sábado, 7 de agosto de 2010
Crónica Benzodiazepina
O medo e outros costumes
Estou a dar-me mal com o dualismo. Cada vez pior. Quero ser uno contigo, com ela, com toda a gente. Cada vez faz mais sentido. Começa a ser a única coisa que faz sentido. O problema é que enquanto existirem mulheres como tu, e ela, e outras igualmente celestiais, a minha mente sente-se ancorada ao desejo. Para existir o vosso corpo, também o meu corpo tem de existir. A minha percepção.
Vivo entre a necessidade de dois mundos. Acabo por viver em nenhum. Sei que qualquer repressão fará a balança pender para o lado que contrario. É quase como a história do bicho que pega quer corras ou fiques parada. Eu sei que não posso estar próximo dela nem de ti, muito menos das duas em simultâneo. Enquanto for eu, não posso. E se eu e ela e a mulher dourada formos um só? Mesmo que para isso tenha que ser uno com gente que transpire demasiado - prefiro. Não são quarenta virgens, mas não deixam de ser muitas mulheres. Portanto assumo-me como um não dualista convicto. Vou vestir um casaco de couro e partir em busca da fórmula. Só peço que se mantenham lindas até que encontre uma solução para unificar tudo.
"- Já Freud dizia: o desejo é aquilo que nos une a todos. O desejo é a mais elementar força."
Concordo plenamente. O desejo foi a força que criou o universo - o desejo de termos uma coisa só nossa. O desejo é sinónimo de movimento e de inconstância. Implicou que se criassem o tempo e o espaço. A permanência é oposta e dispensa o espaço, a eternidade é oposta e dispensa o tempo. Apenas neste universo inventado pelo homem faz sentido o desejo. O desejo é como o medo a mentira e a escuridão. A escuridão é falta de luz. Não tem propriedades exclusivas em si mesma. Sempre que observo o desejo ele desaparece. Tal como o medo quando visto de frente. São exemplos da crença na escassez, da qual só o erro pode proceder. O desejo e o medo dependem da nossa ausência. Tal como o amor particular. Se te sentares de olhos fechados e procurares o amor, ele não está em lado nenhum. É como se entrasses num quarto escuro de vela na mão para observar a escuridão. A luz é como a verdade. Quando deixas de observar o amor, ele volta em pensamentos, ocupando o espaço que deixaste vazio na tua atenção. A escuridão volta sempre que a luz se vai. A escuridão é como a mentira. Só existe na ausência de verdade. Não existe verdadeira mentira. É um paradoxo total. A luz tal como a verdade opõem-se à escuridão porque se validam a si próprias. Não se alimentam da dúvida nem da escassez do oposto. A verdade é sempre abundante, ilumina tudo. A verdade não vacila. Todos os medos e receios derivam da ilusão e da importância que concedemos à dúvida. O amor particular é igual. Quando o procuras por dentro, ele desaparece. Quando te afastas, ele volta em pensamentos. Está tudo tão carregado da nossa mente, essa cortina que nos separa de tudo, que se torna impossível viver para além dela. Os objectos, as pessoas, as sensações, são todos relativos à nossa mente. Esta constatação deixa-me os nervos em frangalhos. Quero livrar-me desse filtro. Estou farto de versões.
"- Mas a percepção que tens dos outros é sempre filtrada por ti. Pelas tuas sensações."
Mesmo as sensações que uso para percepcionar os outros são filtradas por mim. É tudo tão filtrado que começo a achar que sou eu que as crio. Não há nada que possa ser experimentado que não tenha de passar pela recepção. Quem me diz que não adulteram os factos na recepção? Eu gostava mesmo era de estar contigo. Não quero saber da versão que faço de ti. Mesmo que te pinte como uma deusa nórdica, não és tu. Nunca serás quem eu vejo, quem eu cheiro, quem eu toco. Desunho-me todo mas não consigo chegar perto de ti. Pois não.
Mas se formos todos o mesmo e isto não passar de um sonho de separação, bastaria acordar para sermos felizes, eternamente juntos.
Sempre que é falso, é escuro. O inverso tem respondido a todas as minhas dúvidas - sempre que é escuro, é falso.
DuArte
sexta-feira, 6 de agosto de 2010
Veredas Siderais
Voltamos sempre ao início para ver os mesmos sonhos, voltamos para deixar a marca dos nossos pés em terras exploradas pelas sombras. Pelo receio de um dia não vermos a sombra pisada dos nossos passos: somos o medo e a vergonha, somos o cântico contido nas almas que não sabemos ser, a coragem da morte que enfrenta a vida, numa luta que acabamos, cedo ou tarde, por ganhar perdendo. Por isso, os homens inventaram os deuses e os lugares comuns e nunca há palavras bastantes para tudo o que se crê ou se cala.
Anda, como se fosses anjo, dá fulgor às asas e habita comigo o céu de todos os sentidos, anda, dá-me a tua mão cheia de palavras e vamos passear entre as nuvens, que o limbo esperará eternamente por nós. Enlaça bem a tua mão na minha, segura-te que agora vamos subir - olha como a África é pequena, junto àquela pequenina Europa, e as duas deusas juntas, vistas de cá do alto, pouco maiores são. Volta a crer com um "quê" de querer e vem, vamos vaguear pelo universo, visitar as galáxias que se obnubilam por detrás do nosso (in)consciente colectivo. Senta-te placidamente e pensa comigo: como são breves estes momentos em que nos damos, em comunhão com as estrelas.
Anda, vamos a outra galáxia agora, que, de tão distraído que ando, já me aborrecem os velhos mundos que vou descobrindo. O que mais me agrada nas veredas que ainda não percorri é a inesperada companhia de quem nunca encontrei, porque a sua imagem está sempre a meu lado. Ainda bem que te encontrei numa dessas viagens que nunca fiz e tu foste a boa companheira, a que trazia consigo as palavras certas para todos os erros do caminho. Por isso caminhámos, decididamente juntos, com os outros que caminhavam connosco, em direção ao mesmo fim. Dá-me a mão que me deste ou a que me deres, porque nela se escondem todos os segredos que queremos partilhar durante a jornada. No fundo de nós ainda nos restam muitas mãos abertas para dar de afecto.
Um dia destes, crentes na ressurreição de todas as vidas bem vividas, erraremos certos do fim pelas estradas que nos levarão para lá da miragem de Santiago. Seremos romeiros siderais com os olhos postos na via láctea, directos à luz que nos amamenta a ilusão de acreditar ainda mais além. E sempre que o caminho se mostre recto e virmos ao fundo o nosso destino cortado pelo horizonte, veremos para a vida um fim aparente, sem vermos um fim real, esfregaremos os olhos e nunca saberemos se o momento último se esconde por detrás do monte ou do nosso medo de caminhar.
Seguiremos a viajar e seremos sempre retorno; e nunca saberemos quando nos vamos perder ou reencontrar nas cruzes que o mapa não assinala. Sigo a teu lado e tu a meu lado, e nunca sei aonde vais, ou mesmo se existes, mas sinto a tua mão dada por todos caminhos que a sonhar traçamos. Para não me perder dos teus passos, transporto na minha sacola, lá bem no fundo, um mapa à escala planetária, onde o nosso mundo é visto do topo do universo com olhos de buraco negro fotogramétrico. Um mapa, enfeitado de montes e vales de solidão e de silêncios (entrecortados por rios e mares de abraços e palavras urgentes), cuja geografia muda com os passos do trajecto, que vamos desenhando inacabado do início ao fim do mundo.
Joshua M.
quinta-feira, 5 de agosto de 2010
Às vezes
... vagueio na net a ver casas em Madrid, a procurar empregos em Nova Iorque, a consultar roteiros turísticos em Itália. Por aí. Como se fosse possível fazer a mala hoje e embarcar amanhã. Nem um telefonema, nem um bilhete... Nada. Apenas deixava em segredo o meu destino a meia dúzia de pessoas. Não é possível, mas a simples possibilidade de o fazer liberta-me de tudo o resto que me prende. Lisboa, Portugal, o Tejo, tudo aqui está cada dia mais aborrecido. Preciso de inventar, ou que me inventem, uma nova vida, para eu conseguir viver esta que tenho. Salvam-me os que me amam e me emprestam a deles, todos os dias, um bocadinho. A minha vida está sempre além do presente, renunciando hipocritamente o passado, antecipando sofregamente o futuro. É ou não é uma grande chatice? Às vezes, também estou bem e ando a tempo dos outros todos. Menos mal.
Ana Santiago
quarta-feira, 4 de agosto de 2010
O Não Amor
Mais um trago. Juro que me queima a língua. Confesso que gosto dessa acidez pelas amígdalas. Admito, gosto de me queimar por dentro.
Eis mais um texto que nunca vais ler, mas um pedaço de história que ficou por contar. Há quem construa página a página a sua vida conjugal, nós criamos somente o desamor. Estamos juntos porque gostamos de sentir que temos tudo a perder. Não cremos na verosimilhança do poliamor. Acho que nem mesmo no amor acreditamos. Gostamos de ser presos por vontade. Gostamos de chorar a existência. Gostamos de carpir as mágoas que não temos. Gostamos de cortar todos os tecidos que nos cobrem os órgãos envoltos em músculo flácido.
Não gosto de ti. Quero-te para fingir que não sinto tédio. Quero-te porque preciso de sexo. Ou nem isso. Quero-te porque não sei o que fazer com o tempo que me sobra. E fica-me sempre demasiado tempo…
Ontem voltei a beber. Prometi que nunca mais uma só gota, prometi voltar ao grupo de ajuda, prometi não furtar jóias da casa da minha mãe, prometi sorrir mais vezes a quem se cruza comigo. Nem uma dessas resoluções foi bem sucedida. É a sexta vez que reescrevo as máximas de novo ano. Já estamos no Verão, creio que perdi a todas as desculpas.
Lembro-me que ontem saíste de casa furioso. Lembro-me de hoje acordar com sangue na testa. Lembro-me do olhar de piedade das colegas de trabalho. E não me lembro de mais nada. Voltei a acordar a meio da tarde numa cama de hospital. Recebi mais uma advertência do patrão e acho que deste mês não passa. Não sei como vamos pagar a conta da luz para o mês que vem, mas também não tenho medo do escuro. Se o tivesse, não viveria aqui contigo. Da escuridão brota toda a tua bestialidade, a qual, de tão ébria, já nem sinto.
Mais um texto que não vais ler, mas tenho pena. Porque não sei o que escrevo e talvez tu me explicasses. Sempre gostaste de me explicar o que se passa dentro da minha cabeça, e eu sempre fiquei extasiada com a desconexão entre as tuas doutrinas e a realidade. Nunca to disse. Gosto que penses de mim o que quiseres. Gosto que digas que pensas mal de mim. Na tua visão pérfida sinto-me tão mais poderosa! Sim, o mal traz-nos uma força quase divina. Se soubesses a verdade, se visses o quão frágil sou, já não estarias aqui. E não é que me faças grande falta, creio até que viveria melhor sem ti, mas ajudas-me a ultrapassar o marasmo dos dias. Agora que não tenho mais para onde ir de manhã, agora que não tenho mais a chave da casa dos meus pais, agora que não tenho mais dinheiro ao fim do mês, agora que recebo uma notificação de despejo, agora que te foste embora e às 11 da noite ainda não voltaste, não sei o que fazer.
Virginia Machado
terça-feira, 3 de agosto de 2010
Palavras Versadas
EQUÍVOCO
Andei enganado
enganado nesta vida
sem saber que o mármore é mármore
e o fogo é fogo
e que o vinho é vinho
e o nada é nada
andei enganado
ignorando que os capacetes dos polícias
são caveiras de candelabro
e que é no rosto do povo
que se refugia a alma dos mundos
Anónimos são os loucos
que se escondem no desejo
desconhecendo que na cidade
as ervas crescem por dentro do asfalto
Tristes são os raros
que semeiam riso na bengala do absinto
enquanto a solidão
com olhos de negras cruzes e garrafas de esperma
memoriza os anos vindouros
em esferas de pó de talco
Magnânimas são as mulheres
desinteressadas à filosofia do cristal
sem se importar com a idade do dono
que é realejo na rua
torre oculta de marfim e fera amestrada
Iludidos são os poetas
que trazem lareiras nas veias
ignorando que o que dói na carne
é o frio do quotidiano
um frio de agulhas geladas
e acácias de aparência
A cerveja é servida quente
e o inverno com os seus frigoríficos
está de serviço
na distribuição obsessiva das carícias
e do café
As palavras há sempre quem as ignore
e a música é o corredor já conhecido
que no escuro labirinto
se sabe não ir dar à superfície
Passa por mim fugazmente
uma esperança de braços cruzados
de que se acenda uma luz qualquer de veludo
em que tilintem metais de vidro
e os ventos devolvam o mar
A morte está escrita nas paredes das universidades
e os meninos de doze anos
com laçarotes de fumo
jogam às cartas no parque de estacionamento proíbido
para que quando os relógios emocionados
derem as quatro da manhã
escorregarem pela retrete
João Belo
domingo, 1 de agosto de 2010
Provocatio
A importância da necessidade no amor
Quando a necessidade e a obsessão pela ajuda se juntam, materializadas em dois seres, cria-se uma estranha solidariedade que jamais, ou dificilmente, é quebrada. Não é amor, mas dá jeito. Também lhe chamo consolo. Há quem a apelide de "um casamento feliz". Não gostava de ser feliz (assim).
Ana Santiago
sábado, 31 de julho de 2010
Crónica Benzodiazepina
Caos e culpa
Por vezes não consigo deixar de considerar estranha a existência do acaso. Minto. Não posso deixar de estranhar a forma como nós, sociedade, humanidade, conseguimos “inventar” uma ordem, legitimá-la, ou não (uma vez que a legitimação de seja o que for pressupõe ordem), obrigamo-nos a cumprir, por vezes, o absurdo, e esquecemo-nos de que tudo o que erguemos assenta no caos. É sobre este caos que elegemos as nossas leis, regras, casas, crenças. Do sussurrado caos, aceita-se a sorte. Como se esta acusasse uma percentagem de caos pequena e ainda passível de ser reconhecível por nós, humanos. E por isso, milhões jogam nas lotarias, uns escapam a acidentes e outros morrem a atravessar a rua. Apesar de dois milhões de anos dessa constatação, espanta-me a forma pouco imaginativa como nos organizamos.
Pergunto-me, porque nos centramos tanto em torno do dinheiro versus prazer? Dinheiro corresponde a trabalho, a filas de trânsito, a sessenta e cinco anos de dores de cabeça… O prazer sabe a sol, a mar, a chás, a coco, a sopa de carne e a chicharrinhos fritos… Quando temos dinheiro, apreciamos verdadeiramente estas coisas?
Não sou preguiçosa, bem pelo contrário, envolvo-me apaixonadamente em cada projecto que abraço. Mas acho que tudo poderia ser bem diferente, caso houvesse uma filosofia do prazer que orientasse económica, política e socialmente a sociedade. Uma organização que apostasse no simples bem-estar. Contudo não poderemos ignorar que este último começa na cabeça de cada um de nós, e, para se ver o efeito de dois mil anos de cultura judaico-cristã, mirai o lugar que o prazer ocupa na nossa escala de valores. Sentado ao lado direito da culpa…
Lucinda Gray
sexta-feira, 30 de julho de 2010
Um Anjo Sobre a Cidade
Cruzo os passos abertos por entre os muros que invento, sóbrio, sigo e reinvento uma cidade nua, desfeita na cinza do tempo, na embriaguez da noite, uma cidade sem muros. Imagino uma cidade, apenas uma cidade parada nos lugares todos, no azul das ruas calcetadas, por onde a luz reflecte os objectos. Uma cidade com fantasmas de pássaros iluminados. Mas, a cada sonho, tenho sempre de reinventar a cidade, a cada estória que conto à noite, no escuro do meu íntimo devassado pela luz persistente dos candeeiros a gás, reinvento a cidade, porque a cidade nunca foi inventada.
Os homens que habitam a cidade fogem na penumbra, tementes; fogem do silêncio que pragueja contra eles, que cospe frases violentas contra os muros. Eu, limito-me a respirar a cidade, a respirar a cidade com ou sem revolução, escutando sempre na madrugada a marcha dos soldados acender de novo as ruas, porque, ao marchar, as botas partilham as calçadas e os sonhos com os chinelos das varinas, com os pés frios dos pedintes. E as espingardas são engolidas pela cidade.
Todas as mulheres vivem na minha cidade, habitam-na ao alto e em baixo, e são tardias – adormecem no odor das madrugadas, porque o rio não descansa para se fazer ao mar, para se libertar da cidade. E as mulheres sonham a morte dos homens, vivem na saudade, cantam as agruras da saudade, choram de saudade até fazerem erguer um mar de lágrimas, maré-cheia de espuma e luz, a enfeitar as asas da cidade. Morrem de saudade. E a cidade chora os seus mortos; e as carpideiras são as mulheres que já não vivem, que já não cantam, que são a saudade, que são a cidade.
Um dia uma praga apocalíptica cairá sobre a cidade e levará as mulheres e os homens, e levará a cidade para lá, onde as cidades não existem, nem o tempo. Nem a saudade existirá, para lá dos muros da cidade que não existe. Derrubar-se-ão os muros para provar que a cidade nunca existiu, mas a sua luz não se apagará mais e a cidade, iluminada, será uma quimera, uma casa-única, onde caberá toda a luz da cidade.
Porque o tempo trará o futuro – e quando, um dia, deixar de existir o tempo a cidade perdurará para todo o sempre, porque ela é a memória viva e morta de todas as vidas que a viveram; ela é o cruzamento de todos os destinos que a cruzaram; a rua estreita que se alarga ao passo dos transeuntes; a rua que não existe, porque a cidade também não existe para além da sua própria realidade. Todos os sonhos são uma cidade sem realidade. Todos os sonhos são a minha cidade real.
Porque o tempo fez tombar o odor a morte sobre a cidade e assassinou todos os justos, criou recantos onde a cidade sobrevive a todos os injustos. A cidade deve morrer para sobreviver, para se perpetuar. Porque a vida da cidade existe fora dela, sem que ela se aperceba do fim, a vida prossegue nela. No final, restarão algumas luzes apressadas a cruzar ténues os espaços das ruas desertas; os vultos convertidos à luz das madrugadas, auroras de espaços limitados a ensinarem a forma dos muros. No final, não restará senão a cidade, pedra sobre pedra, a cidade a existir nuvem da cidade – o caos, as ruínas...
Todos os caminhos levam à cidade, à minha cidade, onde os cotovelos presos aos joelhos esperam, impacientes, a chegada de um anjo.
Em seguida vi descer do céu um anjo que tinha na mão a chave do Abismo e uma grande cadeia. Subjugou o dragão, a serpente antiga, que é o Demónio, Satanás, e acorrentou-o por mil anos.
Apocalipse, 20, 1
Joshua M.
quinta-feira, 29 de julho de 2010
O Universo dos Amantes
O universo dos amantes é perfeito ou sonha em ser perfeito. Entende-se por amante aquele que ama, acepção que vem do particípio do presente do verbo latino amare, amans. Mais nada.
O universo dos amantes é um cosmo à parte, com leis muito próprias, e os cosmonautas, os amantes, vivem num estado puro de letargia que os deixam inconscientemente embalados. A lucidez de sentidos e a racionalidade ficam afectadas, mas eles pouco se importam com isso. Aliás, eles fazem questão de alimentar esta condição de apatia relativamente ao resto do mundo. É este mandar o mundo à fava que os faz sentir especiais e diferentes, os faz sentir únicos e exclusivos, absolutos e inteiros, se em cisão permanente com o universo dos outros. É o mundo privado e íntimo que vale, o mundo a dois que interessa. É o sonhar a dois o mesmo sonho, o ser capaz de voar em pensamento de mãos dadas para a mesma ilha com a mesma água azul e a mesma areia branca e fina, é beber da mesma música e delirar da mesma forma, é apreciar as mesmas cores, os mesmos sabores, a mesma força da Natureza, é saber esquecer o tempo contra tudo e contra todos, é ter o mesmo ritmo e amar a mesma poesia, é partilhar as mesmas paixões, é saber comunicar pelo olhar, pelo abraço, pelo beijo, pela carícia e até pelo silêncio. É compreender as palavras de uma forma única, é precisar do calor mesmo quando não está frio, é estar em sintonia quando o mundo lá fora gira em arritmia.
Ter o privilégio de entrar nesta esfera privada que vive em unissonância restrita e recatada e saber viver e conviver com as suas regras mais básicas é apanágio para seres excepcionais e os que lá se mantêm por muito tempo passam a um estado quase divino, pois conjugar uma vida em dois universos tão distintos como o dos amantes e o dos outros – por muito que se tente, temos que viver nos dois – é tarefa hercúlea, para além de que combinar tão só no mesmo universo dos amantes com outra alma é missão exclusivamente destinada a seres de alguma forma deificados. Razões estas que ultrapassam a própria cosmologia do amor.
Berenice Greco
quarta-feira, 28 de julho de 2010
O mundo voltou a assaltar-me
Hoje inventei uma cama para acordar deitado.
Inventei os sonhos para mais uma vez não me lembrar.
Inventei os empregos, o teu horário demasiado cedo, a água a correr do teu banho.
Imaginei que te vestias encostada ao meu rosto, que me pediste um beijo na curva do teu corpo.
Hoje inventei um filho a ocupar o calor do teu lugar, a luz ténue do candeeiro, um livro do Asterix.
Reinventei os meus braços agarrados à almofada, a preguiça, o conforto da chuva lá fora.
DuArte
terça-feira, 27 de julho de 2010
Palavras Versadas
labirinto
o mundo é pequeno,
diz a tremer de frio
o anão
cuja mãe foi outrora um navio
(acaba de falar e aninha-se no porão)
mas eu nunca fui assim
: parti em quimera ao redor de mim
em busca das duas mãos
que me foram abraçadamente prometidas
para conjugar
outras quantas vidas
quando a língua seca de tanto verbo irregular
tentou escapar
ah! as saudades do teu nome desconhecido,
da costumeira falta de luz
aos domingos
antes da romaria ao jesus
nos ter invadido.
houvera verdadeiramente amor naquelas nuvens
que entre tanto negrume e tantos pingos
qualquer um de nós poderia amar
e não somente chorar
o mundo é incomensurável,
definido assim
por um órfão gigante
interminável,
diante
do próprio fim
poderia dizer sei que já não conto,
mas calado
está-se afinal sempre pronto
como importa
para importar ser-se contado
é de solidão um caminho de ouro na rua da prata
no verso do mapa
és a única porta por onde se escapa.
e por ti o filão que sinto
é um labirinto
não quero só o teu pão
de milagre,
quero ainda o teu coração
de vinagre
Bill Engates
domingo, 25 de julho de 2010
Provocatio
Circum-mensurável
Todos os círculos se medem
a partir do centro,
pelo raio que os parta...
Joshua M.
sábado, 24 de julho de 2010
Crónica Benzodiazepina
Quase um rosto
A luz da mesinha de cabeceira ainda ficou ligada por mais alguns minutos. Os mesmos minutos que me abraçaram à X. Quando a luz se apagou, rolei o meu corpo, suspenso nas nossas últimas palavras. Eu nunca sei de onde vêm as palavras, os pensamentos que escrevo. Adormeci a olhar os pequenos traços de luz que iluminam a cortina, procurando neles uma resposta para a intuição.
Quando acordei, se sonhei, já não haviam imagens na minha memória. Um guindaste arrancou-me a preguiça da cama. Sentei-me a confirmar que o dia era outro, com uma erecção entre as pernas. Fui assim para a casa de banho, nu, aos olhos da minha companheira, sentada na sanita, meia a dormir. Intrometi-me entre ela e o lavatório, sorrindo maroto, para que me desse um bom dia.
- “Credo...! Que se passa contigo?”
- “Anda lá.. Não te faças difícil.”
Adoro esfregar óleo no meu corpo antes do banho. Gosto do meu corpo, macio e elegante. Sentem-se os músculos. Gosto de os estender, lentamente como um gato, enquanto a pele absorve o óleo. Ela já despira as roupas quando se sentou no meu colo reluzente. Dobrei a insistência do pénis e senti toda a doçura da X. ao encostar-se a mim. Abracei-me a ti.
- “Adoro o teu corpo de menina...”
- “Não me achas demasiado nova? Já agora, é a este corpo que se deve o teu estado?”
- “Sim. Deve-se a ti, a ela, ao estado de coisas que me atormentam a alma.”
- “Bem me parecia...”
- “Talvez seja dos dias estarem tão quentes. O Outono disfarçou-se de Primavera. O pólen disfarçou-se de cocaína e entranhou-se no meu cérebro.”
- “Podes dar-lhe outro nome que eu não me importo.”
Partilhar um duche contigo é como partilhar uma cama com o diabo. A água a correr nos teus seios, no desenho fino do teu sexo. Poder tocar, molhar-me em ti, beber de joelhos a água perfumada do teu desejo.
- “Pensaste nele?”
- “Penso nele sempre que penso em ti. Tortura-me não ter tempo para os amar a todos.”
Nem todas as mulheres sabem a sexo. Tu sabes. Nem sempre, porque o teu corpo não é apenas instinto. É preciso verbalizar para entenderes a primitiva razão. O desejo de perder tudo por uma foda no escuro, encostada a uma porta, no banco de trás de um carro. Com ele, ou com todos os que te assaltam com emoções.
- “Podes dar-lhe outro nome que eu também não me importo. A sério que não me importo.”
Desde que me deixes beber esta água, eu próprio farei as camas, estacionarei o automóvel nos parques escavados, encostado à porta, a abafar as investidas do vosso prazer.
- “Deprime-me que o mundo termine tão cedo. Logo agora que estás assim, tão dócil, que não escondes nada, que me permites ser genuína, mesmo que a verdade afinal, não passe de uma fantasia.”
É sempre ela a ir buscar as toalhas longe demais. Amo os seus passos a pingar água. Os pés delicados, as covas ao fundo das costas.
- “O mundo não vai acabar.”
O mundo não investe contra o pecado, não é uma força independente, não é um deus-todo-poderoso. O universo é tão grande, tão infinitamente inconcebível para as nossas cabecinhas. O universo não é outro que tudo e todos, uma borboleta, um cometa, um pensamento, tudo molas de um mesmo colchão. Deitas-te numa ponta do colchão e todo o colchão mexe. Por vezes muito, por vezes de forma subtil, mas tudo afecta tudo. O nosso mundo está a mudar, agora como nunca, vertiginosamente. Mas tudo se passa cá dentro. A informação espalha-se ao vento. Jesus escreve pelas mãos de uma médium. O “Conselho dos Doze” orienta acerca do que fazer nos tempos que se avizinham. Livros, Heróis, poderes miraculosos. Todos apontam o mesmo caminho.
Somos livres. Somos nós quem governa. Se o universo se revolta, é porque a revolta está a acontecer dentro de mim. O que eu vou mudar, vai mudar tudo. Vou virar isto de pernas para o ar. O que se pede é que soltemos amarras. Que vivamos de forma genuína. Uma festa contínua, feita de alegria e felicidade constantes. Um salto. A condição humana está a armar o salto. É lindo demais para não ir à frente.
E tu, minha querida... Quero-te sempre ao meu lado!
DuArte
sexta-feira, 23 de julho de 2010
the queerest of the queer
Puxar o cabelo para trás, endireitar as costas, mudar de posição num pequeno contorcer das nádegas, maior o aparato do que a real deslocação. Não, não há canetas, hoje teclas. Sinto falta das canetas. De sentir as canetas entre meus dedos flutuando, riscando raiva, amachucando o papel, atirá-lo e nunca cesto no caixote ao fundo. Hoje só teclas. E a falta de sentir algo palpável. Algo que seja além de mim.
Há tanto tempo... outra pessoa que não eu. Agora o espelho a gritar eu, mas já não ser eu. Uma face vazia, uma cara qualquer, tão sisuda e enfadonha, tão nula, tão nada. Se o fracasso tivesse rosto, sei-lo, seria assim. Seria eu.
Em tempos, ouvi dizer que renasceu vida por entre as rochas. Flores à tua volta e assim um novo alguém. Contigo sempre só alguéns. Não sei sequer se temos nome. Acho que sem o saber, certamente sem o querer, alguém me revelou o que calculo que quisesses esconder. Depois de mim o mundo não parou. Sempre tu e o teu astro imaginário em que envolto te vês. Iluminado, julgas tu. Asseguro-te que a lâmpada está fundida. Não emite calor algum. Há muitos anos que, como eu, é somente um nada. Um calor de nada, um sentir de nada, um viver de nada, um amor de nada. Era de ausência de respeito a que se quer chamar amar.
Acabei por descobrir o que significa definhar sem estar doente. Se encosto os dedos uns aos outros descubro inusitadas camadas de gordura; o meu corpo meros ossos segurando a pele manchada de altinhos brancos; já não vejo madeixas de cabelo cair-me no rosto, camadas de empapada oleosidade juntam todas as fibras capilares; se os pés me gelam lá em baixo não quero saber, e a minha cama é o mundo inteiro. Às vezes rompo com a letargia e encontro o abismo. Pesadas camadas de névoa à minha volta, e um pânico crescente em auto-ódio, perder o medo ao tétano e golpear-me furiosamente. Porque mereço. Porque falhei em tudo. Porque me envergonho. Porque agi mal. Porque te perdi. Porque nunca te tive. Porque perdi por ti todo o resto da minha vida. Porque tenho culpa. Culpa de tudo. Porque talvez esta a única coisa que hoje consigo sentir. A dor que não seja por dentro, mas vinda de fora. Porque assim algo é real. Porque custa muito menos.
Queres crescer? Queres secar dentro de mim? Por favor, aceitas corroer-me, destruir-me por dentro? Vem, por favor, eu deixo... Eu juro. Só quero que em ti me mates. Só quero que em mim tu morras.
Virginia Machado
quinta-feira, 22 de julho de 2010
ACORDES... "acordai!"
A vida se altera. Movimento, som, arte, tudo em um só segundo. Uns dizem que sou, outros, que não sou. "O que sou?"
O ambiente está decorado. As paredes sustentam grandes quadros com belos motivos artísticos. A mobília, tapetes, assentos e almofadas enobrecem o colorido jardinal. Lustres, de raro material, iluminam os "mil cantos". "O que sou? Onde estou?"
Ao fundo falam coisas diversas. Poemas, canções, assuntos sem estórias. Trajetórias de vidas e almas em cumplicidade. A luz é intensa. Os perfumes dos corpos e dos tecidos exalam no ar. "O que sou? Onde estou? Por que estou?"
Olho ao redor e vivo o momento. É a magia dos sentidos no Homem que encontra os segredos do mundo. Há um relógio dourado que espera pelo tempo que não existe. Apenas transcorre e funciona impassível. "O que sou? Onde estou? Por que estou? Qual o nome?"
Percebo o chão. Ele existe. Quase me esqueci. O piso é deslumbrante e enigmático. Seus desenhos me transportam para diversas dimensões. Meus pés tocam a geometria do belo e eterno. Estou de sapatos. Calçados, eles estão lá. Apenas pés e pernas que me erguem. As cortinas balançam com o sopro do vento. Grandes janelas abertas ao frescor da primavera. Corro em direção a elas e estou lá. Pés e pernas. "O que sou? Onde estou? Por que estou? Qual o nome? O que faço?"
Uma grande porta se abre e as mãos se tocam frenéticas. Um espelho com moldura reflete o acontecimento. Observo-me, tenho olhos. Sou eu. Pareço-me comigo. Falam de mim. Estou nos papéis, nas tintas, nas letras, nas lendas, nas histórias, nas bocas. Orquestras me entoam. Busco-me nos lugares onde dizem que estou. Olho para cima e talvez, veja o céu. Grito, mas não me ouço. Apenas o som, a melodia e os acordes. As "estórias" e as músicas continuam em meu nome. O Homem, o mito ou deuses? Tudo está perfeito. Sorrisos, lágrimas, indiferenças e muitas narrativas. Assim é hoje e sempre será.
Meus pés se movem em direções opostas. Meu rosto já não é o mesmo. Modifica-se. Transforma-se. Estou confus... Estou exaust... Estou partindo. Não me vêem. Não me percebem. Não me sentem... Pés e pernas se vão!
Os instrumentos e as músicas persistem. É o legado que ficou no meu esquecimento, até o dia em que me verei novamente, em que nos veremos novamente... pés e pernas, por inteiro...
Nirma Regina Constantino
quarta-feira, 21 de julho de 2010
Deuses de papel
Esta noite tive um sonho doloroso. Não direi um pesadelo, mas doloroso. Sonhei que um animal de estimação havia morrido, trespassado por uma estatueta que recebi como prémio de imprensa escrita em 2008. O pequeno animal abraçava o objecto tendo sido obturado por uma saliência angular do mesmo. Jazia assim sob um berço de criança. Chorei e tudo, enquanto dormia. Ao acordar, a imagem do pequeno bicho não me abandonava o pensamento. De forma clara e distinta, visualizava-o com o pêlo em remoinho suado, pequeno e já frio. Com ele ao colo, inerte, mostrava-o em desespero aos meus pais, presentes na penumbra. Estupefacta, comecei a tentar decifrar esse sonho mirabolante. Bebi dois cafés, deambulei de um lado para o outro, fumei dois cigarros, dei uma limpeza à casa… e a imagem sempre lá, com textura e tudo. Subitamente, cheguei a uma conclusão. Vou cometer um assassinato. Literário claro. Matarei deliberadamente e literariamente algo ou alguém que foi alvo dos meus afectos. Esse é o poder da escrita, mais forte do que qualquer arma. Aqui, a preto e branco, com pequenos e concisos movimentos dedilhares, matamos, renascemos, damos vida e morte. Somos pequenos deuses do papel, mesmo que virtual. Resta-me dizer que o referido bicho era um rato cinzento. Sempre gostei de ratos. Fazem-me lembrar esquilos, nervosos com olhos inteligentes. Não que os queira em casa, já aprendi o suficiente para não o desejar. São uma praga. Mas gosto desses pequenos animais. Esta noite, morreu um.
Lucinda Gray
terça-feira, 20 de julho de 2010
Palavras Versadas
DISCRIMINAÇÃO DO GÉNERO
{poema para ser lido com recurso à voz de mário cesariny nos anos noventa}
discriminar o género. das palavras. dos dedos. há
uma anatomia para cada membro. para cada gesto.
e há duas casas em casa gesto.
dois inquilinos.
há vizinhança sem anatomia. e depois, claro,
há um exercício de escrita sobre cada gesto, o
que é: um terceiro gesto.
dentro deste gesto há discriminação
do género. das palavras. dos dedos. há um movimento
do corpo e em que o resultado é extra-corporal
e a hermenêutica segue indirectamente
pela submissão degenerativa do caos
que é falar.
Sylvia Beirute
domingo, 18 de julho de 2010
SETE DIAS SETE PECADOS - PROVOCATIO LUXURIA (I)
Lux et Voluptas
Tu cheiras tão bem; sabes ainda melhor; nada é verdade e tudo é permitido no lugar que é céu e inferno; o ritmo suado e animalesco ergue-se em crescendo até atingir... a dor ardente de um flagelo; não, ainda não; outra vez do princípio...
Jonathan Strange
SETE DIAS SETE PECADOS - PROVOCATIO LUXURIA (II)
Edição de Luxo
Será que a Rita Lee faz uma canção para mim?
Luxúria é solidão. Amor é confusão.
Luxúria é penso rápido. Amor é fisioterapia.
Luxúria é multibanco. Amor é cheque em branco.
Luxúria é pena suspensa. Amor é condenação à liberdade.
Luxúria é foda. Amor é sexo.
Luxúria só tem amor próprio. Amor ama até a luxúria.
Ana Santiago
SETE DIAS SETE PECADOS - A LUXÚRIA (I)
Antília - Princesa da Atlântida (I)
Viajava Zeus pelo Reino da Atlântida quando, assolado pela sede da jornada e embevecido pela soberba paisagem de que desfrutava, resolveu descer até ao fundo de uma cratera onde havia duas lagoas quase geminadas: uma, corada de azul turquesa, e outra, completamente verde. Num relance do olhar, escolheu a azul, na esperança de que a água fosse mais fresca.
Mas, ao abeirar-se da lagoa azul distinguiu nela reflectida um homem que chorava. Não estava ninguém ao lado da lagoa, no entanto a sua figura aparecia reflectida na água. Sem perceber a origem do vulto, aproximou-se da margem da lagoa, até chegar à linha de água e notar que o homem habitava as suas profundezas. Fitou então o infeliz homem por um pouco e, com um ar apiedado, perguntou-lhe: que fazes aí? por que choras assim?
O homem contestou de olhos baixos: Sou Silvano, um simples pastor apaixonado! Perdi um amor... E assim desfiou, uma a uma, todas as suas mágoas: relatou-lhe como havia caído no doce engano de se
apaixonar por uma princesa, com quem passava tardes cálidas correndo pelos campos, tocando flauta e folgando. Assim foram felizes até que, um dia, informado sobre a paixão do pobre pastor e de sua filha, o velho rei destes reinos mais não fez do que proibi-los, para sempre, de se olharem sequer, pelo resto das suas vidas. Conhecedores da cruel sentença, os amantes recolheram-se à tristeza e ao choro, um de cada lado da enorme cratera de um vulcão extinto, ambos deslavados de pena e sulcados de lágrimas. Lado a lado, cresceram assim as duas lagoas: os olhos verdes dela esgotaram-se num grande lago de cor verde; os olhos azuis dele derramaram os desgostos, deixando escorrer uma vasta lagoa azul. De tanto carpirem, os desafortunados amantes imergiram na água das lagoas que eles próprios choraram e não mais voltaram a ser vistos.
Contudo Zeus, conhecido como um deus severo e caçoador, desta vez, comoveu-se com o destino do pastor Silvano, que seguia habitando a lagoa, e resolveu conceder-lhe um desejo. Num tom grave inquiriu-o: vou conceder-te um desejo, o que quiseres... porém presumo que queiras que eu te devolva a vida!? o que não te censuro. Mas, o pastor, em pronta resposta lhe contestou: Para que quero eu a minha vida se ela nada vale sem a vida daquela que amo? A mim, bastar-me-ia ver a minha amada correr feliz pelas margens da lagoa para o resto da minha além existência, para me sentir satisfeito. Condescendente com o pedido do pastor, Zeus rematou: Assim farei, darei vida à tua amada e uma vida eterna e feliz, mas ela só poderá ser feliz neste lugar e tu terás de suportar a sua felicidade. No entanto, pela tua sinceridade, concedo-te a graça de seres um dos preferidos de Pan e devolvo-te a flauta, com ela encantarás a tua amada nas tardes em que ela se vier deleitar com o sol e a água nas margens da lagoa. Tal como a tua amada, ficarás eternamente preso a estas margens, apascentando um rebanho na companhia das ninfas, condenado a vê-la ser feliz, sem lhe poder tocar. E prossegue: De cada vez que caminhares pelas margens da lagoa sob os teus passos brotarão margaridas, a flor que entrançavas nos seus cabelos quando furtivamente se viam por estes campos.
Depois de concedida a graça da vida ao padecente pastor, Zeus prosseguiu o seu caminho e deixou o outrora infeliz pastor dançando e soprando cantigas, sem caber em si de felicidade. A alegria com que pinoteava e aflautava melodias pelo ar contagiava as ninfas que bailavam em seu redor e, em séquito, todos iam andando para a lagoa vizinha. Zeus, que voava sobre os homens, chegou primeiro. Com um sopro encrespou o espelho da lagoa, fazendo com que a bela princesa viesse à tona de água. A visão da sua beleza extasiou Zeus que, como é sabido, sempre ofereceu poucas resistências aos encantos de uma bela mortal. Sabedor das artes do engano, o manhoso deus dos deuses de imediato se transmutou no desdito pastor e, fazendo-se passar por ele, beijou-a nos lábios com fervor. Ela abriu os olhos e reconheceu de imediato o rosto do seu amado, mas, antes que pudesse dizer uma palavra que fosse, Zeus pousou a mão sobre a sua boca e falou-lhe docemente: Sou o teu amado que volta das profundezas, agora condenado a ser um eterno pastor e a viver com as ninfas, contudo não mais vou deixar de velar pela tua felicidade e de soprar na minha flauta as mais belas melodias que já se ouviram nestas paragens. Aqui estarei eternamente para te receber quando vieres...
A princesa Antília vive agora feliz e realizada, vagabundeando pelas sete cidades em redor, sempre em redor da lagoa. Passa os dias contando histórias aos mais novos e, por malas artes de Pan, tornou-se a divina amante de todos os pastores que vagueiam pela região. E desde então, quando pela tarde por vezes a princesa vem, de mão dada com um novo amante, e se rebolam em suculentos beijos e cálidas invasões sobre a relva e as margaridas, o pastor chega risonho a acolhê-los com o seu séquito de ninfas e faz soar a flauta. Quando ela se despe para cada amante e ele para ela, abraçados em ânsias, embalados pelo doce assobio da flauta e acicatados pelas ninfas que dançam nuas em seu redor, dão-se até ao último fôlego, até ao cair do dia. E todos, ninfas e pastores, se despojam do corpo numa amálgama de corpos, num transe colectivo, prestando culto a Pan.
Joshua M.
SETE DIAS SETE PECADOS - A LUXÚRIA (II)
Antília - Princesa da Atlântida (II)
Silvano andava há séculos feliz e tranquilo pelas margens da lagoa verde. Como se vivesse num eterno estado de graça, num sono por vezes morno, como o deve ser o de um guerreiro do amor após longos e lânguidos momentos de prazer. Nada temia, Antillia, a cada amante escolhido, comprovava o seu eterno amor por ele, por ele, Silvano e por mais ninguém. Cada um de seus amantes, correspondia ao seu reflexo. Peles claras, ligeiramente doiradas pelo sol, corpos robustos, próprios de homens que vivem no campo, olhos esverdeados. De cada um deles, por osmose, recebia um intenso prazer proveniente das carícias dedicadas de Antíllia, deleitava-se com a procura dos seus lábios, sôfregos pela exacta cópia dos seus. Via com ternura a forma doce com que os mandava embora, aqueles corpos satisfeitos, amados em seu nome, ou porque alguém com maior semelhança a despertava para outra cruzada, ou porque o próprio tempo, que por ela nunca passava, desvanecia os seus sinais no corpo cansado do seu ultimo amante.
Mas um dia algo mudou. Sentiu-se inquieto e no meio da harmonia dessa sua segunda vida, a inquietude revelava-se como um profundo murro no estômago. À beira da lagoa e nos braços de sua amada, um homem moreno, de olhos profundos, amendoados, beijava-a de forma intensa. Antillia parecia estranha, talvez confusa, mas não desagradada. A volúpia com que tocava naquela pele mate e bronzeada, passeando as mãos ao longo daquelas costas bem delineadas, mostravam-lhe claramente o contrário. Não compreendia o que se estava a passar, aqueles beijos que a sua eterna amada oferecia àquele estranho, não os conseguia sentir, não lhe eram oferecidos a si, não eram seus. Uma onda espuma, enraivecida, inundava-lhe o corpo, veneno em vez de sangue atingia-lhe o cérebro, turvando-lhe em pleno o raciocínio – “Zeus!” – Gritou. Mas, o deus dos deuses não lhe respondia.
Zeus ouvira-o, há muito tempo previra este dia, conhecia a origem daquele uivo. Sabia bem de que veneno nascera. Algo tão simples quanto uma pequena gota do seu próprio odor. No dia em que resgatara Antillia das águas frescas da lagoa, não resistira à sua beleza e transmutado em Silvano, beijara-a devolvendo-a a uma vida edílica mas condicionada. Contudo, cometera um pequeno erro, não sabia se consciente ou inconscientemente, dera por isso pouco depois, mas tarde de mais. Embora todo o seu físico fosse exactamente igual ao de Silvano, envolvia-o o seu cheiro pessoal, suave, subtil, revelando o embuste. Claro que Antillia não se tinha dado imediatamente conta desse detalhe. Mas aquele beijo, o que a resgatara da água e do desgosto, havia sido marcante e determinado a procura de todos os outros. Procurara e encontrara amantes que haviam feito reviver o seu amado pastor, deus dos bosques e do vulcão. Silvano havia reaparecido, ora aqui ora ali, e ao som da sua flauta havia materializado o seu amor por longos e longos anos. Contudo, amante após amante, a busca de Antília refinara-se. Curiosamente, de corpo em corpo, começara a entusiasmá-la as pequenas diferenças: o lábio inferior mais generoso de um, o pequeno desvio do nariz de outro, o sinal nas costas de outro ainda, um pescoço mais alongado e robusto. Não sabia bem porquê, subitamente, já não era realmente a semelhança que a movia mas sim a diferença. Aquilo que fazia com que um corpo fosse único. Essa tendência fora-se acentuando, lentamente. Até que num último corpo, tão igual ao de Silvano que tivera dificuldade em encontrar uma ligeira diferença, sentira -se, pela primeira vez, triste.
Lucinda Gray
sábado, 17 de julho de 2010
SETE DIAS SETE PECADOS - PROVOCATIO GULA (I)
Chocolate derretido escorre entre os meus dedos percorridos por uma língua que já não me pertence; dentes afundam-se na textura luxuriante da obra prima de um mestre pasteleiro, sem respeito pela sua arte; o meu estômago distende-se até ao seu limite; invoco o vómito...
Jonathan Strange
SETE DIAS SETE PECADOS - PROVOCATIO GULA (II)
Hamlet Revisitado
O meu reino por um prato de esparguete!
(e assim se perdem os pequenos poderes...)
Ana Santiago
SETE DIAS SETE PECADOS - A GULA (II)
Vade-mécum da gula (edição de bolso)
Hoje amar-te-ei com mais apetite ainda, aguçado pela abstinência da última sexta-feira que dizem que foi santa.
Deita-te, meu amor, e deixa-me preparar-te. Passarei suavemente pela tua pele um óleo perfumado a desejo e voragem, lascívia amaviada de sonhos meus. Sentirás o toque indulgente da magia por segundos, em laivos inconscientes de prazer depurado. Salpicar-te-ei depois com o roçar dos meus cabelos e far-te-ei adivinhar a sensação da minha pele na tua.
Ao som quase ignorado de Lullaby, temperar-te-ei com o exotismo do açafrão das Índias na busca de uma cura que não desejo e regar-te-ei com grãos do Paraíso moídos num qualquer ritual ancestral desconhecido. Já salivo na ânsia do teu sabor enquanto os teus olhos não me mentem nem me matam.
Ainda esperarás o tempo devido para marinar e então, só depois de atingires o ponto efusivo do limiar da loucura, me sentarei à mesa para pecar contigo, sem guardanapo ao peito.
Passarei as minhas mãos no contorno do teu rosto para mais uma vez sentir a cor dos teus olhos e deixar transpirar a fome de ti. Deixarei escorregá-las pelo teu corpo até o sangue correr em frenesim. E pararei, inconsciente, quando chegar àquele estado de ebulição que me levará quase à suprema satisfação que só o pecado oferta. Entregar-te-ás sem resistência se não queres assistir à extinção do prazer nosso.
Compreende, amor, que és um gourmet de degustação primorosa e exclusiva, com o tempo parado nos ermos do mundo enquanto o nosso ritmo avança, numa clandestinidade deliciosa.
Não olhes para trás que eu só amo à sexta-feira, como os The Cure. Nos outros dias, os de dieta medicamente recomendada, apenas sobrevivo à sede de te amar todos os dias.
E vou querer-te mais que não me contento nem com a cor dos teus olhos nem com o calor do corpo teu.
Berenice Greco
sexta-feira, 16 de julho de 2010
SETE DIAS SETE PECADOS - PROVOCATIO AVARITIA (I)
Conta De Rendimento Perpétuo
E o que fez o pedinte quando descobriu que esteve toda a vida sentado a mendigar em cima de um pote de ouro?
Nunca saberemos...
Ana Santiago
SETE DIAS SETE PECADOS - PROVOCATIO AVARITIA (II)
Cela Dourada
No escuro, uma única vela; o ouro pede-lhe a luz emprestada e devolve-a com juros; eu sou o que tenho; eu tenho o que sou.
Jonathan Strange
SETE DIAS SETE PECADOS - A AVAREZA (I)
Almanaque doutrinário do avaro
Considere estas indicações como advertências vitais para a sua aridez de espírito.
No dia 1 de cada mês, não prodigalize a sua vontade de partilhar o que possui. Ao quinto dia, reveja o inventário dos haveres que ainda não detém. No décimo dia, reinvente estratégias mesquinhas para fazer render com juros o seu lado mais mofino. Dia 15 é a data ideal para cobrar a onzena aos seus devedores para que estes, caso quebrem o contrato, paguem mais as usuras devidas, – a sua tendência inata de agiota saberá tratar disso no momento. No vigésimo dia do mês, não se esqueça de fazer dobrar os sinos pela generosidade que nunca conheceu nem nunca lhe bateu à porta. Dia 25 é dia de contabilizar as migalhas que encontrou nos bueiros bafientos da cidade desde o passado dia 26.
Entrementes, poderá montar guarda ao cofre em defesa dos bens que trazem o mal aos outros.
Ex nihilo nihil
Berenice Greco
SETE DIAS SETE PECADOS - A AVAREZA (II)
O Apelo de Mammon
Numa fila interminável, espero pela minha única refeição decente do dia. Todos os dias, à mesma hora, repete-se este ritual. É precisamente neste momento que assombra na minha mente o motivo que me levou a esta situação. Enquanto aguardo a minha vez, a história da minha vida desenrola-se como uma fita cinematográfica à velocidade da luz.
Tinha vindo para Nova Iorque trabalhar como bancário na City, a mudança para um dos centros económicos mais importantes do mundo, permitir-me-ia estabelecer contactos com o mundo da alta finança e, assim, enriquecer mais facilmente.
Observava diariamente o modus vivendi da alta burguesia que transpirava glamour e sumptuosidade através da acumulação de fortuna. Era esse o meu sonho, ter para ser respeitado e admirado.
Alguns meses após, conheci, num café em frente ao banco, Lisie, uma bibliotecária. Começámos a sair frequentemente e após algum tempo iniciámos uma relação. Apesar de gostarmos um do outro, tínhamos perspectivas de vida algo diferentes; Lisie não ligava muito ao dinheiro, gostava saber mais e mais, por isso, nunca saia da biblioteca sem requisitar um livro.
Quanto a mim, estava completamente absorvido no mundo dos dólares, e começara a entender de que forma poderia aumentar a minha reserva de ouro sem muito esforço.
Comecei por ir algumas vezes a Wall Street para perceber como funcionava o mercado das acções. Pouco tempo depois, apreendi a lógica deste mercado, muito próspera e rápida. Assim que acumulei algum capital, resolvi começar a investir em acções, e ia diariamente à Bolsa de Valores. Numa das vezes que estava com Lisie, conversava sobre as minhas aplicações financeiras, aliás, era sempre eu a falar da mesma coisa, até que ela, com um sorriso algo irritado, retorquiu: - Mammon tem-te visitado muitas vezes!? Não entendendo aquela afirmação, fiquei algo intrigado, e pedi-lhe que me elucidasse. Após longa explanação acerca daquela criatura, em tom de crítica respondi: - Essas historietas não passam disso mesmo! A sabedoria não dá lucro! Lisie terminou dizendo: - Não há maior riqueza do que a acumulação de conhecimento.
Naquele fatídico dia – 29 de Outubro de 1929 – relembrei aquele diálogo áspero, acabara de perder todas as minhas economias naqueles malfadados títulos da Bolsa. Tudo o que agora possuía era um monte de papéis sem qualquer valor. A crise instalou-se e ambos ficámos desempregados. Lisie voltou para a sua terra natal e eu fiquei a deambular pelas ruas de Nova Iorque esperando por melhores dias.
Agora sentado, com o tabuleiro à minha frente, olho fixamente para uma imagem numa dessas acções que guardei. Sim, é mesmo Mammon com o seu ar imperial a seduzir-me: I want you!
M. Jota
quinta-feira, 15 de julho de 2010
SETE DIAS SETE PECADOS - PROVOCATIO PIGNITIA (I)
Trabalhos Cansados
A minha mãe diz que há gente que já nasceu cansada. Parece que a estou a ver a dizer isto com ar de reprovação. Mas também o diz muitas vezes a rir.
Para mim, a preguiça está antes e depois das grandes obras e das grandes ideias. Que venha o primeiro cansaço que não se deveu à preguiça.
Ana Santiago
SETE DIAS SETE PECADOS - PROVOCATIO PIGNITIA (II)
Ondas Calmas
Com os olhos fechados oiço as ondas do mar, à distância e saboreio lentamente a ambrósia terrena; O calor e a brisa acariciam o meu corpo; Ocasionalmente, navego com serenidade os reinos de Morpheu; Com tranquilidade, ignoro o choro faminto dos meus filhos.
Jonathan Strange
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