sexta-feira, 9 de agosto de 2013

MÁRIO DE CESARINY - 9 de Agosto de 1923 / 26 de Novembro de 2006

 

POEMA PARA MÁRIO CESARINY 

era uma coisa e depois disse que era outra.
tinha uma profissão esquisita.
consistia em desvendar a inspiração no interior da frase.
desvendar mas sem partir.
sem quebrar o passo e o ritmo.
e depois ele disse que via as estrelas das coisas,
todo o cinema e brilho secreto no espaço difuso.
um dia falou-me em paradoxos metafóricos
e eu assustei-me como se visse vísceras
no tabuleiro da vida.
e foi então que comecei a escrever.
peguei numa palavra e depois noutra e depois noutra.
as palavras não tinham grande significado para mim.
eram como pedras e possibilidades.
escrevi um poema. dois. três. muitos.
e um dia ele me roubou as grandes frases e deixou
as miudezas; tirou-me o macroscópio
e deu-me o seu microscópio de uma só lente
para que visse as células e demais estruturas minúsculas.
escrevi um poema sobre mim
com o poder de me fazer uma coisa e depois outra
e depois outra.
hoje pergunto-me quem sou
e de cada vez que o faço
um poema nasce. por si só. como que para o mestre
que nunca dorme em mim.


Sylvia Beirute

domingo, 7 de abril de 2013

Provocatio


Aprendizagem

Ela aprendeu a calar as mágoas e trancar as lágrimas, seguindo o seu caminho como se nada lhe custasse e tudo fosse fácil.


Carmo Miranda Machado

quinta-feira, 21 de março de 2013

DIA MUNDIAL DA POESIA - 21 de Março de 2013


Aconteceu poesia

A poesia não é tão rara como parece.
Na mais ínfima das coisas
A poesia acontece.
Aconteceu poesia
Quando nos teus olhos cor do céu
Vi um pedaço de céu que me cabia.
Aconteceu poesia
Quando as tuas mãos numa carícia vaga
Moldaram no meu rosto ar de angústia
Que o tempo não apaga.
Aconteceu poesia
Quando nos teus olhos cor do céu
Vi um pedaço de céu que me fugia.
Até no dia em que morreste, Mãe,
Aconteceu poesia.


Fernando Vieira

DIA MUNDIAL DA POESIA - 21 de Março de 2013

 

RESOLUÇÃO

agora escreve um poema bonito.
e daqui a pouco
olha para uma coisa desagradável.
agora constrói uma janela no poema
com vista para uma coisa compreensível.
vale a pena olhar.
o tempo aqui é instrutivo,
os olhos parecem formar um outro limite, um
limite mais elegante, sem pausas
e que se autotranspõe.
agora a sua profundidade afunda-se em ti.
os teus olhos alcançam a segurança
de um videopoema, as imagens
contêm as ilusões do mundo
e ainda se propõem à sua adolescência.
agora é tudo muito confuso,
a resolução das coisas nunca foi tão nítida.


Sylvia Beirute

sexta-feira, 8 de março de 2013

DIA INTERNACIONAL DA MULHER - 8 de Março de 2013


Por um mundo maior

Fui dar uma espreitadela na lista de dias mundiais e internacionais. São, por norma, uma chamada de atenção para a desigualdade, para a necessidade de auxílio, para nos darmos conta de problemas ou de doenças. Portanto, o facto de ainda haver um dia internacional da mulher, significa que ainda existe discriminação de géneros e que as mulheres ainda são tratadas com diferença. Fico pasma ao olhar para a História e perceber que temos direito ao voto há menos de um século, que sempre fomos consideradas seres inferiores e, pelos crentes, desprovidas de alma. E fico triste, por perceber que hoje em dia, por todo o mundo, há mulheres que continuam a ser vítimas de sociedades predominantemente machistas, que são abusadas, castigadas e que não têm direitos. Um mundo que não considere todas as pessoas iguais em direitos, que não respeite as diferenças (quando realmente existem), que não trate com bondade, gentileza e respeito todas as outras espécies, ainda é um mundo menor.


Missanga

terça-feira, 5 de março de 2013

3º Aniversário de "O Filósofo e o Fanfarrão" - Provocatio

Depois de mil dias, mil imagens e mil textos publicados, o Filósofo e o Fanfarrão vão de férias.


O exercício da contestação, pelo humor e pela razão, segue dentro de momentos (de crise)...

Com o devido abraço de gratidão aos nossos imprescindíveis leitores:

Até sempre!


O Editor

sábado, 2 de março de 2013

Crónica Benzodiazepina

 

Os Portugueses e a Síndrome de Estocolmo 

Ouvir cantar novamente a canção “Grândola Vila Morena” impediu-me de acreditar que o povo português estava a sofrer claramente da Síndrome de Estocolmo.
Tal como acontece com as vítimas de Estocolmo, também muitos portugueses pareciam estar a criar laços afectivos com os próprios políticos raptores.
A relação actualmente existente entre os nossos (des)governantes e o povo é uma relação de total e severo desequilíbrio de poderes.
Esta cambada de ditadores da nova era que passo a designar como “políticos raptores” ditam aquilo a que o “povo prisioneiro” pode ou não fazer.
Roubam-nos os sonhos, roubam-nos os amigos, roubam-nos os direitos adquiridos, roubam-nos, roubam-nos, roubam-nos!
O não cumprimento das tão famosas metas impostas pelos políticos raptores estão a levar uns ao suicídio, outros ao desespero e outros a graves danos físicos.
E nós, prisioneiros desses políticos raptores e das suas medidas, começamos a desenvolver o instinto de auto preservação.
Está escuro e estamos em casa com os olhos colados na televisão.
O silêncio é total. De repente surgem novos dados referentes ao número de desempregados e…
A porta bate repentinamente. A respiração acelera. O coração dispara. Os músculos enrijam.
Mas, pronto, ainda não é desta que somos nós…
Afinal o barulho que ouvimos na nossa porta não era o desemprego a atingir-nos! Não era o vento!
Está em jogo a vida das pessoas.
Por favor percebam de uma vez por todas que é a vida das pessoas que está em jogo!
A continuarmos assim, primeiro seremos reduzidos à pobreza. Depois farão de nós o que bem lhes aprouver.
O descrédito pela política que se vive neste momento é devidamente assumido por todos e por cada um de nós.
Todos os dias aguardamos que seja parida mais uma torrente de medidas que só nos desiludem e nos afogam.
É, no mínimo, macabro o projecto do governo para cortar, de uma penada e com consequências trágicas para todos os portugueses, os 4 mil milhões de despesas públicas.
Os nossos “raptores políticos” são uma cambada de interesseiros e manipuladores que têm refinado o seu comportamento ao longo dos meses, sempre na sombra dos senhores da troika, outros raptores, ampla e sobejamente conhecidos pela perversidade das medidas drásticas nos impõem sem dó nem piedade.
Eu não sou saudosista. Mas confesso que me entristece profundamente saber que em tempos desvendámos o mundo e que actualmente somos uns "paus mandados".
Sim, uns "paus mandados" de um trio que impõe medidas com um total desprezo pelas obrigações sociais dos nossos, das normas sociais, incapazes de qualquer afecto duradouro, especialista em racionalizar e culpar os outros.
O estado a que se chegou neste país só pode ser fruto de um grande transtorno de personalidade dos nossos “raptores políticos” e do trio perverso que nos impingiram, que com a sua capacidade de sedução nos permite encontrar explicações plausíveis para todos os seus actos, mesmo os mais torpes. Genericamente reina a desinformação e a confusão e por vezes fica a sensação de que entre os raptores políticos e as suas vítimas até existia uma verdadeira relação de cumplicidade.
Mas ao ouvir novamente cantar “Grândola Vila Morena” fica a esperança de não nos termos deixado apanhar pela síndrome da Estocolmo!


Maria Paula Elvas

sexta-feira, 1 de março de 2013

PALAVRA EXPERIMENTAL (XVIII)

 

Vê-los passar

Numa outra ocasião, sentámo-nos num daqueles conjuntos de mesinhas e cadeiras que coxeiam e que estão à beira de estrada, onde se pode beber um refresco e ver pessoas com sacos de plástico, a passar. Dali podem-se apreciar automóveis. Ouvir a sua maquinaria inteligente, uns para lá, outros para cá...

"Nunca conduzi um automóvel", comentou Bristol, emocionada. E explicou-me detalhadamente o quanto detestaria ter de o fazer.
"Mas sei bem que os automóveis não são todos iguais", disse ela, ao que acrescentou entre parênteses: "(talvez até por isso...).  Nada mais ingénuo e desprevenido do que considerar que os automóveis são todos iguais."


Iolanda Bárria

quinta-feira, 28 de fevereiro de 2013


O medo

Vou-me. Não é de ti que me afasto ou estaria a afastar-me da verdade. É para não correr esse risco que eu me vou, antes que comece a encetar buscas onde não estás ou dê por mim a olhar para alguém que tu nunca vais ser.
Se esta não é a nossa dimensão, apesar de termos começado aqui a reencontrar quem somos, que sentido haveria em insistir no engano do medo e da culpa, agora que o ultrapassámos.
Eu não quero retornar para o medo, para a ideia que posso enganar ou ser enganado, quando é sempre de mim próprio que fujo.
Poderia dizer-te, antes de ir, que te amo acima de tudo, mas porquê, se não há mais nada para além deste amor? Ter medo é reconhecer que há. E são esses pensamentos que eu não quero mais permitir sob pena de me negar a mim próprio.
Vou, mas não vou para longe. É da mentira que eu me afasto, da irrealidade, dos sonhos assustados, dos abraços envergonhados, cabisbaixos, como se fossem indignos.
Se eu quero conhecer o amor, não posso ter medo. O medo não irá, nunca, conhecer o amor.



DuArte

quarta-feira, 27 de fevereiro de 2013


Como explicar? 

Como explicar a quem não entende ou a quem não transporta consigo este "terrível" gene, esta sensação de vazio que se apodera de nós nestes dias de Inverno sem cor, esta inexplicável dificuldade em simplesmente acordar?

Como explicar a quem acorda todos os dias à mesma hora e repete todos os dias o mesmo local de trabalho, as mesmas pessoas e os mesmos rituais, que o simples facto de trabalhar sete dias seguidos no mesmo sítio já é suficiente para me sentir incomodada?

Ou, como explicar que a simples visão do arco-íris, ontem, após a chuva ter parado, me fez desatar a chorar...?


Carmo Miranda Machado

terça-feira, 26 de fevereiro de 2013


Espejo de letras muertas 

Odios como lápidas acogen
y rozan letras de combate
a veces razón, otras sin pena;
llorando en pantano que no es edén
ni pesadilla que yo entienda. Yo, solo yo, que soy
Y tu que siento entre mis piernas olvidadas...
¡olvido de gruesa fantasía!
¡olvido de amores que revierto!
¡olvido de fuertes que no besan la vida!

¡Dibuja-me alas de ángel caído
que me llenen de colores!
Odios que ríen en el cárcel
derrumbando los cuerpos propicios
por los caminos de mi cuerpo.

Y la alegría que se me ahorra...
como pájaro herido que no sabe escribir
canciones de dolor, ni siquiera
prosas de amor.


Joshua Magellan

 

domingo, 24 de fevereiro de 2013

Provocatio


Sempre mais

Deixo pedaços de mim por todos os sítios onde passo, em todos os amigos que amo, a todos os amantes que tenho. Partilho-me e tenho cada vez mais, sempre acrescentada de tudo o que vivo…


Missanga

quinta-feira, 21 de fevereiro de 2013


A vida é um milagre 

Mesmo quando tudo se desmorona à nossa volta, os entes queridos partem, os familiares adoecem irreversivelmente, as relações se deterioram e morrem, os outros nos parecem subitamente estranhos e o mundo continua a agredir-se ilimitadamente. Sinto em mim uma vontade visceral de ir em frente, de derrubar barreiras, de enfrentar as minhas tantas fraquezas.
É algo de epidérmico. Basta acordar e ver um raio de sol para que me sinta renascer. Basta depois procurar o mar, observá-lo por breves instantes ou um tarde inteira para que perceba a magia que é estar. AQUI. AGORA. HOJE. E então regresso, cabelos ao vento, música no máximo, cantando o mais alto que puder, para que lá em cima, quem nos olha, perceba que valeu a pena. Porque tudo, sempre, vale a pena!


Carmo Miranda Machado

quarta-feira, 20 de fevereiro de 2013


Se só o presente existe...

Se só o presente existe, então, todos os instantes, passados ou futuros, têm de estar a acontecer em simultâneo. Tinha piada se assim fosse, aliás, tal como acontece no cinema. No cinema a história aparece-nos no ecrã, mas aquilo que vemos são apenas sombras projectadas pela luz a atravessar uma película. A acontecer alguma coisa, foi antes, na cabina do projeccionista, e aí, já está tudo previsto. Se tivéssemos vontade, poderíamos pedir ao projeccionista, e ele mostrar-nos-ia que todos os instantes estão, desde logo, disponíveis dentro da bobine. Se quiséssemos, poderíamos ver o filme de trás para a frente, aos saltos, ou do meio para os lados. Não há nada que o impeça. Aparentemente, nos filmes, tal como na vida, a nossa escolha é a de que a história nos seja apresentada de forma mais ou menos linear.
Isto remete-nos para uma outra questão. Quando vemos um filme, apesar de termos liberdade para escolher o que ver em cada instante, ainda assim, não podemos fugir do seu argumento. Ou seja, a história é aquela e não temos como fugir dela. Para que a história fosse outra, teríamos de pedir ao projeccionista para trocar de bobine.
Voltando ao filme da minha vida, ao aceitar o presente como único tempo existente, arrisco também afirmar que, afinal, o livre arbítrio não passa pelo que decido fazer em cada instante, mas pela escolha da parte da vida que quero ver agora. A vida já está lá, do princípio ao fim. Para que o argumento da minha vida fosse outro, teria de ir algures à minha mente, trocar o sistema de pensamento que aceitei como meu, e mudar aquilo que não me canso de projectar. Sem isso, ainda que possa escolher o que ver em cada instante, a história de fundo será sempre a mesma. É uma seca. 


DuArte

terça-feira, 19 de fevereiro de 2013

Palavras Versadas


raiz

já falámos de mais
e de mais é uma árvore sem tempo
de florir

as estações sobrevoam-nos com asas prateadas
de aves formidáveis e rápidas
que nos povoam os sonhos
sem adormecer
e nós partimos do inverno enquanto dormimos
rachamos a noite em silêncio
ao encontro da memória ágil e quente
que nos aprende a voar
sem a ciência de um rumo dizível
e nos cerca
como uma casa de sombra que brilha
por dentro da sombra
de uma mansão maior que se apaga
no interruptor da primavera

já falámos de mais
e de mais é uma árvore sem vento
de partir

há aves que ficam
à espera
do seu tempo obscuro
quando todas as penas condenam ao sol
e migram
há estações que desfalecem e se vergam
à brisa derradeira
viciantemente fresca da solidão
no cair das folhas

o lugar plantado que somos tem uma só porta
um só chão incerto
onde se abre uma fenda de incerteza
na construção da raiz

mandei-te a chave por um pombo-correio
esquece a primavera


Renato Filipe Cardoso

domingo, 17 de fevereiro de 2013

Provocatio

 

Do espanto 

Dizem que à medida que crescemos vamos perdendo a capacidade fantástica de nos espantarmos com o mundo. Porém, eu ainda me espanto, muitas vezes. Sobretudo com pessoas, para o bem e para mal. E com as cores impossíveis de um poente, quase sempre.


Missanga

sábado, 16 de fevereiro de 2013

Crónica Benzodiazepina


FELICIDADE

Por vezes, penso que sou feliz. Hoje, por exemplo, acordei com sol, o que à partida é meio caminho andado para a felicidade; celebrei o aniversário da minha mãe, o que também me deixa radiante; e até consegui, com relativa facilidade, antever uns dias de férias. Possuo, desta forma, e de acordo com as mentes mais pragmáticas, todos os ingredientes necessários para a dita cuja.
Ora bem, a verdade é que tenho dias. Como a Cecília Meireles, tenho fases, tal como a lua. E tanto posso acordar com a sensação de que as torres gémeas voltaram a cair, como com a ideia de que tudo é fácil, porque para mim tudo é possível.
Uma vez confessei sentir-me feliz. Foi um desabafo, num daqueles dias em que acordo plena de energia e grata ao universo por existir. E leve. Extremamente leve (o que para mim é um grande sinal de felicidade). Mas alguém me disse (não me lembro já quem) para ter cuidado com o que dizia. É verdade que há pessoas que cultivam a tristeza. Mas, não é bem o meu caso. Nada me agrada mais que umas boas gargalhadas decorrentes de uma boa dose de non sense. E tenho, felizmente, alguns amigos/amigas peritos nisso. Confesso, porém, que há dias em que sinto escurecer por dentro. Mas faço sempre o possível (e o impossível) por renascer no dia seguinte, logo de manhãzinha.


Carmo Miranda Machado

sexta-feira, 15 de fevereiro de 2013

PALAVRA EXPERIMENTAL (XVI)


Af(l)orismos

O povo diz: “Se queres ver o teu corpo, abre o teu porco”;

Digo eu: Se não queres ser visto pelo teu povo, fecha o teu corpo;

Sejamos: Se queres fazer viver o teu corpo, vive como um porco;

Diz que se diz: Se queres vender o teu corpo, há sempre um porco que compre;

Eles dizem: Se queres ver onde está o porco, pergunta quem manda no povo;

Dizemos nós: Se queremos manter o corpo, lá teremos de abrir o porco.

E o povo, pá, faz o que diz o São Martinho: Mata o seu porquinho e festeja com cravos e vinho...


Joshua Magellan