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quinta-feira, 6 de setembro de 2012


O segredo

O segredo (ou parte dele) está em aceitar que existem dentro de mim tantas contradições, que não sou perfeita (a perfeição é uma seca), que nem sempre me entendo, que nem sempre estou de acordo comigo própria, mas que gosto de mim. E aceitar os outros como são, com os seus medos, fraquezas, fantasmas, contradições e também com o seu lado solar. E perceber igualmente que não posso gostar de toda a gente (há pessoas que não gosto porque sim e pronto), nem achar que toda a gente tem de gostar de mim (como é óbvio, nem toda a gente tem assim tão bom gosto). Quem agrada a gregos e a troianos tem forçosamente de ser falso.


Missanga

sexta-feira, 4 de maio de 2012

SEMANA DA LUSOFONIA - Palavras Versadas (IV)


Eu fico em qualquer sítio

onde quer que vá

penduram-se sempre em cabides baixos
as chagas que vestimos hoje

dentro das escadas das gavetas das almas
pediram as lágrimas que as usássemos,
como óleos de sismos nas plateias da desfolhada

dentro de mim a lenta velocidade da luz
agrafa-me o cheiro das mães impuras
como muletas ubíquas
sombras de garras do passado
pântanos de esquecimento da respiração
rios de lembrança do anti-nós

quando se encaracolam os seios da lareira
amasso-me de esquinas que esculpo de ti
em desculpas salgadas nas longas avenidas

dispo-me do pão negro que perdoei hoje
e o sol fresco dos cabides onde te sigo cai em pó nas virilhas das ruas
para que nasçamos reinventivos no útero absoluto das galáxias.

abortei-me da tua esbelta lembrança errática,
prefiro sorver elástico o teu soro amigo
a rodopiar no entretanto das expectativas,
enquanto bodes facilitavam os ossos entre margens.

plantei-me do estertor dos teus erros regurgitados
das lentas lágrimas que se espraiavam,
da espiral medula que pandoraste.

Está um cabide na nossa nuvem.
pendura as tuas lutas
que eu canto nu entre os ouvidos dos joelhos da cidade
que eu canto nu a quem respira o perder
na solidão imensa do ser igual.


Miguel Barroso (Portugal)

terça-feira, 10 de abril de 2012

Palavras Versadas


Uma solidão nunca está sozinha

e da decisão lancinante perpetuam

paladares enobrecidos pela vista
do ninho donde – nua – esvoaçara
;
paredes inebriadas que tecem desarmonias
entre as dores que escorrem pelo cimento
e os diapasões frios da morte dos sonhos

Espraia-se ainda uma inimiga inocência
nas prateleiras daquela falida biblioteca


onde a relva sincera crua nunca cantou
onde as ondas andrajosas jamais sentiram
onde apesar do riso o pó ditou as horas
onde o sonho não se fez ouvir
onde os pés se embaciaram na solidão
onde opúsculos suicidam a ternura
:
Nascem pontapés das nuvens embriagadas.
Mães que fizeram greve aos soluços das infâncias.
Ouvidos raiados de securas ufanas defenestradas.
Areias feéricas do mel das memórias.
Criações censuradas pelo devir anestesiado
(
uma semente não se deprime


nem os gansos se usam a dançar
nem os ventos embebem puzzles


uma solidão nunca está sozinha
)
.
 
 
Miguel Barroso