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sexta-feira, 1 de março de 2013

PALAVRA EXPERIMENTAL (XVIII)

 

Vê-los passar

Numa outra ocasião, sentámo-nos num daqueles conjuntos de mesinhas e cadeiras que coxeiam e que estão à beira de estrada, onde se pode beber um refresco e ver pessoas com sacos de plástico, a passar. Dali podem-se apreciar automóveis. Ouvir a sua maquinaria inteligente, uns para lá, outros para cá...

"Nunca conduzi um automóvel", comentou Bristol, emocionada. E explicou-me detalhadamente o quanto detestaria ter de o fazer.
"Mas sei bem que os automóveis não são todos iguais", disse ela, ao que acrescentou entre parênteses: "(talvez até por isso...).  Nada mais ingénuo e desprevenido do que considerar que os automóveis são todos iguais."


Iolanda Bárria

domingo, 20 de janeiro de 2013

Provocatio


Saber não dizer 

Ele sabe bem como dizer as coisas, já a Maria Luísa sabe melhor do que ninguém como não as dizer.
Sabe muito bem não dizer as coisas.
Haverá quem saiba tão bem não dizer as coisas, como a Maria Luísa? Sabe não dizê-las sem esforço e em diversas línguas, vivas e mortas.



Iolanda Bárria

quarta-feira, 5 de setembro de 2012


As estações só existem fora de casa

Com esta idade, ainda não sei dizer qual a estação do ano de que mais gosto. Isto pode dizer muito de uma pessoa. Gosto das quatro como as conheço. São belas e à sua maneira todas conseguem ser insuportáveis. Não há ninguém que maldiga das chuvas de Verão. Sabem tão bem. Há tempos ouvi maltratar a Primavera, porque lhe despenteava os cabelos e pingava quando não se está à espera... O Outono é doce, é a estação da marmelada e da geleia de marmelo, mas às vezes isso enjoa. Gosto da secura do Verão, é difícil o Verão e isso cheira bem, mas não imagino ninguém a escrever poesia ou filosofia no Verão. Como são deliciosas as sombras do Verão. O Inverno sabe muito bem em duas ou três situações: logo no início e quando se está fora dele, ou o vemos passar à janela. Gosto da expressão 'os rigores do Inverno' e parecendo o contrário, é uma estação muito calorosa. Custa-me um bocadinho grafá-la sem maiúscula, é a que mais me custa. Lembro-me de ir para a faculdade de gola alta e casaco e agora há ar condicionado em todo o lado.Quem se atreve a usar gola alta, fora das estepes da Mongólia? A verdade é que as estações quase só existem na rua. Vivem pelas ruas, sem abrigo, que é como deve ser, mas é uma perda não as deixarmos entrar pela casa, nem nas casas por onde andamos, nem nos carros ou nos transportes. Ficam à porta. Saímos da rua e mudamos para um ambiente que não é nada, porque não é o morno ou o fresco que fazem as estações. A temperatura é apenas o mote. Entra, Verão, entra! Bebes alguma coisa? Quero que te sintas em tua casa!


Iolanda Bárria

domingo, 2 de setembro de 2012

Provocatio


É um fato, quer dizer, facto! 

Certos livros só os consigo ler enquanto faço o pino. Vou passando as páginas com a ajuda do sopro, ou da língua, o que é uma porcaria bem sei, mas tenho as duas mãos ocupadas. Certos livros só com o cérebro deveras oxigenado.


Iolanda Bárria

terça-feira, 14 de fevereiro de 2012

O AMOR EM DIA DE SANTO - Provocatio


Ideias verdadeiramente úteis para o dia dos namorados

No dia dos namorados esqueça os ipads e ofereça-lhe livros. Manter a mente a carburar, é bom, mas se o pudermos fazer com uma mão livre, tanto melhor.

Parecendo que não, isto tem a sua importância.


Iolanda Bárria

segunda-feira, 31 de outubro de 2011

OS CINCO SENTIDOS - O OLFACTO (I)


Um homem que cheira

É uma relação. Leveda à sombra dos restos de um odor agridoce, vagamente nauseabundo, que sugere, mais do que cheira. Pelo menos é o que ela pressente, mas não acusa.

Talvez que lhe seja difícil. O que é um cheiro, em concreto? a que cheira a dúvida?

Aproveitam a relação para armazenar poesia inatingível, no disco rígido. Divertem-se a misturá-la com textos propositadamente ordinários, de um género a que chamam ‘vanguarda corrente’! Só originais. Outras vezes, desenterram frases compridas, com palavras de ordem dos autores semi malditos, que publicam orgulhosos e à vez, no blogue. (O disco rígido e a palavra publicada…).

É nestas alturas que ele lhe parece cheirar menos. Quase nada. É um odor que também se ausenta,

" - o princípio do fim da barbárie, pelo disco rígido?"

É certo que ela ainda prefere as bibliotecas, mas desconfia daquele silêncio e de tanta oferta. Na verdade, não sabe muito bem o que suporta melhor: se um lobo camuflado num odor a cordeiro, se cordeiros dissimulados e a fingirem-se de lobos. Claro que as bibliotecas não são os locais certos para se reflectir sobre tudo isto, pois são pouco higiénicas e tresandam a cordeiro. Há alturas que lhe dá um jeitão ser masoquista.


Iolanda Bárria