o seu corpo castigado e estendeu-o lá, esquecido por umas horas.
Na manhã seguinte, apareceu de surpresa à mãe. Assomou à porta da loja com os seus cabelos sempre soltos e rebeldes, mais escuros pelo tempo, e a mãe desatou num pranto como se ela tivesse acabado de regressar de uma longa expedição à savana africana ou de uma participação na guerra do Iraque. A loja era uma pequena retrosaria na Rua das Flores que Sofia vira mingar à medida que ela crescia. Desde pequena passava os seus momentos lá, os seus esconderijos ainda estavam no mesmo sítio para quando fossem precisos. A mãe enviuvara há muitos anos. Era uma mulher extremamente emotiva que não podia deixar de ver na filha o último reduto de esperança no prolongamento da espécie. Transmitira-lhe o ritmo da gargalhada e as cores dos sonhos, sempre fantasiosos e fugazes. A filha teria que ser o que ela não conseguira ser em nova, o que constituía, muitas vezes, para Sofia um problema.


Berenice Greco

quarta-feira, 11 de agosto de 2010


A Senhora Isotta

Mas não perdera a calma. Ainda. Sim, pensara ela, porque vou livrar-me desta custe o que custar. Agora eu cá mostrar as minhas partes pudibundas, isso está fora de questão. Deitou então os olhos à praia e um mar de gente polvilhava-se pela areia. Procurara o fato de banho nas imediações. Nada. Uns jovens ariscos banhavam-se a uns metros e a Srª. Isotta não tardou a adivinhar dificuldades acrescidas. Psicótica e calórica, a pobre senhora, apesar de determinada no seu propósito, não lograra nenhum estratagema infalível que a fizesse escapulir com a sua moral ilesa. Dera conta que começara a chover e o mar de gente que antes se espraiava frivolamente indiferente ao seu cataclismo pessoal batia nesse momento em retirada. Esperou como cão fiel pelo seu dono. O espanto caíra-lhe à cara quando se apercebeu então de uma multidão louca a correr mais ou menos na sua direcção. Uns homens fardados, umas bóias vermelhas que pareciam familiares, uns tantos olhos curiosos e metediços despontavam como hienas esfaimadas naquela precisa hora. Lembrara-se. A sua prima, a Srª. Henriqueta, com quem fora à praia, dera conta da sua falta e alertara as autoridades. Ainda crente na sua salvação apoteótica, torneou o pescoço em busca do seu triste farrapo que a abandonara já há mais de uma hora. Nada. Viu-se num beco com uma saída que não queria: caminhar para a areia em direcção à sua toalha e, dessa vez, perante algumas dezenas de olhares aturdidos na certa. Triunfante, psicótica e calórica, renitente mas não contente, a Srª. Isotta saiu da água salgada e enfrentou o inimigo. Estupefacta, a Srª. Henriqueta perguntou-lhe: Então numa praia de nudistas tens vergonha de aparecer como vieste ao mundo?!?!?


Berenice Greco