Mostrar mensagens com a etiqueta Texto de Missanga; Fotografia de Viesturs Links. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Texto de Missanga; Fotografia de Viesturs Links. Mostrar todas as mensagens

quarta-feira, 7 de novembro de 2012


Tristes tempos

A tristeza duradoura é um veneno poderoso. De início, mal se nota. Depois vai-se entranhando na pele e na alma. O olhar perde a chama que temos quando queremos beber a vida de um trago, quando temos esperança, quando amamos, quando somos meninos e descobrimos o mundo. A tristeza chega sempre e todos devemos ter um tempo para vivê-la. Mas nunca a poderemos deixar instalar-se definitivamente, nunca poderemos deixar que nos roube a chama do olhar e o brilho da alma. Por vezes, recuperá-la é extremamente difícil. Mas é, apesar disso, essencial para vivermos além da simples existência.
Hoje vive-se a mil à hora. Acontece tudo demasiado depressa. É o tudo ou nada. Já não há espaço para os sentimentos crescerem naturalmente. É tudo desmesurado. O bom e o mau. Há princípios e fins e pelo meio quase nada, porque nunca há tempo para o que fica entre os dois acontecimentos.


Missanga

quinta-feira, 2 de agosto de 2012


Sonhos rasgados

A cozinha, quadrada e escura, tinha apenas uma pequena janela numa das paredes de barro que um dia já haviam conhecido a alvura da cal. Na parede oposta uma porta com postigo. Uma mesinha, cinco cadeiras pequenas e uma bancada com louça era tudo o que havia. E uma lareira, a um canto, onde o lume crepitava sob uma panela já muito tisnada pelo uso. Pairava no ar o cheiro a eucalipto queimado e a couves cozidas.
“Ouve o que te digo homem, a gaiata é de raça ruim, é malina. Os irmãos todos trabalhando e ela querendo estudar”, desabafava a Ti Mari do Monte, uma mulher de idade indefinida e temperamento amargo. “Há-de abalar para a monda do arroz como os outros para lhe passarem estas finuras. Os três mais novos não vão pôr os pés na escola para não lhes prantarem ideias e saírem de lá a alarvejar como esta”. O pai, sentado numa das cadeiras, mais complacente e carinhoso, veio em defesa da filha Rosinha que, sentada em frente ao lar, lutava contra as lágrimas. “Ó mulher, a desgraçadita só queria estudar mais, gostou das letras... mas sabes Rosinha, nós somos pobres e os pobres não podem sonhar", rematou tristemente. “Sonhos?” Continuou a mãe, “nós carecemos de dinheiro e não de cabeças cheias de vento e de letras que não servem para nada. Quando fores moça casadoira não vai haver homem que te pegue. Nenhum quer uma mulher bicosa como tu e que saiba juntar as letras.” Rosinha olhava o lume hipnotizada e nas brasas viu os seus sonhos ruírem e a réstia de esperança dar lugar à desesperança e os dias de escola ficarem para sempre no passado. Viu os livros que lera e os retratos resplandecentes das senhoras da cidade nas suas roupas formosas e vislumbrou sítios que pressentia mas que jamais conheceria. Viu os seus pés descalços sobre a geada de inverno e os seus sapatos usados de verniz vermelho que a fizeram ficar horas a dançar de felicidade. Viu que nunca devia ter lido um único livro porque estes a tornaram diferente. Pressentiu que o toque dos livros na sua alma jovem lhe fora fatal.


 Missanga

quarta-feira, 18 de janeiro de 2012


Todos os actos de uma farsa

Sou uma fraude. Tudo em mim é falso. O eterno sorriso, a conversa fácil, a segurança, o belo marido. Tudo, menos esta dor de viver.
Nada, nem ninguém me toca o coração. Não consigo sentir alegria nem prazer. Apenas um aperto no coração que me tira o fôlego. Ah, mas sei fingir com perfeição. Faço o papel da esposa perfeita, da nora ideal, da amiga que todos gostariam de ter. Se eles soubessem, se eles olhassem para além da minha imagem, se olhassem bem dentro da minha alma, veriam a escuridão e o abismo, a ausência de sentimentos por quem quer que seja. Os dramas dos outros não me afectam, nem mesmo daqueles a quem supostamente eu amo. A morte, as desgraças alheias? Sou invulnerável a tudo isso. Apenas o que sinto me importa, me angustia. E o que sinto é por mim, por mais ninguém.
Às vezes penso que poderia ter sido uma belíssima actriz. Represento a minha vida feliz e pacata com todo o requinte. O turbilhão dentro de mim é invisível para os outros.
E tenho inveja, uma inveja doentia de todos aqueles que me parecem felizes, daqueles que têm riso fácil, a capacidade de achar graça a qualquer disparate, tenho inveja dos que se riem da sua própria desgraça. Tenho inveja dos que sofrem por amor ou por perda.
Fui a criança modelo, a menina bem comportada, a aluna brilhante, a adolescente bonita e ajuizada, a filha perfeita, a jovem adulta consciente. Nunca fiz nada que surpreendesse os outros pela negativa. Fui sempre tudo aquilo que esperavam que eu fosse. Nunca tomei uma atitude que não fosse adequada e esperada. Nunca desiludi ninguém, além de mim própria. Hoje sinto o meu coração cheio de raivas antigas, fúrias acumuladas, atitudes contidas, palavras engasgadas e não sei o que fazer com elas. Sinto que a qualquer momento a farsa vai, por fim, acabar.


Missanga

quinta-feira, 12 de janeiro de 2012


Desabafo

Estou exausta. Há pessoas que têm a capacidade de nos sugar a energia vital. São óptimas a tentar culpar os outros pela sua infelicidade, por não agirmos do modo que esperavam, por não correspondermos a determinados sentimentos. Há pessoas que nunca se sentem responsáveis pelo modo como vivem a vida. São os outros que as condicionam, que as fazem sentir miseráveis. Há pessoas que vestem a pele de vítimas e nunca são elas que estão mal, são sempre os outros que não percebem como são desgraçadas. Ando cansada destas pessoas, dos sentimentos mesquinhos, de dar por mim a sentir que talvez pudesse ter mais paciência, de, involuntariamente, sentir culpa por situações que nada têm a ver comigo. E sinto pena. E raiva por sentir pena. E sei que preciso de me afastar. Não se suplicam sentimentos. E também não se exigem.


Missanga

quinta-feira, 13 de outubro de 2011


Estrelas (de)cadentes

Sempre me pareceu que há pessoas que nunca conseguem encontrar o seu lugar no mundo e, consequentemente, na vida. Que nunca conseguem paz de espírito, que padecem de uma real incapacidade para serem felizes, que nascem com um vazio na alma que nada nem ninguém parece conseguir preencher. Há quem conquiste, através das artes, ou de hobbies, ou de trabalho pesado, uma certa libertação na intensidade da procura.
Outros, porém, passam pela vida numa busca desenfreada por algo que lhes preencha o vazio que sentem. São personagens trágicas como a Amy Winehouse, o Curt Cobain, o Jim Morrisson, entre outros, que parecem ter uma incapacidade real de se adaptar ao mundo, que testam todos os limites, que estão sempre numa busca de algo inalcançável e que nessa busca fatídica vão minando o corpo com consumo excessivo de álcool e de drogas. A morte é sempre prematura, sempre trágica e sempre provocada. São estrelas (de)candentes que brilham intensamente por momentos e depois se extinguem para sempre, restando apenas a memória do seu fulgor.
 
 
Missanga

quinta-feira, 29 de setembro de 2011


Requiem por uma vida

Os sons da manhã que despontava foram-na chamando para fora do sono. Olhou o homem deitado a seu lado com o nojo trazido pelos dias, pelos anos, pela solidão vivida a dois. Quando teria começado a odiá-lo? Não houve um momento exacto. Foi acontecendo. No início era apenas um leve rancor, quase inconsciente, que foi crescendo à medida que gestações sucessivas e mal sucedidas lhe iam deformando o corpo. Quando se olhava ao espelho, era uma estranha com olhos mortiços, gorda, disforme e engelhada pelo tempo, que lhe devolvia o olhar. E fora ele, o seu homem, quem lhe minara o corpo a vida e a juventude.

Casara muito nova, com a cabeça cheia de ilusões amorosas, iguais às das suas heroínas dos livros de cordel. Durante muito tempo esperou em vão que os olhos do marido se detivessem nela e realmente a vissem. Ele apenas via um corpo onde saciava rapidamente as suas vontades, sem nunca a olhar. Percebeu, então, que os seus sonhos não tinham morada na sua realidade.
O sorriso abandonou-lhe os lábios, os olhos e o coração e partiu sem bilhete de volta. A felicidade, essa, nunca chegou a visitá-la.
Olhou de novo o marido que jazia junto a si. Ao fim de vários meses de doença prolongada e provocada, a vida, finalmente, abandonara-o. Suspirou. Pela primeira vez em muitos anos, sentia-se livre. O seu drama é que não tinha ideia do que fazer com essa liberdade."
 
 
Missanga

sexta-feira, 2 de setembro de 2011


Como ser uma bruxa de sucesso

Tranquei o meu inútil diploma num armário e transformei o escritório da minha casa num consultório. Arranjei uma velha mesa redonda que cobri com uma comprida toalha cor de sangue. Estudei as cores e escolhi as mais relaxantes para a restante decoração. Coloquei umas velas aqui e ali e também um pouco de incenso. Faltava-me escolher um método de adivinhação. Optei pelas runas que são um método muito antigo e relativamente pouco conhecido no ocidente. Além disso acho imensa piada às pedrinhas das runas. Estudei, com afinco, todas as maneiras de as interpretar. Arranjei também ervas medicinais, na sua maioria infusões, para os mais diversos efeitos. Li imenso sobre o assunto e aprendi a fazer misturas com grande mestria. As infusões ajudam e a fé faz o resto. Quando pressentisse problemas de saúde realmente graves, tentaria convencer os clientes a procurarem um médico. Falei com uma amiga que também estava desempregada e expliquei-lhe a ideia. Achou tudo um pouco maluco mas aceitou de imediato ser minha recepcionista. Fizemos panfletos e espalhámos pelas caixas de correio das redondezas e aguardámos. E assim, lentamente, começaram a aparecer os primeiros clientes. Na primeira vez, como em todas as primeiras vezes de tudo, estava nervosíssima. Correu bem. Com o passar do tempo fui perdendo o medo e ganhando confiança no que fazia. Não sou uma bruxa convencional, não adivinho, mas sou intuitiva e percebo de imediato o que angustia as pessoas. O segredo é conseguir, subtilmente, que revelem o maior número de detalhes sobre as suas vidas, medos e esperanças. Na maioria das ocasiões elas somente precisam de alguém que as oiça e lhes mostre caminhos e opções. Hoje em dia tenho uma clientela assídua que nunca iria a um psicólogo mas que vem até mim. Pontualmente, o remorso ainda me invade. Como bruxa sou uma farsa. Mas, não serão todas?
 
 
Missanga