Mostrar mensagens com a etiqueta Texto de Joshua M.; Fotografia de Pedro Gónio. Mostrar todas as mensagens
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sexta-feira, 21 de janeiro de 2011
O dia em que acordei velho
Hoje sinto-me velho, muito velho, sou como sou – caminho – sou, sem sentir os passos que pisam as pedras de que me asfalto e cubro.
Hoje sinto-me velho, velhissímo, como se todos anos passado-vivido condensassem o peso dobro de um dobro elevado a um cubo sem saída e me fizessem soçobrar arrastado pelo sentido de reiterados séculos sem forma. É asssim a vida que não vivemos para dar lugar morto ao vivo por viver, é o que nos ensinam (como ensinam às crianças razoáveis) – "sê vivaz para sobre-viver!"
A poeira do tempo que passa por nós e assenta sobre os ombros, com capa de bonança e peso de temporal, é a caspa branca da neve, o Tempus Fugit que nos aporta um aspecto sujo e nos arrefece aos poucos.
Envelheço e vivo, como se o tempo se acabasse depois das palavras que ainda não conheço; vivo e envelheço, como se lesse a vida que vem a seguir às palavras que vou descobrindo em cada morte. Sim, há dias em que morro por desilusão, por saber que tudo o que sou no meu íntimo vai ser remoidamente deturpado por uma máquina de dentes de aço inolvidável.
As cãs cobrem-me as fontes sêcas de onde já não brotam poemas, apenas a ausência de cor/acção sobrevoa o cocuruto do meu vazio, apenas palavras trazidas no bico de uma ave, um ou outro pequeno galho figurado como uma ideia a jeito de compôr um ninho sem crias sobrevivas.
Tenho mil e quinhentos anos de frases desfeitas em cada pensamento, tenho um sonho anquilosado a mover-se dentro de mim, reumaticamente apoiado numa bengala que me espeta contra as vísceras, – é um sonho velho, lúcido, mas já sem forças para se erguer sozinho.
Cheguei a mim depois de ter passado pelo mundo, onde os outros riam e choravam para ver se estava atento ao seu estar a ver-me passar. Nunca mais vou sair deste lugar onde me acoito, porque a minha toca é o mundo inteiro visto de dentro para mim de fora.
Estou falido e gasto como o orçamento do estado fisíco e quântico em que me encontro. Faço contas, reconto, e nunca me encontro. Só eu, só, comigo. Um dia, num dia qualquer, chegará o dia em que faço como Nero: e, enquanto dedilho uma harpa, incinero toda a contabilidade dos feitos e desfeitas num leito de calores fluídos. Para lá do caos, muito para lá, durmo sobre as cinzas em banho lento desperto.
E ao acordar de um dia novo, cheio de cores nos olhos e puberdade na alma, desponto como as flores para pintar de mil matizes a primavera.
Joshua M.
domingo, 18 de julho de 2010
SETE DIAS SETE PECADOS - A LUXÚRIA (I)
Antília - Princesa da Atlântida (I)
Viajava Zeus pelo Reino da Atlântida quando, assolado pela sede da jornada e embevecido pela soberba paisagem de que desfrutava, resolveu descer até ao fundo de uma cratera onde havia duas lagoas quase geminadas: uma, corada de azul turquesa, e outra, completamente verde. Num relance do olhar, escolheu a azul, na esperança de que a água fosse mais fresca.
Mas, ao abeirar-se da lagoa azul distinguiu nela reflectida um homem que chorava. Não estava ninguém ao lado da lagoa, no entanto a sua figura aparecia reflectida na água. Sem perceber a origem do vulto, aproximou-se da margem da lagoa, até chegar à linha de água e notar que o homem habitava as suas profundezas. Fitou então o infeliz homem por um pouco e, com um ar apiedado, perguntou-lhe: que fazes aí? por que choras assim?
O homem contestou de olhos baixos: Sou Silvano, um simples pastor apaixonado! Perdi um amor... E assim desfiou, uma a uma, todas as suas mágoas: relatou-lhe como havia caído no doce engano de se
apaixonar por uma princesa, com quem passava tardes cálidas correndo pelos campos, tocando flauta e folgando. Assim foram felizes até que, um dia, informado sobre a paixão do pobre pastor e de sua filha, o velho rei destes reinos mais não fez do que proibi-los, para sempre, de se olharem sequer, pelo resto das suas vidas. Conhecedores da cruel sentença, os amantes recolheram-se à tristeza e ao choro, um de cada lado da enorme cratera de um vulcão extinto, ambos deslavados de pena e sulcados de lágrimas. Lado a lado, cresceram assim as duas lagoas: os olhos verdes dela esgotaram-se num grande lago de cor verde; os olhos azuis dele derramaram os desgostos, deixando escorrer uma vasta lagoa azul. De tanto carpirem, os desafortunados amantes imergiram na água das lagoas que eles próprios choraram e não mais voltaram a ser vistos.
Contudo Zeus, conhecido como um deus severo e caçoador, desta vez, comoveu-se com o destino do pastor Silvano, que seguia habitando a lagoa, e resolveu conceder-lhe um desejo. Num tom grave inquiriu-o: vou conceder-te um desejo, o que quiseres... porém presumo que queiras que eu te devolva a vida!? o que não te censuro. Mas, o pastor, em pronta resposta lhe contestou: Para que quero eu a minha vida se ela nada vale sem a vida daquela que amo? A mim, bastar-me-ia ver a minha amada correr feliz pelas margens da lagoa para o resto da minha além existência, para me sentir satisfeito. Condescendente com o pedido do pastor, Zeus rematou: Assim farei, darei vida à tua amada e uma vida eterna e feliz, mas ela só poderá ser feliz neste lugar e tu terás de suportar a sua felicidade. No entanto, pela tua sinceridade, concedo-te a graça de seres um dos preferidos de Pan e devolvo-te a flauta, com ela encantarás a tua amada nas tardes em que ela se vier deleitar com o sol e a água nas margens da lagoa. Tal como a tua amada, ficarás eternamente preso a estas margens, apascentando um rebanho na companhia das ninfas, condenado a vê-la ser feliz, sem lhe poder tocar. E prossegue: De cada vez que caminhares pelas margens da lagoa sob os teus passos brotarão margaridas, a flor que entrançavas nos seus cabelos quando furtivamente se viam por estes campos.
Depois de concedida a graça da vida ao padecente pastor, Zeus prosseguiu o seu caminho e deixou o outrora infeliz pastor dançando e soprando cantigas, sem caber em si de felicidade. A alegria com que pinoteava e aflautava melodias pelo ar contagiava as ninfas que bailavam em seu redor e, em séquito, todos iam andando para a lagoa vizinha. Zeus, que voava sobre os homens, chegou primeiro. Com um sopro encrespou o espelho da lagoa, fazendo com que a bela princesa viesse à tona de água. A visão da sua beleza extasiou Zeus que, como é sabido, sempre ofereceu poucas resistências aos encantos de uma bela mortal. Sabedor das artes do engano, o manhoso deus dos deuses de imediato se transmutou no desdito pastor e, fazendo-se passar por ele, beijou-a nos lábios com fervor. Ela abriu os olhos e reconheceu de imediato o rosto do seu amado, mas, antes que pudesse dizer uma palavra que fosse, Zeus pousou a mão sobre a sua boca e falou-lhe docemente: Sou o teu amado que volta das profundezas, agora condenado a ser um eterno pastor e a viver com as ninfas, contudo não mais vou deixar de velar pela tua felicidade e de soprar na minha flauta as mais belas melodias que já se ouviram nestas paragens. Aqui estarei eternamente para te receber quando vieres...
A princesa Antília vive agora feliz e realizada, vagabundeando pelas sete cidades em redor, sempre em redor da lagoa. Passa os dias contando histórias aos mais novos e, por malas artes de Pan, tornou-se a divina amante de todos os pastores que vagueiam pela região. E desde então, quando pela tarde por vezes a princesa vem, de mão dada com um novo amante, e se rebolam em suculentos beijos e cálidas invasões sobre a relva e as margaridas, o pastor chega risonho a acolhê-los com o seu séquito de ninfas e faz soar a flauta. Quando ela se despe para cada amante e ele para ela, abraçados em ânsias, embalados pelo doce assobio da flauta e acicatados pelas ninfas que dançam nuas em seu redor, dão-se até ao último fôlego, até ao cair do dia. E todos, ninfas e pastores, se despojam do corpo numa amálgama de corpos, num transe colectivo, prestando culto a Pan.
Joshua M.
sexta-feira, 25 de junho de 2010
Para Lucinda Gray
Psico-Portrait (ou o que ela teria dito se houvesse escrito este texto)
Naquela casa branca da lagoa respirava sempre o ar que era o meu. Respirava sempre oprimida contra o mundo, sempre contra tudo – contra esta lagoa, contra esta ilha, contra este mar, contra mim mesma. Sempre eu, contra toda a corrente: água e terra e fogo, todos contra todos. Sempre eu, a sós comigo, a ter de vencer muros e marés, estendendo o olhar para além dos prados limitados, quadrados verdes vivos com muros negros, num horizonte de verde manchado, sem fundo nem distância. O longe e a distância restam prenhes de significados quando o nosso horizonte se abate sempre sobre a mesma linha do mar em todas as direcções, num dia os barcos vão, num outro voltam, sempre um ponto que cresce ou mingua, lá ao fundo na paisagem.
Estava só, quase só, apenas eu entre mim e eu, estabelecendo ténues teias de contacto com o mundo: soprando um insecto, tocando uma flor, pisando as ervas, uma palavra ou duas aos que vivem comigo. A solidão mede-se pela capacidade de sairmos de nós, de nos envolvermos com o mundo, sem que ele se envolva connosco em identidades obscuras.
Por isso, In ilo tempore preferia estar só. Não se trata de resolver aqui, se gosto ou não gosto de estar só, já expressei por escrito, aliás, a minha preferência por estar só. Não me quero contradizer, mas já vos disse também que estar só não é obrigatoriamente só. Comigo viviam fantasmas ciclopes, monstros inimagináveis que transportava para todo o lado, numa sacola de estudante que trazia breve a tiracolo.
Comigo vivia eu e um mundo lá fora, onde tinha de ir comprar barato o conforto enganador de um mero cigarro, mover-me sem falar, dizer apenas a audácia de uma única palavra com um único objectivo, ou apenas um gesto estereotipado e cumplíce de dois dedos esticados com as polpas sobre os lábios. Nesse momento uma das minhas asas de solidão roçava delicadamente no topo mundo, que rodava à velocidade da minha impaciência – uns dias turbilhão, outros dias roda de mó lenta a arrastar o grão. Comigo viviam marés mansas e vagas tão poderosas, imagens tão fortes, que eram temidas pelos homens e pelas baleias, que fogem até ao fundo do mar para se acoitarem das tempestades e dos homens.
Quando abria a janela da minha alma, a rua estava fria como as casas por fora, sempre com o céu a desabar estilicídios contínuos sobre as cabeças torturadas. O mundo era uma cela fechada, vista de fora para dentro, um pequeno compartimento acanhado visto da imensidão do meu recolhimento. O mundo ia mudando de cada vez que abria a janela e o ontem nunca era igual ao amanhã. O mundo ia ficando cada vez maior. O tempo estava cada vez mais largo. Sabia que ainda não podia sair de mim e entrar naquele mundo, tinha de esperar para crescer e deixar crescer o tamanho do mundo.
Estava quase a chegar a primavera, digo isto pelas contas do tempo, porque o sol não chegara ainda para temperar os dias. Às vezes, quando sufocava ali fora fechada e isolada do interior do mundo, sentia ganas de voar, de abrir a janela mais alta de todas a quimeras que construí e saltar desamparada sobre o mundo. Este pensamento perseguiu-me durante todos os sonhos, passou a visitar-me na realidade de todos os dias, depois tomou o tempo de todas horas, tornou-se cada vez mais presente no meu mundo, até que tomou completamente conta de mim.
“Um dia, enchi o peito de ar, cobri-me com um xaile e sai para a rua. Quem me poderia impedir?”
L.G.
Joshua M.
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