Mostrar mensagens com a etiqueta Texto de Missanga; Fotografia de José de Almeida e Maria Flores. Mostrar todas as mensagens
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sexta-feira, 11 de novembro de 2011
OS CINCO SENTIDOS - VIVER COM TODOS... (VI)
Na Ilha dos sentidos
Saborear um bom vinho, de uma casta rara e deliciosa. Bebê-lo lentamente, sentir-lhe a textura, descortinar-lhe os aromas, pouco a pouco, sem pressa.
Ler um livro devagar, voltar atrás, reler passagens, sublinhar, compreender as entrelinhas. Retornar a ele, tempos depois, e constatar que um bom livro pode ler-se inúmeras vezes e, de todas as vezes, encontrar sempre algo novo.
Olhar o mar revolto de inverno e os mares serenos de verão. Olhar e perder-me em mim mesma, sem pressa de me encontrar.
Ouvir as notas das “minhas” músicas rodopiarem pela casa, animando-a de vida, enquanto eu, indolente, me espreguiço na chaise longue, semi-aninhada nos braços fortes de Morfeu.
Fazer amor lentamente, como se o tempo tivesse parado, como se nem sequer houvesse tempo. Beijar-te a alma nua, sem reservas. Repousar no teu corpo, sabê-lo na ponta da língua, contar pelos dedos todos os espaços, todos os teus segredos, os teus caminhos que me levam ao paraíso.
Sempre, com todos os sentidos bem despertos!
Missanga
terça-feira, 1 de novembro de 2011
OS CINCO SENTIDOS - O OLFACTO - (I)
Pelo odor das palavras
Nasceu sem olfacto. Nunca se deliciou com aromas divinos, com o cheiro da castanha assada nas ruas de Outono, com o cheiro a terra molhada depois duma chuva de Verão, com o cheiro a maresia, com o cheiro do café acabado de fazer, com o cheiro a pão quente. Do mesmo modo, desconhece o fedor da bosta, da comida estragada, das lixeiras a céu aberto, das casas de banho públicas. Conhece, no entanto, cheiros mais subtis, aromas que passam tantas vezes despercebidos a possuidores de faros apurados: identifica de imediato o cheiro do medo, o aroma da mentira, o inigualável perfume do sexo, sem nunca se enganar. Quiseram estudá-la. Fugiu e arranjou emprego numa loja de perfumes. Sabe de cor todas as composições, os diversos tipos de aroma e tornou-se a vendedora preferida de todos os clientes. Ninguém sabe do seu pequeno “defeito de fabrico”.
Missanga
domingo, 14 de agosto de 2011
Provocatio
A perdição de um dia
Hoje perdi-me de mim... Hoje tenho andado à deriva, sem ninguém ao leme.
Se alguém me encontrar, por favor, devolva-me a mim.
Missanga
quinta-feira, 14 de julho de 2011
Os anjos não têm asas
Os anjos, os verdadeiros anjos, não têm asas: é a fé que os sustem no ar.
José Eduardo Agualusa
Quando era miúda achava que ter fé e acreditar em deus eram sinónimos. Um dia ofereceram-me um livro infantil com ilustrações bíblicas. Fiquei de imediato fascinada pela imagem do éden pós-apocalíptico. Guardo até hoje na memória os rostos sorridentes de adultos e crianças, brincando com animais selvagens tão dóceis como cachorrinhos, num campo muito verde e florido. Já então aquela imagem me parecia inconcebível. Era tudo demasiado perfeito, excessivamente bonitinho e aparentemente muito aborrecido. À medida que crescia, de vez em quando, aquele desenho assaltava-me os pensamentos. Acabei por concluir que jamais me obrigariam a ir para um sítio tão entediante. Faltava-lhe emoção e, sobretudo, faltava-lhe sentido. Blasfémia. Toda a gente queria ir para o céu quando morresse e eu a achar que uma misturazinha entre céu e inferno era, certamente, mais aprazível. Percebi mais tarde que essa amálgama é o nosso dia-a-dia. Nunca me pareceu verosímil a estória da criação, segundo a igreja católica. E a ser, compreendo perfeitamente a Eva. Basta proibirem-nos algo para termos logo vontade de desobedecer, sobretudo se não entendermos o porquê dessa interdição.
E a fé? Não tenho asas e por vezes sei que voo. Não vivo no paraíso e tantas vezes já o alcancei – paraísos diferentes, paraísos particulares, a minha ideia de paraíso. Do mesmo modo, já fiz algumas passagens pelo inferno e de lá saí mais forte. E por isso tenho fé sim, muita fé em mim e naqueles que amo. E agradeço à Eva por nos ter salvo daquele éden.
Missanga
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