sexta-feira, 10 de setembro de 2010
A Caçadora
A mulher pegou na espingarda com maus instintos. Carregou-a com os últimos dois cartuchos que tinha na cartucheira. Olhou primeiro para a marido, depois para os filhos, um por um, todos de seguida, depois virou os olhos ao alto, apontou a arma e disparou. O silêncio. Caíu o primeiro pássaro, o que seguia à frente do bando, caíu aos pés do filho mais novo. Este chorou, pegou no pássaro com as duas mãos em concha, e fugiu a esconder-se no seu quarto. O pai chorou também, partiu a espingarda, abraçou os filhos e recolheram todos a casa. Nessa noite, cozinharam um arroz com o pássaro, a comida não era muita...
Joshua M.
quinta-feira, 9 de setembro de 2010
BLOGONOVELA "O GUARDADOR DE VARAS" - Episódio II
O GUARDADOR DE VARAS(II)
O tempo, como sucede sempre que uma estória acontece, passou. Ali permanecia ele, portanto, sempre nas imediações do seu barraco no meio do monte, já lá iam alguns anitos. Era ele, Tó, que tratava dos porcos, pois outra coisa não fazia além disso. De sol a sol, óinc após óinc, dava-lhes de comer, de beber, limpava-lhes o focinho no fim das refeições, lavava-lhes os dentes, limava-lhes as unhas (manicure e pedicure), preparava-lhes banhos de lama, fazia-lhes limpezas à pele e escovava cada centímetro daqueles couros emporcalhados até se apresentarem luzidios e sem sujidade — o que comprovava com o teste do algodão.
Tratava os porcos melhor que a si próprio. Dedicava-se-lhes em absoluto. Falava com eles e, assim, acabou por emudecer progressivamente, subtraindo-se, gradualmente, a conversar com os aldeões; dava nome a cada um dos porcos mas esqueceu o próprio; passou a caminhar sobre os quatro membros e arrastava um outro; partilhava as rações e mamava nas tetas das porcas; chafurdava na lama e deixou de tomar banho; passava o tempo a discutir filosofia e a jogar à roleta russa com os suínos... uma verdadeira porcaria! Estava isolado do mundo humano, por isso elegera o seu próprio mundo, chiqueiro. Ou vice-versa.
Bill enGates
Bill enGates
quarta-feira, 8 de setembro de 2010
Triângulo Escaleno
Cada momento entre Roberto e Francisca era um ciclone de emoções intensas perdidas num cruzamento de culpa e desejo. Eram ambos incapazes de resistir ao vendaval que os arrastava àquele motel de dois em dois meses. Sentiam um magnetismo, uma força de Coriolis a uni-los fatalmente na cama de todas as vezes, onde uma pujança temperada de sândalo deixava uma nuvem de voluptuosidade salpicada de suor e prazer. Amavam-se o mais carnalmente possível.
Maria chamou por Roberto do outro canto da sala para lhe apresentar a irmã. Quando aos olhos de Roberto se desenhara uma feição perfeita de mulher, ninguém naquela sala se apercebeu do que de facto se passara. Roberto sentiu-se uma ilha fustigada pelo mar irado, tal fora a violência do impacto e o âmago amordaçado, ao reconhecer naqueles traços a mulher com quem flirtava de dois em dois meses no “Motel Hiva-oa”. Deixou-se então, num coup de grâce, enlevar indolorosamente para um deserto de sentimentos confusos, opacos e com cheiro a sândalo.
Berenice Greco
Ontem vi
Ontem vi nitidamente o infinito. O céu nocturno, límpido, a três dimensões. Há muito que ele não se revelava assim. Sensação fantástica essa, a da nossa pequenez face à imensidão e beleza do desconhecido. Consegui partir de mim, partir do mundo, só e apenas observando o espaço imenso que nos envolve. Lembrei-me das nossas vidas mundanas, aflições e afectos, dores e preocupações, que nos afligem tanto que parece que nada mais existe senão esta passagem pelo mundo. Ah! Como é deliciosa, simples essa sensação de pequenez que nasce do contraste entre o escuro da noite e a luz das estrelas. Perfeita harmonia, perfeito equilíbrio dos corpos celestes. Quis dormir ao relento, à beira da lagoa. Longe da azáfama da cidade, longe da azáfama de pensar e de estar, longe dos humanos. Só. Tomando banho de corpos celestes.
Lucinda Gray
terça-feira, 7 de setembro de 2010
Palavras Versadas
SAUDADE
se bem que o conjunto de vocábulos {quarto de hotel}
ou a referência a um qualquer
nome próprio e apelido conhecidos,
{como fernando pessoa, por exemplo}
ou ainda a algum lugar exótico, ficassem bem nes-
te poema, como é, sem negação possível, a tendência
actual, não o farei.
porque nos poemas, assim creio, o sujeito só deve representar
o que sente
e, precisamente e enquanto tal, neste poema
só tenho a dizer o que sinto: e o que sinto é que
esta saudade sem distância
é tão simplesmente
um enorme inalador de silêncio.
Sylvia Beirute
domingo, 5 de setembro de 2010
Provocatio
Tipo USB
tipo termos uma usb na cabeça
e trocar identidades
sim, vestir a pele...
mudar de sexo
experimentar ser cão
vou dedicar-me a este tema da falta de individualidade
A cena é:
'tás com uma dor e vais ao médico...
Será que sou castrado pelo meu cérebro?
K. Tan
sábado, 4 de setembro de 2010
Crónica Benzodiazepina
só
Desde muito cedo estar só foi um estado estruturante da minha existência. Foi só que me encantei por quase todas as cores, sabores e texturas que povoam os meus sonhos, as minhas conquistas, as minhas listas de afazeres e de metas. A solo construi um ideal de homem, de vida, de profissão, de lar. Sozinha desmontei todas as doutrinas que me impingiram. Sem dizer nada a ninguém inventei tanta coisa e tantas imagens no espelho que fiquei presa na minha rede de conexões internas, sem abertura a operadores externos, mesmo estando rodeada de gente a toda a hora. Sou tão eu cada vez mais que até me assusto. Perguntam-me se não tenho medo da solidão, de estar sozinha...? Mas haverá outra forma de estar? Não há nada pior que estar fora de mim. Acreditem. Quando estou na minha presença, têm-me mais do que nunca.
Ana Santiago
sexta-feira, 3 de setembro de 2010
Nós Por Desatar
Depois de termos tragado os dias amargos do passado, cruzámo-nos algures na vida – caminhos ínvios do destino – e remoçámos os sentidos. Hoje acordamos para o presente, com os olhos moídos, pensando ter vencido a vida, mas, no íntimo do nosso deserto íntimo, sentimo-nos derrotados e secos. Estamos maiores e vivemos pequenos, estamos pútridos de sentir e não sentimos, queremos amar com ânimo e apenas nos doem as penas do coração.
Quando nos encostámos ao sentir, os nossos corpos caídos em estado de letargia aguda, estremeceram ao despertar, ergueram-se tumultuosos e temíveis (qual mítico Adamastor) e mareámos por todos os prazeres assombrados por cabos tormentosos. Um dia sim, outro não, sempre talvez. Num dia vinho, amor e rosas; num outro, a ressaca, espinhos e ressentidas prosas. Dias de talvez-amar, dias de criar, dias de quase-dar, dias de Eros e Psiké mascarados, dias amargurados por uma felicidade impossivelmente nossa. Noites de velar por todos os sentidos.
Por vezes, as horas a dar o tempo de um dia passado, horas empatadas, horas e horas a adiar o futuro, sempre tão distante quanto o horizonte. E tu, minha triste companheira do caminho, a assobiares as horas perdidas da tua breve e tardia partida, deixando na memória apenas um adeus soprado por entre os gritos abafados, por entre a voz das nossas parcas e enormes diferenças.
Antagonizamos e morremos um pouco. Reconsideramos e renascemos, quando na manhã de um outro dia retorna a esperança do nosso tão recente encontro e de novo a doçura dos beijos perdidos e reencontrados, estamos sinceros e prementes. E penso: quem me dera poder protelar no tempo, este que é tão o nosso tempo, e revivê-lo até à eterna idade de me perder da razão. Mas, não posso ficar aqui ao pé de ti, não existimos nem existe em Nós. A minha vida é incessante e não posso ficar, sem ter a sensação de estar sempre a partir para onde nunca ficarei.
Quem me dera fugir contigo para nenhures e lá reencontrar-me comigo. Todavia, o único golpe de fuga que sinto é o da minha própria existência, que se escapa com o tempo para o lugar de onde fujo. Em ti, pressinto vagamente uma vida de outro viver e volta-me a vontade de consumir o resto de mim, o que já não tenho para dar: um minuto apenas, o que ainda não desperdicei, a teu lado…
E depois, lado-a-lado viveremos a sós, porque já não cremos, desatadamente - no prazer que temos para desatar - em Nós!
Joshua M.
quinta-feira, 2 de setembro de 2010
BLOGONOVELA "O GUARDADOR DE VARAS" - Episódio I
O GUARDADOR DE VARAS(I)
Chegou à aldeia escapulido da mãe, ninfomaníaca sado-masoquista rural, de quem saíra havia então mais ou menos 17 anos. Tanto as suas características fisionómicas como os seus hábitos, sobretudo o modo de satisfazer as necessidades básicas, viriam a determinar o papel que lhe caberia naquela minúscula comunidade sem dor nem pecado.
Mal tinha pousado a sua modesta mala, Tó foi abordado por um grupo de aldeãos avesso à ideia de o ter por vizinho, sendo ele um rapaz tão mal formado, pior apessoado e pouco higiénico. Confrontados com os seus indefectíveis intentos de permanência, e após um breve período de reflexão em plenário, decidiram oferecer-lhe emprego como guardador-mor de todos os porcos da aldeia. E se depressa o pensaram melhor o fizeram, pondo em prática um sonho antigo dos suinicultores locais que apenas aguardava um executante.
No dia seguinte, pela manhã, Tó foi, a bem dizer, escoltado até um barraco abandonado, a uns bons quilómetros de distância da povoação, onde as beatas da aldeia trataram de lhe providenciar um mínimo de acomodação e condições de habitabilidade, sem deixarem de ter em conta a peculiaridade do hóspede. Depois, os homens construíram a pocilga comunitária onde, no final da tarde, as camionetas despejaram dezenas e dezenas de quadrúpedes suínos anafados, suculentos, roncantes.
Bill enGates
quarta-feira, 1 de setembro de 2010
já vou
e como se o vácuo fosse imenso, como se infinito o tempo fosse à nossa frente, e não parasse, deitas-te só mais um pouco, porque está frio, porque tens sono, porque te dói o corpo e não dormiste nada, porque não te queres levantar, porque te dói a alma, nada te espera lá fora, nada te espera cá dentro. e como se criança fosses, agitas os braços e franzes o sobrolho quando te abano levemente e te digo para te ires vestir, porque tens de ir trabalhar, porque tens de reagir, porque assim nunca te curas, porque assim nunca queres ficar bem (porque assim ainda tenho de fingir que me quero levantar, porque assim ainda tenho de acordar para o frio que lá fora me gela mais que aqui onde sozinha fico em mim sem me ver). e como se não me ouvisses, porque me ouves alto demais, viras-te para o outro lado e tentas dormir, para ver se a dor passa: a da cabeça, e a da ausência que há em ti. fazes-te falta, porque te foges. e és ainda a criança que chora no escuro, ao fundo da escada, com os gritos que vêm lá da sala ecoando à tua volta como um grito de guerra, nessa guerra que, invadindo-te, os gritos lançaram em ti: porque nunca mais foram embora, nunca mais abriram espaço para que te visses ou para que visses que talvez exista hoje algo melhor. e matas o que é fraco nos jogos que te sufocam a raiva, porque os choras. e chorando-os mata-los sempre. afinal, não é essa a lei da selecção natural? fracos e fortes, fortes sobre fracos, fortes contra fracos, fracos em fortes...afinal, não foi isso que aprendeste? não é isso que choras, agora que criança ainda tens medo do escuro? agora que como criança te escondes entre as mantas para não ter de viver?
e como se tudo estivesse bem, acabas mesmo por dormir, entre os gritos cansados que te explodem na mente, entre os tumultos que lentamente se afastam com a consciência, e vem a calma, vem a calma, a calma... até o dia há-de novamente surgir. para te comer. porque o dia volta sempre, tal como não queres, e nunca vai parar. mas, como se isso não te importasse, dormes... só mais um bocadinho.
Virginia Machado
terça-feira, 31 de agosto de 2010
Palavras Versadas
REVELAÇÃO
Pela porta aberta de par em par
suspira o meu bocejo
em plena estrela polar
os alpes do alentejo
Donzelas de pescoço partido
são frio que adormeceu
e deus sabe que é infinito
não sabe ser como eu
Se um cavalo quiser saber
se és de oiro ou de prata
antes de responder
dá-lhe um tiro numa pata
E depois de morrer desperta
num bocejo intermitente
que bela porta aberta
sentir o nada de frente
João Belo
domingo, 29 de agosto de 2010
sábado, 28 de agosto de 2010
OS NOSSOS CONVIDADOS - Crónica Benzodiazepina
Gotas Imperfeitas
O tempo passa por nós e poucas vezes nos damos conta dos pequenos pontos brancos ao redor de desejos insatisfeitos.
Quis ir sim, hoje não tenciono voltar. Quiçá um dia me arrependa, mas conhecendo meu ventre como conheço, nem chegarei a desdenhar talvezes.
Somos amados de formas únicas e tangentes, tal como em equilátero ao quadrado, nós vemos as portas de acontecimentos majestosamente caricatos, em nossos desenhos tornados castanhos de árvores.
Nunca trocamos nossas gotas de água por quereres translúcidos. Somos apenas rascunhos do que poderíamos ter sido, se a professora não nos tivesse apanhado a copiar impiedosamente a nossa personalidade.
Carregada de humor negro, lanço-me nesta batalha de decisões ambíguas e desisto de uma atitude barata.
Eis-me aqui, numa serenidade inigualável, em momentos que trepo ondas que se fazem misturar nos galhos secos de uma árvore albina.
Já não somos espantalhos que escolhemos, como deficiência psicológica. Já transpusemos sentidos ligados à intemperança de gases mal triturados e distraídos.
P.S.: Quando não sabemos quantas pernas tem nosso pensamento, deslizamos.
Anja Rakas - Moçambique, Maputo (Blogue "Anja Rakas")
sexta-feira, 27 de agosto de 2010
OS NOSSOS CONVIDADOS (III)
Insónia
São quatro horas da manhã - ainda não dormi nada, nem tenho tenção de o fazer, não consigo. A minha cabeça está incrivelmente cheia de emoções e pensamentos ridículos, todos eles desarrumados. Fito o tecto do meu quarto, iluminado pela luz ténue dos candeeiros da rua. Nada disto faz sentido, as coisas que me rodeiam parecem-me todas semelhantes, todas monótonas, nem o próprio silêncio que se faz escutar é lógico. Se, eventualmente, pudesse retroceder no tempo não teria feito o que fiz, nem teria dado metade do que dei - afirmo. Levanto-me - vagueio pelo quarto, pela casa. Procuro conforto num insignificante copo de água que vai ficando vazio. Os lençóis, a almofada com o cheiro a lavado não me confortam. Dou voltas na cama - o arrependimento não se some, atormenta-me. Quero sorrir de tudo isto, palavra que quero, mas sinto um enorme mal-estar. Assim passo as noites que nunca mais encontram fim.
Joana Santos – Portugal, Porto de Mós (Blogue "Português Suave")
quinta-feira, 26 de agosto de 2010
OS NOSSOS CONVIDADOS (II)
Segredos
O segredo do amor é a androginia: somos todos, homens e mulheres, masculinos e femininos ao mesmo tempo. É preciso saber ouvir. Acolher. Deixar que o outro entre dentro da gente. Ouvir em silêncio. Sem expulsá-lo por meio de argumentos e contra-razões. Nada mais fatal contra o amor que a resposta rápida. Alfange que decapita. Há pessoas muito velhas cujos ouvidos ainda são virginais: nunca foram penetrados. E é preciso saber falar. Há certas falas que são um estupro. Somente sabem falar os que sabem fazer silêncio e ouvir. E, sobretudo, os que se dedicam à difícil arte de adivinhar: adivinhar os mundos adormecidos que habitam os vazios do outro.
Nirma Regina Constantino - Brasil, São Paulo (Blogue "A Arte dos Livres Pensadores")
O segredo do amor é a androginia: somos todos, homens e mulheres, masculinos e femininos ao mesmo tempo. É preciso saber ouvir. Acolher. Deixar que o outro entre dentro da gente. Ouvir em silêncio. Sem expulsá-lo por meio de argumentos e contra-razões. Nada mais fatal contra o amor que a resposta rápida. Alfange que decapita. Há pessoas muito velhas cujos ouvidos ainda são virginais: nunca foram penetrados. E é preciso saber falar. Há certas falas que são um estupro. Somente sabem falar os que sabem fazer silêncio e ouvir. E, sobretudo, os que se dedicam à difícil arte de adivinhar: adivinhar os mundos adormecidos que habitam os vazios do outro.
Nirma Regina Constantino - Brasil, São Paulo (Blogue "A Arte dos Livres Pensadores")
quarta-feira, 25 de agosto de 2010
OS NOSSOS CONVIDADOS (I)
ÂNCORAS
Contemplando o oceano das possibilidades infinitas, arrebatados pela maré das indagações
construímos castelos de areia à beira-mar
castelos que ao avançar das ondas se desfazem ao mero toque, partilhando a sina das nossas mais firmes convicções
aos olhos desenhados para a escuridão, desejosos de um vislumbre da luz do dia em technicolor, resta o consolo de um filme mudo em preto e branco, quando muito
... as sombras da "caverna de platão"
em dívida com a certeza, compramos outra noite de sono com a moeda fácil do subterfúgio, subornando a dúvida com as migalhas de realidade de que dispomos
a pergunta que não se cala exige sempre mais desculpas
desculpas dignas de uma cela acolchoada, no mais das vezes
cinco sentidos apenas e uma paleta limitada de cores, a mistura de tintas intuitivas na paisagem da percepção
plástica disforme do mundo exterior, imagem e semelhança do pouco que somos e do muito que pensamos ser lançada sobre tudo que é
e a obra-prima natural necessitaria de retoques?
mente humana: berço e sepultura dos esforços vãos, panteão de deuses efêmeros, alimento perecível da conveniência temporária
na praia segura da razão, tendo à frente as águas turvas do desconhecido, a promessa tentadora do horizonte acena
...a nau da utopia conduzirá a aventura aos muitos portos de escala da desilusão
testando a fronteira final da curiosidade
Rinaldo Leriano - Brasil, Criciúma (Blogue "Parlatório")
terça-feira, 24 de agosto de 2010
OS NOSSOS CONVIDADOS - Palavras Versadas
FOI TARDE!
Soubera eu
Que o inferno era feito de vagas de silêncios
E de verdades que não ousámos admitir
E que nas margens do purgatório
Se deleitavam os ruídos que evitámos
Com os confrontos adiados a fazer-lhes guarda
E que à porta nos abririam os braços
Os amanhãs perdidos
E teria ficado mais tempo a convocar a fúria
E baniria do dicionário íntimo a prudência.
Palas Athena
domingo, 22 de agosto de 2010
Provocatio
IRREVERSÍVEL
Deixara para trás a cidade
há séculos
Dois homens levaram-na aos ombros
e a cidade estava linda
Deixara para trás a cidade
porquê perguntou-me uma cegonha
Porque o destino é cruel
mas aceitável!
João Belo
sábado, 21 de agosto de 2010
Crónica Benzodiazepina
O círculo infindável do amor particular
Deixa-me escrever em vez de discutir. Deixa-me meditar primeiro, antes que a visão fique turva pelos vícios ancestrais e faça do meu discurso um círculo privado.
Foi no Continente que me surgiu a ideia. Foi a capa daquele livro que me chamou a atenção. O título, a contracapa, um cientista em contra corrente a escrever que todos os fenómenos são cíclicos. Todos sem excepção, repetem-se após intervalos aproximados de tempo, manifestando-se em acontecimentos de visibilidade aparentemente igual. Não li muito do livro, porque só lá fomos comprar uns queijos e umas caixas de cereais. Fiquei pela contracapa. Mas ficou a ideia, mais uma.
As minhas ideias surgem assim. Ou é um cartaz a dizer que quem quer experimentar coisas novas compra no LIDL, ou é a capa da Visão, alertando que 70% das doenças do nosso tempo são provocadas pela qualidade da carne que comemos (o que é uma tanga). As minhas fontes são as vossas fontes. Eu leio o que toda a gente lê. Talvez não leia é da mesma forma. Conjugo tudo como se fosse um enorme puzzle. O espaço imaginário que defini como realidade, estilhaçou-se em mil partículas. Cabe-me juntar tudo numa única existência e acabar com o inferno que criei para me deitar.
Voltando ao livro e pelo pouco que li, aparentemente, todos os fenómenos são cíclicos. Das partículas atómicas ao movimento dos planetas, às calças boca de sino, às tendências de música e do yoga, à vida e à morte, aos vírus, às guerras, às crises financeiras, aos títulos do "Futebol Clube do Porto" - tudo manifestações visíveis de repetição. Para uns, isto é o mesmo que encolher os ombros; para mim, é levar com um projector de luz vindo do céu azul.
O círculo infindável do nosso amor particular é mais fácil de compreender; é nosso, é sofrido, é apaixonante, já teve tempo suficiente para dar muitas voltas. Tem todos os ingredientes para ser previsível para os amantes. Para mim, cada vez mais atento, é como se estivesse a repetir uma série televisiva: triste, melancólico, excitado, eufórico, porque prevejo o episódio que se segue, e o seguinte, e o seguinte, e o seguinte... até ao último, antes da série recomeçar de novo. Já estás a ver onde quero chegar!?
A pergunta, que ontem me fiz a mim mesmo, é muito simples:
- Terá que ser sempre assim?
Teremos que morrer sempre que nascemos? Não será a morte, como ele dizia no outro filme, apenas mais uma doença? E se é uma doença, não haverá por aí uma cura? Se o nosso amor particular quer romper para o amor verdadeiro, o eterno e imutável sempre, nunca será através do corpo que envelhece, nem será através das sensações e sentimentos que o cérebro nos proporciona, porque no dia em que o corpo morre, eles vão junto.
A resposta para a pergunta não é facilmente digerível. Mas é a resposta que encontrei dentro, no tal espaço silencioso, cada vez mais silencioso, para onde vou quando fecho os olhos.
Se o corpo morre, se o prazer morre com o corpo, se o amor particular, a alegria, a felicidade estão tão condicionados pelo corpo e pelo seu prazo, então não quero amar-te mais enquanto corpo.
O amor particular como meta, faliu dentro de mim. Nasceu como um pregão, cantei-o, e extinguiu-se por fim.
DuArte
sexta-feira, 20 de agosto de 2010
In Itinere
A flor que és, não a que dás, eu quero.
Porque me negas o que não te peço?
Ricardo Reis, in Revista Athena, n.º 1 (1924)
Contei todas as estradas até chegar a ti e não tinha perdido um minuto para pensar, para te escutar quando emudecias os gritos, para te soltar a força do que querias ser não sendo – e contado e visto tudo, nada aconteceu que não houvesse previsto. Sempre me quiseste casa sem rua, calcando as pedras sem casas em que não consentias, erigiste muros através do que sou para conter o que quero ser. A voz abafada de quem sobe a montanha para se calar lá no alto, nunca volta sem uma palavra arfada no desconsolo da jornada, como um lamento em apitado contratempo, que se evola pelo ar límpido até ao tecto do vazio.
Somos nós que acendemos fogueiras intermitentes no caminho, que aquecemos os pés batidos contra as estradas mais venais; somos nós que dejectamos as palavras cruas contra os lábios desencontrados, e que nunca nos buscamos; somos nós que já vimos o astro subir despertador e o topámos ao deitar-se poente, cruzando o céu do nosso quarto crescente; somos nós que nos cortamos nos gumes que afiamos contra as pedras que temos de vencer; somos nós e nunca somos, quando fingimos ser o outro que parece ser parecido connosco, e afinal só deixamos de o ser porque o tempo perdido nos atalha e tolhe o tempo devir.
Parti para dentro de ti e fui e vim tão depressa que mal te senti, mas ficaram as presas do teu ser presas nas teias da minha vida, o teu odor penetrante nas sombras que me guiam as mãos, que ficam, no fundo de gestos melífluos, opacas. Custa-me recordar os factos pelo meio do tempo que já perdemos de vez – e é tão nítido o teu ténue voar sobre o meu corpo transverso; é tão sonante o teu querer estar por onde a utopia dos homens tem lugar; é tão belo o teu corpo ao dar o que sente na ânsia de se dar ardente. É tão o nosso fim, que nunca queremos que acabe assim.
Joshua M.
quinta-feira, 19 de agosto de 2010
Todos somos semente
À semelhança da semente, sentimo-nos por vezes protegidos pela carapaça forte que nos envolve e pelo calor do subsolo que nos protege. É a nossa zona de conforto. É tão difícil romper com ela quanto o é para a semente rasgar a sua carapaça e, através de frágeis caules, abrir canais por entre pedras e torrões de terra rumo à claridade, mas também rumo ao vento, à chuva e aos pés dos transeuntes. Em cada um de nós, há uma potência a realizar em acto, como em cada semente há uma flor em potência. Esta concretização significa a realização do nosso ser, o nosso cumprimento. A concretização plena das nossas capacidades. Potência e acto. Agir fora da zona de conforto significa também experimentar a dor. Deixá-la entrar, assumi-la, para que ela possa cedo partir. Significa sentir receio, verdadeiramente medo e incerteza. É o duvidar de nós. A superação dessa dúvida existencial pode fazer-se com pequenas, mas recompensadoras conquistas, por vezes diárias. É um teste à nossa humildade e à nossa paciência. Somos sempre um projecto do que viremos a ser - em potência somos tudo, em acto somos apenas uma parte.
A paciência deve ser uma das virtudes mais difíceis de gerir. Em excesso, torna-se defeito, porque nos remete para a não-acção. A gestão desse equilíbrio não é fácil, porque tudo tem um tempo próprio, mas essa adequação não nos pode ser dada por nada, nem por ninguém, que não nós próprios. Só cada um de nós poderá ditar o “timing” correcto para agir num determinado sentido, ou noutro. Cada flor faz o seu caminho e a primeira escolha a fazer, ou não, é brotar. Se quiseres caminhar sobre as águas, primeiro tens que sair do bote.
Lucinda Gray
quarta-feira, 18 de agosto de 2010
a vez
aquela vez em que voltaste cabelos soltos pele mais clara para ficar a observar o rio que não sabias que existia o dia 19 sempre 19 e chovia aquela vez em que ficaste e porquê eu não sabia e acho que hoje ainda não sei que naquela vez que só sorriste te cabe no peito o frio lá fora que entra dentro e fica a observar o rio a que voltaste por não saber que existia aquela vez em que voltaste cabelos soltos pele mais clara só mesmo para observar o rio e nele encontraste cabelos que crescem com a luz do dia naquela vez em que ficaste suando frio o amor de dentro aquela vez como qualquer outra aquela vez em que voltaste e ainda hoje não sei porquê aquela vez em que ficaste e de novo brotou de mim cabelo em cada poro aquela vez e ainda crianças brincando lá fora apesar da chuva e a tua mãe ai cala-te aquela vez em que voltaste para me ver ficar e te encontraste mais claro cabelos soltos olhos escuros aquela vez em que o sol é negro o dia é negro e ser negro faz-me feliz aquela vez em que a tua mãe ai cala-te porque gritaste outra vez naquela vez em que voltaste e havia trovoada lá fora e as crianças ainda assim brincavam como se nada fosse aquela vez a tua mãe ai cala-te e tu à janela a ver as crianças lá fora aquela vez dia 19 tudo tão negro crianças lá fora a tua mãe e tu mais claro aquela vez em que feliz voltaste e ficaste para sempre. aquela vez em que o cabelo do dia te tornou noite e assim junto a mim ficaste. aquela vez, quando morremos.
Virginia Machado
terça-feira, 17 de agosto de 2010
Palavras Versadas
Piolho
A menina sabe que pisca os olhos em tiquetaque obsceno?
Bem o sabe. E quer. Não por esgar de elementar pornografia,
tão-pouco por convidar intermitentemente à euforia,
mas porque o mundo acaba no seu olhar pequeno
e consome no jugo das pálpebras a obstipação do dia;
enquanto eu, apenasmente um entupido rapaz
a escrevinhar o mar impossível mergulhando na cidade
numa esconsa mesa de café,
sou incapaz
de libertar na tinta a onda terrífica que me invade
e perco o pé
e insisto em ideias que encontram ricochete na miopia.
Menina, tantos livros que traz...
Vejo que lê os filósofos... veio em busca da verdade?
Partidária da fé ou das conservas em vácuo da universidade?
Não tarde, diga lá quem é.
Alguma vez lhe tingiram de amoras o rodapé?
Como ama, como se chama, como inflama a sua idade?
Costuma ir ao estádio ver chutar a liberdade?
Aproveita as horas vagas para vaguear no salão da dança?
Desacredita da política, que os políticos só enchem a pança?
Tem uma avó paralítica com verrugas na herança?
Decorou Cervantes na quixotesca fase de criança?
Ah!, sente saudades da maternal redoma adornada de faiança
e aos domingos o porco, a providência, a missa, a matança.
Menina, afaste-se da esperança!
(Acaba de entrar na limitação urbana com esplanada para o infinito)
Abafe o seu grito
que não lhe adianta gritar.
Respire fundo, outra vez, e outra, aproveite para respirar.
Aqui cada um vive aflito
imaginando que respira, inventando o próprio ar
como se o ar não fosse um mito.
Eu transpiro essa aflição em cada poro, bem admito.
Mas este café é em todos os hemisférios o único onde o
mundo ainda brilha,
se quiser pode chamar-lhe a ilha
onde atracam erráticos navios quase prestes a sufocar.
E por falar em boca, o seu olhar,
que de pestanejar bruxuleante como quem beija
pode bem beijar como quem pestaneja.
Seja como seja,
afigura-se-me obsceno esse seu viço
e por isso
eis que me atrevo a confessar como é em mim pleno o feitiço,
o quanto desejo obsequiá-la voltando-lhe a página enquanto estuda
e portanto não me importa que leia, releia e permaneça muda.
Basta-me o seu piscar castiço,
a maneira omnisciente e poderosa de obliterar o mundo inteiro
com o seu piscar incessante de miúda,
esse olhar sobranceiro
de quem decide inundar uma viela ou implodir uma praça;
de quem encerra lenta e profundamente a luz como uma ameaça
que o tempo presente não despedaça;
de quem por mera pirraça
mas com intangível graça,
pode decidir no calendário a próxima desgraça
com um simples piscar de olho.
A menina pisca obscenamente e apresenta-se assaz singela
mas não se iluda com a fugaz aguarela:
pode esmagar com a unha o piolho
que embate e insiste contra a vidraça
ou abrir a janela
e confiar na sorte para que de si faça e desfaça.
mas, sabe?, ao contrário do que lhe disseram a vida não é assim tão bela,
— infelizmente ela
resume-se a uma breve piscadela
que dói e nunca mais passa.
Bill enGates
domingo, 15 de agosto de 2010
Provocatio
A Senti-métrica da paixão
O que será preferível para uma mulher:
Que o seu parceiro tenha o pénis pequeno? ou que seja pouco inteligente?
Creio que 99% apreciarão mais a qualidade que dispensam nos (prováveis) amantes.
Joshua M.
sábado, 14 de agosto de 2010
Crónica Benzodiazepina
Vieste às putas?
Sim? Então eu explico.
Nem mais: ilustram as estatísticas que a matilha internética procura lautamente “putas” – entre outros termos oriundos de idêntico hemisfério lexical e que dispensam demais apresentações – nos motores de brusca aparição da ciberaldeia global. Ora, filósofos e fanfarrões que somos, nem sempre nesta ordem, saltitões e a esticar o pescocito esquálido, qual emplastro blogosférico, queremos gritar estou aqui, estou aqui na ribalta da primeira página de resultados dos benfadados google e bing e ask e msn e sapo e redundante parafernália de buscadores a que basta atirar um osso que diga “putas”, ou outra coisa qualquer de vida difícil, para que os moçoilos desatem a esgravatar bytes infindáveis de informação servida a preceito do apetite.
Desde tempos imemoriais, dos quais, convenientemente, não há pois memória, é sabido que onde há putas nunca faltam filósofos embevecidos com a sabedoria dessas mulheres, muito para além do que os costumeiros entreténs de alcova fariam supor. Os fanfarrões, esses então!, fazem parte da mobília estrutural da putalhice filosófica. Se não, reparemos: a república seminua é desgovernada por um conjunto de deputedos…
Ou seja, depreende-se no supracitado que os mais dos que aqui nos visitam querem, na realidade, ir às putas. E sentem-se defraudados, por certo, ao não encontrarem cá as putas que tanto procuram nos interstícios da corrente eléctrica que os liga ao Mundo. Em abono da verdade, e em minha-nossa defesa, devo aqui solenemente confessar que putas é coisa que me agrada sem reservas. Vinho verde também, embora seja um tudo-nada mais ácido. Mas aqui, neste blogue, o que grassa à fartazana são PUeTAS. Aliás, tal como as/os demais correlegionários de filosofice fanfarrónica, o verdadeiro PUeTA aqui sou eu, que tenho a alma à venda nesta esquina à espera daqueles que queiram dar uma voltinha com ela nos recantos obscuros da existência, essa mesma que faz de nós seres preservativos. Acoitamo-nos poeticamente, afinal. E se não fazemos trabalhinhos orais é somente para não falar mal de ninguém à boca-cheia.
Dentro do turbilhão desta fome de putas que percorre internet, consensualmente, putativamente até, decidimos que doravante vamos chamar todas as putas pelos nomes. Para que os radares de pesquisa nos sintonizem nas ondas putanianas é necessário que haja aqui putas com fartura, integradas no meio-ambiente, como população permanente, embora daquela que flutua ao sabor da carne, como é apanágio das putas. E dos filósofos. E dos fanfarrões. Atenção, contudo, que as putas expostas são para consumo na casa.
Não reste dúvida: temos sobremaneira orgulho nestas putas que nos acompanham e que de quando em vez perguntam "quanto é o tombo?". Assim como assim, são as nossas putas e não as trocávamos por quaisquer outras putas. Vivam as nossas putas! As nossas putas ao poder!
Se de facto ainda estás a ler este chorrilho de putalhices é porque não deves ter vindo às putas. Ou se calhar vieste, mas és o tipo de pessoa que gosta de pornografia marada, esquisita ou perversa e então podes enfiar este blogue onde mais gostas, ou seja, nos favoritos.
Se cá vieste ler mesmo qualquer coisita, devo pôr-te de sobreaviso: se obtivermos o desejado desempenho promissor, vulgo page ranking, na área da pornochanchada – putas em termos de core business –, o mais certo é que rapidamente transformemos este blogue numa casa de putas, para pôr, afinal, as nossas putas a render e ir de encontro às expectativas e ansiedades dos infoputanheiros que nos visitam. É negócio. E é sabido que a Poesia não enche barriga a ninguém, sobretudo quando normalmente não tem os ingredientes mais aputecidos, como é o caso.
Já agora, com licença: putas, putas do jet-set, putas boas, as putas ao poder porque os filhos já lá estão, grandes putas, putas velhas, putas de Lisboa, putas à moda do Porto, putas do interior, o interior das putas, vai às putas, põe-te nas putas, o governo adverte que ir às putas dá vontade de fumar, putas e vinho verde (ou será trutas e vinho verde), tão novo e já com putas, suas putas, putas que pariu, putas de vida difícil, duas putas no estômago à queima-roupa, putas tristes, belas putas, zona interdita a putas, sindicato das putas, filho de um comboio de putas, putas take-away, putas by night, putas fever (ah!, os saudosos mano negra...), putas, putas, putas, casa de putas, putas & companhia.
Pronto, este acrescento deve garantir a subida de algumas posições no ranking de putas.
Por último, a césar o que é de césar (ou da irmã dele): desconhecendo se lhe é original ou não, a verdade é que a primeira vez que li a expressão PUeTAS foi num livro do João Pedro Gravato Dias, insigne poeta da nossa praça.
E dito isto agora já podemos ir todos às putas descansados.
Põe-te nas putas.
Bill enGates
sexta-feira, 13 de agosto de 2010
SEXTA-FEIRA-TREZE - Provocatio Paraskavedekatriaphobia
Porque há dias felizes...
Era um homem muito supersticioso: depois de lhe ter passado por debaixo da escada, casou com ela numa Sexta-feira - Treze.
Joshua M.
quinta-feira, 12 de agosto de 2010
Parti de mim
Por vezes, sinto que fugi. Fiz as malas e parti de mim. Não me revejo em sítio algum, nem sequer no espelho, nem no tom de voz, nem no corpo. Não me vejo diferente de quem habitualmente sou. Não me vejo e ponto. Não vejo o mundo material, físico, que me rodeia. Não faço contas de somar, nem de subtrair. Calculo mal as distâncias que separam o meu carro dos passeios. Não vejo quem comigo se cruza. Não me vejo e ponto. Não vejo futuro nem passado. Ausento-me do presente. Fico num limbo sem nome e sem vontade. Não se trata de um estado depressivo. Parece apenas que a alma não está e pendurou uma tabuleta a dizer "volto já". Está provavelmente cansada ou foi requisitada por algo cujo nome não se formula para um "up date". Mecanismo de defesa ou armadilhas do nosso próprio sistema? Entre a cápsula de mim, ou daquilo em que me transformo, e "os outros" parece haver um abismo. Não por sermos diferentes na nossa essência, mas porque estou "desalmada". Não sou gente. O tempo pára a contagem. No limbo não há chuva nem vento, sol, ou tempo. Não há nada.
Lucinda Gray
quarta-feira, 11 de agosto de 2010
A Senhora Isotta
Mas não perdera a calma. Ainda. Sim, pensara ela, porque vou livrar-me desta custe o que custar. Agora eu cá mostrar as minhas partes pudibundas, isso está fora de questão. Deitou então os olhos à praia e um mar de gente polvilhava-se pela areia. Procurara o fato de banho nas imediações. Nada. Uns jovens ariscos banhavam-se a uns metros e a Srª. Isotta não tardou a adivinhar dificuldades acrescidas. Psicótica e calórica, a pobre senhora, apesar de determinada no seu propósito, não lograra nenhum estratagema infalível que a fizesse escapulir com a sua moral ilesa. Dera conta que começara a chover e o mar de gente que antes se espraiava frivolamente indiferente ao seu cataclismo pessoal batia nesse momento em retirada. Esperou como cão fiel pelo seu dono. O espanto caíra-lhe à cara quando se apercebeu então de uma multidão louca a correr mais ou menos na sua direcção. Uns homens fardados, umas bóias vermelhas que pareciam familiares, uns tantos olhos curiosos e metediços despontavam como hienas esfaimadas naquela precisa hora. Lembrara-se. A sua prima, a Srª. Henriqueta, com quem fora à praia, dera conta da sua falta e alertara as autoridades. Ainda crente na sua salvação apoteótica, torneou o pescoço em busca do seu triste farrapo que a abandonara já há mais de uma hora. Nada. Viu-se num beco com uma saída que não queria: caminhar para a areia em direcção à sua toalha e, dessa vez, perante algumas dezenas de olhares aturdidos na certa. Triunfante, psicótica e calórica, renitente mas não contente, a Srª. Isotta saiu da água salgada e enfrentou o inimigo. Estupefacta, a Srª. Henriqueta perguntou-lhe: Então numa praia de nudistas tens vergonha de aparecer como vieste ao mundo?!?!?
Berenice Greco
terça-feira, 10 de agosto de 2010
Palavras Versadas
LEITURA EXPLÍCITA
{talvez um dia regresse à voz do leitor.}
o leitor morre mais depressa que o poeta.
quero os meus poemas a morrerem
daqui a cem anos
no último fio de voz do primeiro leitor imediato
e numa altura em que todos os livros
subirão aos céus.
não quero o prazer de haver sido distante
num tempo distante. quero o prazer
de ser imediata e soberba
num tempo imediato e arrogante.
quero manufacturar tudo o quanto de pescoço há
na representação.
porque o tempo futuro é um encolher de ombros,
e nos meus poemas as razões se limitam
a retirar razões a outras razões.
Sylvia Beirute
domingo, 8 de agosto de 2010
Provocatio
Alameda
E as árvores lá estavam, num entardecer de Domingo, a guardar os segredos do tempo e de quem passava.
Berenice Greco
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