Mostrar mensagens com a etiqueta Texto de Lucinda Gray; Fotografia de Sofia Cameira Afonso. Mostrar todas as mensagens
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quinta-feira, 19 de agosto de 2010
Todos somos semente
À semelhança da semente, sentimo-nos por vezes protegidos pela carapaça forte que nos envolve e pelo calor do subsolo que nos protege. É a nossa zona de conforto. É tão difícil romper com ela quanto o é para a semente rasgar a sua carapaça e, através de frágeis caules, abrir canais por entre pedras e torrões de terra rumo à claridade, mas também rumo ao vento, à chuva e aos pés dos transeuntes. Em cada um de nós, há uma potência a realizar em acto, como em cada semente há uma flor em potência. Esta concretização significa a realização do nosso ser, o nosso cumprimento. A concretização plena das nossas capacidades. Potência e acto. Agir fora da zona de conforto significa também experimentar a dor. Deixá-la entrar, assumi-la, para que ela possa cedo partir. Significa sentir receio, verdadeiramente medo e incerteza. É o duvidar de nós. A superação dessa dúvida existencial pode fazer-se com pequenas, mas recompensadoras conquistas, por vezes diárias. É um teste à nossa humildade e à nossa paciência. Somos sempre um projecto do que viremos a ser - em potência somos tudo, em acto somos apenas uma parte.
A paciência deve ser uma das virtudes mais difíceis de gerir. Em excesso, torna-se defeito, porque nos remete para a não-acção. A gestão desse equilíbrio não é fácil, porque tudo tem um tempo próprio, mas essa adequação não nos pode ser dada por nada, nem por ninguém, que não nós próprios. Só cada um de nós poderá ditar o “timing” correcto para agir num determinado sentido, ou noutro. Cada flor faz o seu caminho e a primeira escolha a fazer, ou não, é brotar. Se quiseres caminhar sobre as águas, primeiro tens que sair do bote.
Lucinda Gray
quinta-feira, 12 de agosto de 2010
Parti de mim
Por vezes, sinto que fugi. Fiz as malas e parti de mim. Não me revejo em sítio algum, nem sequer no espelho, nem no tom de voz, nem no corpo. Não me vejo diferente de quem habitualmente sou. Não me vejo e ponto. Não vejo o mundo material, físico, que me rodeia. Não faço contas de somar, nem de subtrair. Calculo mal as distâncias que separam o meu carro dos passeios. Não vejo quem comigo se cruza. Não me vejo e ponto. Não vejo futuro nem passado. Ausento-me do presente. Fico num limbo sem nome e sem vontade. Não se trata de um estado depressivo. Parece apenas que a alma não está e pendurou uma tabuleta a dizer "volto já". Está provavelmente cansada ou foi requisitada por algo cujo nome não se formula para um "up date". Mecanismo de defesa ou armadilhas do nosso próprio sistema? Entre a cápsula de mim, ou daquilo em que me transformo, e "os outros" parece haver um abismo. Não por sermos diferentes na nossa essência, mas porque estou "desalmada". Não sou gente. O tempo pára a contagem. No limbo não há chuva nem vento, sol, ou tempo. Não há nada.
Lucinda Gray
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