Depois de mil dias, mil imagens e mil textos publicados, o Filósofo e o Fanfarrão vão de férias.
O exercício da contestação, pelo humor e pela razão, segue dentro de momentos (de crise)...
Com o devido abraço de gratidão aos nossos imprescindíveis leitores:
Até sempre!
O Editor
terça-feira, 5 de março de 2013
domingo, 3 de março de 2013
sábado, 2 de março de 2013
Crónica Benzodiazepina
Os Portugueses e a Síndrome de
Estocolmo
Ouvir cantar novamente a canção “Grândola Vila
Morena” impediu-me de acreditar que o povo português estava a
sofrer claramente da Síndrome de Estocolmo.
Tal como acontece com as vítimas de Estocolmo, também muitos portugueses pareciam estar a criar laços afectivos com os próprios políticos raptores.
A relação actualmente existente entre os nossos (des)governantes e o povo é uma relação de total e severo desequilíbrio de poderes.
Esta cambada de ditadores da nova era que passo a designar como “políticos raptores” ditam aquilo a que o “povo prisioneiro” pode ou não fazer.
Roubam-nos os sonhos, roubam-nos os amigos, roubam-nos os direitos adquiridos, roubam-nos, roubam-nos, roubam-nos!
O não cumprimento das tão famosas metas impostas pelos políticos raptores estão a levar uns ao suicídio, outros ao desespero e outros a graves danos físicos.
E nós, prisioneiros desses políticos raptores e das suas medidas, começamos a desenvolver o instinto de auto preservação.
Está escuro e estamos em casa com os olhos colados na televisão.
O silêncio é total. De repente surgem novos dados referentes ao número de desempregados e…
A porta bate repentinamente. A respiração acelera. O coração dispara. Os músculos enrijam.
Mas, pronto, ainda não é desta que somos nós…
Afinal o barulho que ouvimos na nossa porta não era o desemprego a atingir-nos! Não era o vento!
Está em jogo a vida das pessoas.
Por favor percebam de uma vez por todas que é a vida das pessoas que está em jogo!
A continuarmos assim, primeiro seremos reduzidos à pobreza. Depois farão de nós o que bem lhes aprouver.
O descrédito pela política que se vive neste momento é devidamente assumido por todos e por cada um de nós.
Todos os dias aguardamos que seja parida mais uma torrente de medidas que só nos desiludem e nos afogam.
É, no mínimo, macabro o projecto do governo para cortar, de uma penada e com consequências trágicas para todos os portugueses, os 4 mil milhões de despesas públicas.
Os nossos “raptores políticos” são uma cambada de interesseiros e manipuladores que têm refinado o seu comportamento ao longo dos meses, sempre na sombra dos senhores da troika, outros raptores, ampla e sobejamente conhecidos pela perversidade das medidas drásticas nos impõem sem dó nem piedade.
Eu não sou saudosista. Mas confesso que me entristece profundamente saber que em tempos desvendámos o mundo e que actualmente somos uns "paus mandados".
Sim, uns "paus mandados" de um trio que impõe medidas com um total desprezo pelas obrigações sociais dos nossos, das normas sociais, incapazes de qualquer afecto duradouro, especialista em racionalizar e culpar os outros.
O estado a que se chegou neste país só pode ser fruto de um grande transtorno de personalidade dos nossos “raptores políticos” e do trio perverso que nos impingiram, que com a sua capacidade de sedução nos permite encontrar explicações plausíveis para todos os seus actos, mesmo os mais torpes. Genericamente reina a desinformação e a confusão e por vezes fica a sensação de que entre os raptores políticos e as suas vítimas até existia uma verdadeira relação de cumplicidade.
Mas ao ouvir novamente cantar “Grândola Vila Morena” fica a esperança de não nos termos deixado apanhar pela síndrome da Estocolmo!
Tal como acontece com as vítimas de Estocolmo, também muitos portugueses pareciam estar a criar laços afectivos com os próprios políticos raptores.
A relação actualmente existente entre os nossos (des)governantes e o povo é uma relação de total e severo desequilíbrio de poderes.
Esta cambada de ditadores da nova era que passo a designar como “políticos raptores” ditam aquilo a que o “povo prisioneiro” pode ou não fazer.
Roubam-nos os sonhos, roubam-nos os amigos, roubam-nos os direitos adquiridos, roubam-nos, roubam-nos, roubam-nos!
O não cumprimento das tão famosas metas impostas pelos políticos raptores estão a levar uns ao suicídio, outros ao desespero e outros a graves danos físicos.
E nós, prisioneiros desses políticos raptores e das suas medidas, começamos a desenvolver o instinto de auto preservação.
Está escuro e estamos em casa com os olhos colados na televisão.
O silêncio é total. De repente surgem novos dados referentes ao número de desempregados e…
A porta bate repentinamente. A respiração acelera. O coração dispara. Os músculos enrijam.
Mas, pronto, ainda não é desta que somos nós…
Afinal o barulho que ouvimos na nossa porta não era o desemprego a atingir-nos! Não era o vento!
Está em jogo a vida das pessoas.
Por favor percebam de uma vez por todas que é a vida das pessoas que está em jogo!
A continuarmos assim, primeiro seremos reduzidos à pobreza. Depois farão de nós o que bem lhes aprouver.
O descrédito pela política que se vive neste momento é devidamente assumido por todos e por cada um de nós.
Todos os dias aguardamos que seja parida mais uma torrente de medidas que só nos desiludem e nos afogam.
É, no mínimo, macabro o projecto do governo para cortar, de uma penada e com consequências trágicas para todos os portugueses, os 4 mil milhões de despesas públicas.
Os nossos “raptores políticos” são uma cambada de interesseiros e manipuladores que têm refinado o seu comportamento ao longo dos meses, sempre na sombra dos senhores da troika, outros raptores, ampla e sobejamente conhecidos pela perversidade das medidas drásticas nos impõem sem dó nem piedade.
Eu não sou saudosista. Mas confesso que me entristece profundamente saber que em tempos desvendámos o mundo e que actualmente somos uns "paus mandados".
Sim, uns "paus mandados" de um trio que impõe medidas com um total desprezo pelas obrigações sociais dos nossos, das normas sociais, incapazes de qualquer afecto duradouro, especialista em racionalizar e culpar os outros.
O estado a que se chegou neste país só pode ser fruto de um grande transtorno de personalidade dos nossos “raptores políticos” e do trio perverso que nos impingiram, que com a sua capacidade de sedução nos permite encontrar explicações plausíveis para todos os seus actos, mesmo os mais torpes. Genericamente reina a desinformação e a confusão e por vezes fica a sensação de que entre os raptores políticos e as suas vítimas até existia uma verdadeira relação de cumplicidade.
Mas ao ouvir novamente cantar “Grândola Vila Morena” fica a esperança de não nos termos deixado apanhar pela síndrome da Estocolmo!
Maria Paula Elvas
sexta-feira, 1 de março de 2013
PALAVRA EXPERIMENTAL (XVIII)
Vê-los passar
Numa outra ocasião, sentámo-nos
num daqueles conjuntos de mesinhas e cadeiras que coxeiam e que
estão à beira de estrada, onde se pode beber um refresco
e ver pessoas com sacos de plástico, a passar. Dali podem-se
apreciar automóveis. Ouvir a sua maquinaria
inteligente, uns para lá, outros para cá...
"Nunca
conduzi um automóvel", comentou
Bristol, emocionada. E explicou-me detalhadamente
o quanto detestaria ter de o fazer.
"Mas sei bem que os automóveis não são todos iguais", disse ela, ao que acrescentou entre parênteses: "(talvez até por isso...). Nada mais ingénuo e desprevenido do que considerar que os automóveis são todos iguais."
"Mas sei bem que os automóveis não são todos iguais", disse ela, ao que acrescentou entre parênteses: "(talvez até por isso...). Nada mais ingénuo e desprevenido do que considerar que os automóveis são todos iguais."
Iolanda Bárria
quinta-feira, 28 de fevereiro de 2013
O medo
Vou-me. Não é de ti que me afasto ou estaria a afastar-me da verdade. É para não correr esse risco que eu me vou, antes que comece a encetar buscas onde não estás ou dê por mim a olhar para alguém que tu nunca vais ser.
Se esta não é a nossa dimensão, apesar de termos começado aqui a reencontrar quem somos, que sentido haveria em insistir no engano do medo e da culpa, agora que o ultrapassámos.
Eu não quero retornar para o medo, para a ideia que posso enganar ou ser enganado, quando é sempre de mim próprio que fujo.
Poderia dizer-te, antes de ir, que te amo acima de tudo, mas porquê, se não há mais nada para além deste amor? Ter medo é reconhecer que há. E são esses pensamentos que eu não quero mais permitir sob pena de me negar a mim próprio.
Vou, mas não vou para longe. É da mentira que eu me afasto, da irrealidade, dos sonhos assustados, dos abraços envergonhados, cabisbaixos, como se fossem indignos.
Se eu quero conhecer o amor, não posso ter medo. O medo não irá, nunca, conhecer o amor.
DuArte
quarta-feira, 27 de fevereiro de 2013
Como explicar?
Como explicar a quem não entende ou a quem não transporta consigo este "terrível" gene, esta sensação de vazio que se apodera de nós nestes dias de Inverno sem cor, esta inexplicável dificuldade em simplesmente acordar?
Como explicar a quem acorda todos os
dias à mesma hora e repete todos os dias o mesmo local de trabalho,
as mesmas pessoas e os mesmos rituais, que o simples facto de
trabalhar sete dias seguidos no mesmo sítio já é suficiente para me
sentir incomodada?
Ou, como explicar que a simples visão
do arco-íris, ontem, após a chuva ter parado, me fez desatar a
chorar...?
Carmo Miranda Machado
Carmo Miranda Machado
terça-feira, 26 de fevereiro de 2013
Espejo de letras muertas
Odios como lápidas acogen
y rozan letras de combate
a veces razón, otras sin pena;
llorando en pantano que no es edén
ni pesadilla que yo entienda. Yo, solo
yo, que soy
Y tu que siento entre mis piernas
olvidadas...
¡olvido de gruesa fantasía!
¡olvido de amores que revierto!
¡olvido de fuertes que no besan la
vida!
¡Dibuja-me alas de ángel caído
que me llenen de colores!
Odios que ríen en el cárcel
derrumbando los cuerpos propicios
por los caminos de mi cuerpo.
Y la alegría que se me ahorra...
como pájaro herido que no sabe
escribir
canciones de dolor, ni siquiera
prosas de amor.
Joshua Magellan
domingo, 24 de fevereiro de 2013
Provocatio
Sempre mais
Deixo pedaços de mim por todos os
sítios onde passo, em todos os amigos que amo, a todos os amantes
que tenho. Partilho-me e tenho cada vez mais, sempre acrescentada de
tudo o que vivo…
Missanga
sexta-feira, 22 de fevereiro de 2013
quinta-feira, 21 de fevereiro de 2013
A vida é um milagre
Mesmo quando tudo se desmorona à nossa
volta, os entes queridos partem, os familiares adoecem
irreversivelmente, as relações se deterioram e morrem, os outros
nos parecem subitamente estranhos e o mundo continua a agredir-se
ilimitadamente. Sinto em mim uma vontade visceral de ir em frente,
de derrubar barreiras, de enfrentar as minhas tantas fraquezas.
É algo de epidérmico. Basta acordar e
ver um raio de sol para que me sinta renascer. Basta depois
procurar o mar, observá-lo por breves instantes ou um tarde inteira
para que perceba a magia que é estar. AQUI. AGORA. HOJE. E então
regresso, cabelos ao vento, música no máximo, cantando o mais alto
que puder, para que lá em cima, quem nos olha, perceba que valeu a
pena. Porque tudo, sempre, vale a pena!
Carmo Miranda Machado
quarta-feira, 20 de fevereiro de 2013
Se só o presente existe...
Se só o presente existe, então, todos os instantes, passados ou
futuros, têm de estar a acontecer em simultâneo. Tinha piada se
assim fosse, aliás, tal como acontece no cinema. No cinema a
história aparece-nos no ecrã, mas aquilo que vemos são apenas
sombras projectadas pela luz a atravessar uma película. A acontecer
alguma coisa, foi antes, na cabina do projeccionista, e aí, já está
tudo previsto. Se tivéssemos vontade, poderíamos pedir ao
projeccionista, e ele mostrar-nos-ia que todos os instantes estão,
desde logo, disponíveis dentro da bobine. Se quiséssemos,
poderíamos ver o filme de trás para a frente, aos saltos, ou do
meio para os lados. Não há nada que o impeça. Aparentemente, nos
filmes, tal como na vida, a nossa escolha é a de que a história nos
seja apresentada de forma mais ou menos linear.
Isto remete-nos para uma outra questão. Quando vemos um filme, apesar de termos liberdade para escolher o que ver em cada instante, ainda assim, não podemos fugir do seu argumento. Ou seja, a história é aquela e não temos como fugir dela. Para que a história fosse outra, teríamos de pedir ao projeccionista para trocar de bobine.
Isto remete-nos para uma outra questão. Quando vemos um filme, apesar de termos liberdade para escolher o que ver em cada instante, ainda assim, não podemos fugir do seu argumento. Ou seja, a história é aquela e não temos como fugir dela. Para que a história fosse outra, teríamos de pedir ao projeccionista para trocar de bobine.
Voltando ao filme da minha vida, ao
aceitar o presente como único tempo existente, arrisco também
afirmar que, afinal, o livre arbítrio não passa pelo que decido
fazer em cada instante, mas pela escolha da parte da vida que quero
ver agora. A vida já está lá, do princípio ao fim. Para que o
argumento da minha vida fosse outro, teria de ir algures à minha
mente, trocar o sistema de pensamento que aceitei como meu, e mudar
aquilo que não me canso de projectar. Sem isso, ainda que possa
escolher o que ver em cada instante, a história de fundo será
sempre a mesma. É uma seca.
DuArte
terça-feira, 19 de fevereiro de 2013
Palavras Versadas
já falámos de mais
e de mais é uma árvore sem tempo
de florir
as estações sobrevoam-nos com asas prateadas
de aves formidáveis e rápidas
que nos povoam os sonhos
sem adormecer
e nós partimos do inverno enquanto
dormimos
rachamos a noite em silêncio
ao encontro da memória ágil e quente
que nos aprende a voar
sem a ciência de um rumo dizível
e nos cerca
como uma casa de sombra que brilha
por dentro da sombra
de uma mansão maior que se apaga
no interruptor da primavera
já falámos de mais
e de mais é uma árvore sem vento
de partir
há aves que ficam
à espera
do seu tempo obscuro
quando todas as penas condenam ao sol
e migram
há estações que desfalecem e se
vergam
à brisa derradeira
viciantemente fresca da solidão
no cair das folhas
o lugar plantado que somos tem uma só porta
um só chão incerto
onde se abre uma fenda de incerteza
na construção da raiz
mandei-te a chave por um pombo-correio
esquece a primavera
Renato Filipe Cardoso
domingo, 17 de fevereiro de 2013
Provocatio
Do espanto
Dizem que à medida que crescemos vamos
perdendo a capacidade fantástica de nos espantarmos com o mundo.
Porém, eu ainda me espanto, muitas vezes. Sobretudo com pessoas,
para o bem e para mal. E com as cores impossíveis de um poente,
quase sempre.
Missanga
sábado, 16 de fevereiro de 2013
Crónica Benzodiazepina
FELICIDADE
Por vezes, penso que sou feliz. Hoje,
por exemplo, acordei com sol, o que à partida é meio caminho andado
para a felicidade; celebrei o aniversário da minha mãe, o que
também me deixa radiante; e até consegui, com relativa facilidade,
antever uns dias de férias. Possuo, desta forma, e de acordo com as
mentes mais pragmáticas, todos os ingredientes necessários para a
dita cuja.
Ora bem, a verdade é que tenho dias.
Como a Cecília Meireles, tenho fases, tal como a lua. E tanto posso
acordar com a sensação de que as torres gémeas voltaram a cair,
como com a ideia de que tudo é fácil, porque para mim tudo é
possível.
Uma vez confessei sentir-me feliz. Foi
um desabafo, num daqueles dias em que acordo plena de energia e grata
ao universo por existir. E leve. Extremamente leve (o que para mim é
um grande sinal de felicidade). Mas alguém me disse (não me lembro
já quem) para ter cuidado com o que dizia. É verdade que há
pessoas que cultivam a tristeza. Mas, não é bem o meu caso. Nada me
agrada mais que umas boas gargalhadas decorrentes de uma boa dose de
non sense. E tenho, felizmente, alguns amigos/amigas peritos nisso.
Confesso, porém, que há dias em que sinto escurecer por dentro. Mas
faço sempre o possível (e o impossível) por renascer no dia
seguinte, logo de manhãzinha.
Carmo Miranda Machado
sexta-feira, 15 de fevereiro de 2013
PALAVRA EXPERIMENTAL (XVI)
Af(l)orismos
O povo diz: “Se queres ver o teu
corpo, abre o teu porco”;
Digo eu: Se não queres ser visto pelo teu
povo, fecha o teu corpo;
Sejamos: Se queres fazer viver o teu corpo, vive como um porco;
Diz que se diz: Se queres vender o teu corpo, há sempre um porco que compre;
Eles dizem: Se queres ver onde está o porco,
pergunta quem manda no povo;
Dizemos nós: Se queremos manter o corpo, lá teremos
de abrir o porco.
E o povo, pá, faz o que diz o São Martinho:
Mata o seu porquinho e festeja com cravos e vinho...
Joshua Magellan
quinta-feira, 14 de fevereiro de 2013
TUDO POR AMOR - 14 de Fevereiro de 2013
o amor
passou-se no tempo em que não havia
medo.
não havia paredes subidas.
as manhãs eram remotas como rosas.
os ontens uma mitologia condigna.
a pátria era tão labiríntica quanto
uma lágrima.
tão imprevisível quanto o ofício de
um deus.
o amor passou-se no tempo em que ainda
não tinha nome,
em que os segundos eram uma espécie de
sangue,
e a tarde podia ser uma só palavra
na órbita de uma outra palavra.
o amor passou-se neste poema para
pessoas sós,
passou-se como mera reprodução de um
tempo
em que não havia corpos, logo
corações distantes.
mas ainda assim o amor existe: mesmo sendo
um ontem, mesmo sendo uma lágrima,
mesmo sendo uma rosa esquecida
num quarto azul.
Sylvia Beirute
corações distantes.
mas ainda assim o amor existe: mesmo sendo
um ontem, mesmo sendo uma lágrima,
mesmo sendo uma rosa esquecida
num quarto azul.
Sylvia Beirute
quarta-feira, 13 de fevereiro de 2013
Dualidades: eu e o outro que ama
Existem dois em mim. Um deles é uma decepção. Ele nada sabe: não sabe estar, não sabe dizer, não sabe escrever, não faz a mínima ideia do que quer que seja. E talvez fosse essa a sua única virtude, porque, ao assumir-se vazio, deixou espaço para o outro que agora te apresento. Este tem tudo e, ainda assim, nada tem nada que tu não tenhas, nem poderá ser alguma coisa que tu também não sejas. Dele vem a paz, a possibilidade do Amor, porque quem tem tudo pode atrever-se a amar, estar ainda mais atento àquilo que já é seu, estendendo ao outro o que também é dele, acrescentando de nós ao que é nosso, a quem somos, e, quem sabe, a outros que se atrevam a amar connosco o que também é deles.
Este, que agora te digo, ele pouco falará de si, a menos que aprendas a escutá-lo também em ti. Será que te atreves a isso? Escutar no teu silêncio o meu silêncio?
É que nunca poderei ouvir-te ou olhar para ti de outra forma. Posso ver coisas que não és, escutar coisas que não dizes, posso imaginar-te noutras tantas que entretanto já se cruzaram comigo. Mas é a ti, quem eu quero, só assim poderei conhecer, dentro, onde me falas tão docemente com o teu silêncio.
DuArte
terça-feira, 12 de fevereiro de 2013
Palavras Versadas
no crepúsculo do sonho
entras devagar
na casa
caiada de fresco
ternas reminiscências
(assim me pareceram na infância)
travestidas de risos e brancuras
de doces olhares
(assim me pareceram, de cores garridas)
desabam agora com o fim do dia
madeiras apodrecidas
tardes fúngicas
eclodem em apoteótica loucura
como alucinações
imagens silvantes e frias
pressentidas
naquelas manhãs que não amanheciam e
se transformavam
em dias, em meses, em anos
e tu beliscavas-te uma, outra e outra
vez
até que o sangue jorrava das tuas
veias frágeis
e teimavas, teimavas em não acreditar
que tinhas sido sempre tu
sonâmbula
que tinhas traçado o caminho de todos
os naufrágios
não, não abras a janela
não deixes que a luz se derrame sobre
a vergonha
deixa que o tempo pare
ao imaginar por um momento
que todos os amores são possíveis
não toques em nada, fica imóvel
não respires
finge que se trata de um acto solene
deixa que as correntes do passado tomem
o sono
e que em posição fetal
entre o amarfanhado morno dos lençóis
me abandone.
Catarina Pina
domingo, 10 de fevereiro de 2013
Provocatio
A sua mensagem foi publicada com sucesso!
Recebeu aquela mensagem centenas de vezes. Não podia estar enganado quanto ao seu real "sucesso". Na suposição deste, continuou a escrever as mesmas merdas - que ninguém lia - durante séculos. Até que foi banido para as páginas em branco, quando um crítico iletrado descobriu a sua falta de talento e o denunciou a um proeminente e severo "e-ditador".
Joshua Magellan
sábado, 9 de fevereiro de 2013
Crónica Benzodiazepina
Celebrar a vida
Uma das coisas que me atrai na
filosofia budista é a sua relação com a morte, o modo como vivem
com a consciência de que ao nascermos iniciamos de imediato o
percurso que nos levará a esse fim inevitável. No ocidente, a não
ser que sejamos muito prematuramente confrontados com a morte,
crescemos com a sensação de que esta é algo que só acontece aos
outros, aos desconhecidos. Crescemos com a sensação de que somos
imortais e sentimento só passa quando, por fim, vemos a morte
acontecer perto de nós.
Para os tibetanos a morte é tão
natural como a vida, é mesmo a sua continuação. Crescem sabendo
que a vida é apenas uma passagem e pensar na morte é para eles tão
natural como respirar. Consequentemente, valorizam a vida de um modo
totalmente diferente. Vivem-na serenamente, alheando-se de
mesquinharias.
No espaço de um ano perdi três
pessoas muito importantes para mim. Não conseguirei nunca ter a
postura da filosofia tibetana, porque não foi enraizada no meu
espírito. Contudo, a aceitação, conseguir ultrapassar o desespero,
ajuda. Não é fácil. Estas três mortes fizeram-me repensar muitos
aspectos da minha vida. Saber que caminho para um fim, faz-me querer
viver mais plenamente, mais intensamente. Não quero com isto dizer
que preciso de viver tudo o mais depressa possível. Apenas que tudo
aquilo que me proponho fazer, seja fruto de vontade inequívoca.
Quando me voltar a apaixonar, mesmo já tendo experimentado o
desalento e a dor, entregar-me-ei sem reservas a essa paixão e
correrei os riscos que tiver de correr. Estou com os amigos e
familiares que amo sempre por inteiro. Deixei de fazer fretes, porque
simplesmente não me apetece. Quando algo ou alguém me faz infeliz
ou magoa, reclamo. A vida tem de ser vivida por inteiro e não com
medos e receios. Viver pela metade, com medo de sofrer, não é
viver. Viver é celebrar, sempre.
Missanga
sexta-feira, 8 de fevereiro de 2013
PALAVRA EXPERIMENTAL (XV)
bom dia.
bom dia mas poder trabalhar a ideia de um não poder estar
de memória num lugar escuso, apartados do uso de uma
diferença de dedos mentais, sentidos quebrados nos actos
das estrelas, desastre sobre uma mudança impessoal.
e digo bom dia. um bom dia sobre a linha feita da minha lógica,
o infinito material do mundo seguro e compreensível.
bom dia porque não tenho comparações e quem não as tem
não tem justificação para a liberdade de não ser livre.
e por isso bom dia. aos pássaros. à humanidade metafísica da
noite que sai de olhos cegos como as imagens cinematográficas
da adaptação de um livro de josé saramago.
bom dia à saudade de uma arte que consiste em fazer saudade.
uma saudade que envelhece como aqueles que regressam
apenas com a mente e a desusam na virgindade perdida de uma du-
pla existência, uma dupla alegria falhada na capacidade de espera.
bom dia à visibilidade do invisível. ao fmi. ao banco mundial.
à cimeira da nato. ao primeiro ministro, aos despedidos da
groundforce numa espécie de vigília em mangas de camisa, em
mangas de gestos e pânico nas faces que modernamente duvidam.
bom dia a um mark zuckerberg tenacíssimo a olhar para um
mundo azul e branco sobre uma inocência reprimida
pela desolação da vida fictícia, isolamento do próprio corpo
como uma leitura distante, um coração moral.
bom dia ao projecto humano de vulnerabilidade, instabilidade
do plano, do desejo, da livre associação de ideias. bom dia
às ideias de animalização da sexualidade por bento xvi,
de importanticidade das emoções e absurdo absoluto,
infra-absurdo, infra-inspiração, infra-exercício através da
propagação do nervo económico em hélice.
bom dia a fernando pessoa, a maiakovski, bertolt brecht, a
antónio ramos rosa, a jovens poetas de língua portuguesa como o
domingues ou o domeneck; que escrevam pelo instinto do
intervalo não lúcido da lentidão ocasional entre dois medos distintos,
entre a justificação da causa e o ideal da sobreposição.
bom dia às coisas análogas na diagonal do concreto heterogéneo,
na vontade vaga de falar o abstracto, o indefinido social
de uma seriedade superior. bom dia ao esquecimento
que lambe as feridas que o silêncio recolhe.
Sylvia Beirute
noite que sai de olhos cegos como as imagens cinematográficas
da adaptação de um livro de josé saramago.
bom dia à saudade de uma arte que consiste em fazer saudade.
uma saudade que envelhece como aqueles que regressam
apenas com a mente e a desusam na virgindade perdida de uma du-
pla existência, uma dupla alegria falhada na capacidade de espera.
bom dia à visibilidade do invisível. ao fmi. ao banco mundial.
à cimeira da nato. ao primeiro ministro, aos despedidos da
groundforce numa espécie de vigília em mangas de camisa, em
mangas de gestos e pânico nas faces que modernamente duvidam.
bom dia a um mark zuckerberg tenacíssimo a olhar para um
mundo azul e branco sobre uma inocência reprimida
pela desolação da vida fictícia, isolamento do próprio corpo
como uma leitura distante, um coração moral.
bom dia ao projecto humano de vulnerabilidade, instabilidade
do plano, do desejo, da livre associação de ideias. bom dia
às ideias de animalização da sexualidade por bento xvi,
de importanticidade das emoções e absurdo absoluto,
infra-absurdo, infra-inspiração, infra-exercício através da
propagação do nervo económico em hélice.
bom dia a fernando pessoa, a maiakovski, bertolt brecht, a
antónio ramos rosa, a jovens poetas de língua portuguesa como o
domingues ou o domeneck; que escrevam pelo instinto do
intervalo não lúcido da lentidão ocasional entre dois medos distintos,
entre a justificação da causa e o ideal da sobreposição.
bom dia às coisas análogas na diagonal do concreto heterogéneo,
na vontade vaga de falar o abstracto, o indefinido social
de uma seriedade superior. bom dia ao esquecimento
que lambe as feridas que o silêncio recolhe.
Sylvia Beirute
quinta-feira, 7 de fevereiro de 2013
À porta da ilusão
Depois de atravessada uma porta ilusória, é muito difícil voltar. Portas que abrem para o nada têm uma só face, desaparecendo ainda antes de se fecharem nas nossas costas.
Daí em diante, a única saída é manter a ilusão, defendendo-a com unhas e dentes, ou então, cair de joelhos perante a desilusão de nada conseguirmos de real. E é por isso que viver intensamente e sem freio estreita o caminho para fora do universo dos sonhos. Aqueles que, como eu, vivem amarrados a uma casota, ladrando a tudo e a todos, podem sempre pensar: "se eu fizesse isto, se eu fizesse aquilo, se ao menos vivesse com aquela mulher, se ao menos a vida tivesse sido um pouco mais justa comigo..." Amarrado aos “ses”, posso sempre manter a ilusão de que o mundo, de alguma forma, poderia dar certo.
"Ó pá, e se eu fosse mais alto, se eu tivesse cabelo a cobrir-me a cabeça toda, uma barriga mais desenhada, se eu não fizesse ruídos estranhos com a garganta, se tivesse um pouco mais de charme, tenho a certeza que ela iria olhar para mim! Olha! Se não for nesta vida, pode ser que aconteça numa próxima..."
Os outros, poucos, quase nenhuns, os que arriscam atirar-se a toda a velocidade contra a parede, indo a tudo e a todas, como se não houvesse uma segunda oportunidade. Esses percebem mais cedo, que nada, mas nada, dá certo neste mundo. E já não é preciso uma porta da saída, nem tirar as muitas máscaras, porque elas só existem para manter e proteger a nossa ilha imaginária, a nossa ilusão, o nosso sonho. Um dia, tudo isso cai como por magia do desencanto.
DuArte
Depois de atravessada uma porta ilusória, é muito difícil voltar. Portas que abrem para o nada têm uma só face, desaparecendo ainda antes de se fecharem nas nossas costas.
Daí em diante, a única saída é manter a ilusão, defendendo-a com unhas e dentes, ou então, cair de joelhos perante a desilusão de nada conseguirmos de real. E é por isso que viver intensamente e sem freio estreita o caminho para fora do universo dos sonhos. Aqueles que, como eu, vivem amarrados a uma casota, ladrando a tudo e a todos, podem sempre pensar: "se eu fizesse isto, se eu fizesse aquilo, se ao menos vivesse com aquela mulher, se ao menos a vida tivesse sido um pouco mais justa comigo..." Amarrado aos “ses”, posso sempre manter a ilusão de que o mundo, de alguma forma, poderia dar certo.
"Ó pá, e se eu fosse mais alto, se eu tivesse cabelo a cobrir-me a cabeça toda, uma barriga mais desenhada, se eu não fizesse ruídos estranhos com a garganta, se tivesse um pouco mais de charme, tenho a certeza que ela iria olhar para mim! Olha! Se não for nesta vida, pode ser que aconteça numa próxima..."
Os outros, poucos, quase nenhuns, os que arriscam atirar-se a toda a velocidade contra a parede, indo a tudo e a todas, como se não houvesse uma segunda oportunidade. Esses percebem mais cedo, que nada, mas nada, dá certo neste mundo. E já não é preciso uma porta da saída, nem tirar as muitas máscaras, porque elas só existem para manter e proteger a nossa ilha imaginária, a nossa ilusão, o nosso sonho. Um dia, tudo isso cai como por magia do desencanto.
DuArte
quarta-feira, 6 de fevereiro de 2013
Voltar ali onde as ondas respiram
They say that all poets must have an unrequiet love, as all lovers must have thoughf provoking fears
Voltar ali, longa casa, janelas abertas à vastidão. Coros de búzios evocam risos. Rios que correm. Folhagens que se deslocam. Pó que se dissipa. A saia vermelha lançada ao vento. A sensualidade violenta de Zéfiro. As três Graças a marcar o ritmo. Dançam em roda. Junta-se-lhes Salomão com seus unguentos. Mirra, leite e mel. Ressoam vozes , cânticos, celebrações. A salvação dos náufragos que regressam agora, como filhos pródigos, os mais amados. Trazem nos lábios os licores doces de Penélope e o travo amargo das Gárgulas. No cabelo a coragem de Ulisses. No olhar, a ternura de Helena. Faz-se tarde, faz-se cada vez mais tarde. Persistentes, as bacantes entoam hinos anunciando alvoradas distantes. Águas mornas. Pássaros esvoaçam ébrios. Peixes em terra cumprem rituais ancestrais. Ao largo, uma maré adormecida. E as imagens vão-se projectando ante os seus olhos como se de um filme se tratasse.
Crescem torres colossais que chegam às nuvens. Torres que nas entranhas da maré radicam como cogumelos infernais. A saia vermelha lançada ao vento. Ondulante. A nudez. Uma escada lançada ao mar. As estrelas à distância das cerejas. Os tambores. Viagens reais e imaginárias. Criaturas híbridas e bestiais. Balsas que aflitivamente se afastam da orla. Vénus e Mercúrio entrelaçam-se. Orquestras desafinadas. A saia levantada. Carpideiras silvam entre-dentes. Os mais desejados regressam. É tarde, cada vez mais tarde. Giram as bacantes. Nos lagos flutuam esmeraldas, rubis e diamantes, sob o olhar atento de um abutre excomungado. Holofotes. Gente que passa nas ruas. Muita gente que passa nas ruas. Ressoam vozes. Voam saias vermelhas na imensidão dos oceanos. Mordiscam-se cerejas e estrelas à sombra de frondosos cogumelos. Feras indómitas apascentam rebanhos de ovelhas aladas. No perfil da montanha amontoa-se o casario despovoado. A maré continua adormecida. E as imagens vão-se projectando ante os seus olhos como se de um filme se tratasse.
Imagens reflectidas. Mel, leite e mirra. Cântaros de bálsamo. Folhagens deslizantes. Corpos nus em redenção. Alvoradas distantes. Celebrações. Janelas abertas à vastidão. Zéfiro, Ulisses e as bacantes. As Graças. Provocantes . Cinzas que se transmudam em campos de papoilas e violetas. Voltar ali onde os dias já não são breves. Onde os dias são longos, intermináveis. Voltar ali onde as ondas respiram. Voltar ali onde a Pitonisa penteia os longos cabelos da história. Uma saia vermelha lançada ao vento. Janelas abertas de vastidão, janelas abertas à vastidão. E as imagens, essas, vão-se projectando ante os seus olhos como se de um filme se tratasse.
Catarina Pina
They say that all poets must have an unrequiet love, as all lovers must have thoughf provoking fears
Voltar ali, longa casa, janelas abertas à vastidão. Coros de búzios evocam risos. Rios que correm. Folhagens que se deslocam. Pó que se dissipa. A saia vermelha lançada ao vento. A sensualidade violenta de Zéfiro. As três Graças a marcar o ritmo. Dançam em roda. Junta-se-lhes Salomão com seus unguentos. Mirra, leite e mel. Ressoam vozes , cânticos, celebrações. A salvação dos náufragos que regressam agora, como filhos pródigos, os mais amados. Trazem nos lábios os licores doces de Penélope e o travo amargo das Gárgulas. No cabelo a coragem de Ulisses. No olhar, a ternura de Helena. Faz-se tarde, faz-se cada vez mais tarde. Persistentes, as bacantes entoam hinos anunciando alvoradas distantes. Águas mornas. Pássaros esvoaçam ébrios. Peixes em terra cumprem rituais ancestrais. Ao largo, uma maré adormecida. E as imagens vão-se projectando ante os seus olhos como se de um filme se tratasse.
Crescem torres colossais que chegam às nuvens. Torres que nas entranhas da maré radicam como cogumelos infernais. A saia vermelha lançada ao vento. Ondulante. A nudez. Uma escada lançada ao mar. As estrelas à distância das cerejas. Os tambores. Viagens reais e imaginárias. Criaturas híbridas e bestiais. Balsas que aflitivamente se afastam da orla. Vénus e Mercúrio entrelaçam-se. Orquestras desafinadas. A saia levantada. Carpideiras silvam entre-dentes. Os mais desejados regressam. É tarde, cada vez mais tarde. Giram as bacantes. Nos lagos flutuam esmeraldas, rubis e diamantes, sob o olhar atento de um abutre excomungado. Holofotes. Gente que passa nas ruas. Muita gente que passa nas ruas. Ressoam vozes. Voam saias vermelhas na imensidão dos oceanos. Mordiscam-se cerejas e estrelas à sombra de frondosos cogumelos. Feras indómitas apascentam rebanhos de ovelhas aladas. No perfil da montanha amontoa-se o casario despovoado. A maré continua adormecida. E as imagens vão-se projectando ante os seus olhos como se de um filme se tratasse.
Imagens reflectidas. Mel, leite e mirra. Cântaros de bálsamo. Folhagens deslizantes. Corpos nus em redenção. Alvoradas distantes. Celebrações. Janelas abertas à vastidão. Zéfiro, Ulisses e as bacantes. As Graças. Provocantes . Cinzas que se transmudam em campos de papoilas e violetas. Voltar ali onde os dias já não são breves. Onde os dias são longos, intermináveis. Voltar ali onde as ondas respiram. Voltar ali onde a Pitonisa penteia os longos cabelos da história. Uma saia vermelha lançada ao vento. Janelas abertas de vastidão, janelas abertas à vastidão. E as imagens, essas, vão-se projectando ante os seus olhos como se de um filme se tratasse.
Catarina Pina
terça-feira, 5 de fevereiro de 2013
Palavras Versadas
uma semente à espera
como pode caber uma oração inteira
entre
as duas vírgulas do teu sorriso?
onde estava eu na manhã em que amaste
o perfume da minha ausência?
tenho tantas perguntas nodadas na garganta
e trago a voz puída
como o tapete pressa onde assentei os pés
todos estes anos
já me lembrei de percorrer os teus dedos oblongos de futuro
já me lembrei de me demorar nas falanges do deslumbramento,
uma a uma
e abraçar-me à árvore, abanar a árvore
desde a raiz
à copa caduca do tempo perdido na algibeira
da irreversibilidade, talvez assim
caísses nos meus braços, ou quem sabe voasses?
não importa, agora
cada fruto me diz que te quero.
e a fome repousa, finalmente, no desejo pluvial da semente
as duas vírgulas do teu sorriso?
onde estava eu na manhã em que amaste
o perfume da minha ausência?
tenho tantas perguntas nodadas na garganta
e trago a voz puída
como o tapete pressa onde assentei os pés
todos estes anos
já me lembrei de percorrer os teus dedos oblongos de futuro
já me lembrei de me demorar nas falanges do deslumbramento,
uma a uma
e abraçar-me à árvore, abanar a árvore
desde a raiz
à copa caduca do tempo perdido na algibeira
da irreversibilidade, talvez assim
caísses nos meus braços, ou quem sabe voasses?
não importa, agora
cada fruto me diz que te quero.
e a fome repousa, finalmente, no desejo pluvial da semente
Renato Cardoso
domingo, 3 de fevereiro de 2013
Provocatio
Perdição
de um dia não
Hoje
perdi-me de mim... Hoje tenho andado à deriva, sem ninguém ao leme.
Se
alguém me encontrar, por favor, devolva-me a mim.
Missanga
sábado, 2 de fevereiro de 2013
Crónica Benzodiazepina
PARA QUÊ BARRICAR AS EMOÇÕES?
Comecei a apreciar a manhã e a brisa
que me despenteia os cabelos já de si pouco penteados. Agora, ler e
meditar, observar os pequenos nadas matinais, sentir o valor de cada
pequena coisa, ganharam sentido. A acalmia emocional tende a
instalar-me, pouco a pouco, após tantas noites de luta desenfreada
contra a sensação de vazio e de mal estar. Percebi que de nada vale
tentar barricar as emoções que, inevitavelmente, acabam sempre por
se derramar. Só o tempo pode ajudar à tranquilidade. É preciso
tempo. Tempo para viver. Tempo para esquecer. Tempo para escutar.
Agora aprecio as diferentes tonalidades
que o Tejo toma até o sol surgir por completo no horizonte. Agora
usufruo finalmente do prazer da manhã ao sol do Alentejo. Agora
estou numa pausa da minha viagem em busca do sol.
Carmo Miranda Machado
sexta-feira, 1 de fevereiro de 2013
quinta-feira, 31 de janeiro de 2013
Por um morfema feliz
As palavras falam sobre todos os
assuntos, estão por todo o lado onde haja tema de conversa, onde
haja algo a dizer. As palavras são gregárias, vivem em cidades
textuais, em vilas e aldeias, em comunidades de povos de letras
sociais. E, mesmo quando solitárias, podem ser multiplicadas,
traduzidas por outras palavras. Até trocadas por outras da mesma
família ou significado. As palavras são transversalmente habitadas
por “morfemas lexicais ou gramaticais” e podem ser
lugares-comuns.
Há um "morfema" por dentro das
palavras, de cada palavra. Há um “morfema” que vive só e feliz;
e há outro que vive o discurso acompanhado pelo prefixo de negação
e acaba sempre infeliz. A minha felicidade parte do “morfema”
feliz, corre em fuga do prefixo que a tenta negar e ao chegar à
meta cola-se ao cru sufixo da idade. A minha felicidade plena será
conseguir atingir feliz a maior idade que conseguir. E se o estado do
meu morfema se mantiver adjectivante, terei felizmente aquilo que a
minha adverbial mente pede.
Quando o feliz surge solitário, não
passa de um “morfema livre”, um "morfema" que se pode vir a unir
com um “lexema” em qualquer ocasião, mas que tão só vale por
si. Para ele, ser livre, significa usar a liberdade de se exprimir
adjectiva ou substantivamente. O “morfema livre” explora o
“morfema preso”: vive nele em razão da idade, acrescenta-lhe
mente, ou redu-lo a negações adjectivas ou adverbiais. O “morfema
livre” coabita consigo próprio, mas com a idade torna-se um
“morfema preso”.
Quando o “morfema” saúde, sofre de
algumas “alomorfias”, pode não ser nada de grave, contanto que
faça uma vida salutar e não frequente locais insalubres, não será
o convívio do morfema com algumas variantes alomorfes que vai
desmerecer a sua origem. Mas, nunca por nunca, devemos cair na
ausência de morfema apenas para cobrir a função semântica, porque
quando ele se ausenta caímos no “morfema zero”.
Joshua Magellan
quarta-feira, 30 de janeiro de 2013
Boa sorte, Cândida!
É um dia como tantos a estas
horas da manhã. A senhora do banco da frente já vai no
segundo telefonema e eu ainda agora me sentei. Era para dizer que já
vai no comboio, que a greve já era! Antes tinha falado a alguém a
quem desabafou a insatisfação com uma outra lá do trabalho, que «é
convencida demais» e que «não tem postura». A do lado também
está ao telefone e a de trás dá conta da vida: sim, a Bárbara vai
bem, está na Faculdade, lá no trabalho o costume, essa tipa é
sempre a mesma, no Pingo Doce é mais em conta. (Há
pessoas que comem farinheira mal acordam e seguem lindamente, dia
afora. Nem arrotos, nem nada!)
O comboio parou. A do lado, «hello», a olhar para o telefone.
Estou com vontade de telefonar a alguém!
A das queixas desligou e a outra: «a Cândida vai ser operada às varizes»!
O comboio parou. A do lado, «hello», a olhar para o telefone.
Estou com vontade de telefonar a alguém!
A das queixas desligou e a outra: «a Cândida vai ser operada às varizes»!
Iolanda Bárria
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