terça-feira, 7 de fevereiro de 2012
SETE DIAS VEZES POESIA - Provocatio (I)
NEOLOGISMO
«Globelização» a era
É presente e futuro
Bela é a Primavera
Não criar é muito duro
João Belo
SETE DIAS VEZES POESIA (I)
Infame Dizedor
Dizer absolutamente tudo como se nos matasse
o estreito horrível em carne fogo.
Abrupto castelo florescendo na barriga sem tréguas
nem torres de pólen, cerco às palavras, mais,
obrigação inteira redonda no afã de construção,
pedra ante pedra de regresso impossível. Golfo
de ar impresente que te não pertence em evasão sonora
pela garganta, contra-tempo de cicatriz imparável,
erosão nos dentes com instrumentos de tortura, céu
órfão de loucura. E uma noção indefinida
de boca. Tenho dito. Que depois
imaginem animais e lhes amestrem nomes, misturem
ternura em pó e água benta, talvez um emprego indecente
com salário e regalias de banho, perfumes treinados
para amar cegamente, que a mulher magra e usada se dispa
de pele à frente do trânsito e das mentiras
estruturantemente opacas do pensamento. Nada disso diz
nada. Não importa. Tudo
tal e qual te disse e repeti e repeti e repeti e repeti
até reverberar nos olhos vazados ou talvez no coração
ausente ou no comboio em vias de extinção ou na última
ceia dos condenados à sorte. Seja
feita a minha vontade. Mete-me nojo o que não digo. Sabes?
Nem tudo no dinheiro se resume à vida. Há tabaco
para além da morte. Fuma, transporta as ideias
cuidadosamente, numa mochila de lona, num sexo elo
quente de mulher palavrosa, ou
num pulmão se preferes. E no entanto. Leva contigo
o que dizer, do que seja outra coisa que não o que disse,
não repitas a morte nem o vazio, não escolhas
as nuvens que usas ao domingo ou no dia do teu casamento,
quando disseres sim
assim seja
seja feita a tua vontade
em nome do pai e da mãe e do espírito que te der
na real gana, ou na republicana. Diz como quem corta as veias
à certeza, ciente de que o passado é imprevisível como
a fotocópia mutilada de um cadáver antigo,
imutável como o sangue a colorir as varandas autoritárias
dos dias azuis de procissão.
Diz sol quando nada mais te aquecer do teu lado míope.
Colhe a mãe para o teu rosto de inverno.
Guarda frutos indizíveis e fome que dizer para quando
fores só e uma única luz no horizonte te
separe da equação altiva do desespero nos pássaros.
Não te cales por amor algum. Nem por promessas. Nem por
desejos de promessas. Ama. Cumpre. Usa.
Sê infame por feitio e devoção e diz bem alto a infâmia.
Afasta os juízes a teu favor, troca-os pela voz
imprevista. Diz. Dá corda aos sapatos para que não sobre
para o pescoço. Salta em andamento, transige
até seres rio, aponta um dedo para o mar e vai à boleia.
Que o medo te sirva de lição.
Renato Filipe Cardoso
domingo, 5 de fevereiro de 2012
Provocatio
O amor é...
O amor é como o IRS, está cheio de deduções e de abatimentos. Mas, quando chega o reembolso, sentimos que valeu a pena fazer os descontos, pagar os IVA's e fazer a retenção na fonte. Quanto mais se investe, mais se recebe. E depois de receber, voltamos a queixar-nos do quanto descontamos... e do trabalho que dá. Assim é o amor. Não consta que desapareça. Nem o amor, nem o IRS.
Ana Santiago
sábado, 4 de fevereiro de 2012
Crónica Benzodiazepina
Canelas mordidas
Foi preciso os governos e os senhores políticos por esse mundo fora sentirem as canelas mordiscadas pelo Wikileaks para acordarem para a questão da regulamentação da net, os direitos de autor, propriedade intelectual, e por aí fora. Quer dizer, estas duas últimas entram na enxurrada por arrasto, porque em bom rigor o que lhes interessa, agora, é regulamentar e ah! êxtase máximo: proibir, proibir.
A verdade é que neste momento lhes dá um jeitão misturarem os seus receios e intenções, ao coro de queixas de músicos e cineastas e escritores e demais autores que há muito tempo se queixam de verem as suas criações flagrantemente plagiadas e roubadas e de não serem justamente remunerados pelo que fazem, na net. Parece tudo a mesmo coisa, mas não é.
Vamos ver no que vai dar.
Iolanda Bárria
sexta-feira, 3 de fevereiro de 2012
No planeta do $upernúmero
Naquela sociedade ele era apenas um Numeral, pertencia à classe mais baixa, estava na base que sustentava toda a pirâmide social. Acima de dele estavam muitos milhões de Numerais e todos os Ordinais, ele existia simplesmente entre os Números, sujeito àquela hierarquia complicada. Antes de qualquer, ou, acima de todos, morava o Primo – o Primeiro – que era redundantemente secundado pelo Segundo e coadjuvado pelos Terceiro e Quarto e Quinto, e por todos os restantes até à Dúzia. Eram os “figurões da Dúzia”, designação dada pelos mais básicos aos membros do governo supremo do mundo digital. A partir daí até ao Ducentésimo, mais ou menos, eram todos realmente importantes, importantíssimos, autênticas eminências, algumas pardas. Nem todos eram conhecidos, apesar de serem eles que organizavam as nossas vidas, apenas fixávamos os rostos dos que nos falavam pela rede em que estamos internados. Do Ducentésimo, ao Duomilésimo vinha uma camada de gente igualmente relevante: secretários, assessores, conselheiros, administradores, gestores, et coetera – gente de segunda linha, mas que desfrutava igualmente de um sem número de privilégios. A partir do Decamilésimo, vinha uma casta mais modesta de Ordinais, mas que usufruía ainda de certos benefícios vedados ao comum dos Numerais. E assim sucessivamente, até às Centenas de Milhar, até aos Milhões, aos Biliões, até ao infinito e, por vezes, para lá do Oito deitado.
O mesmo se passava com os Numerais, quanto à estrutura hierárquica: o nosso Um era um indivíduo proeminente, o maior da sua linhagem, mas não passava de Um, um Numeral. Ainda que fosse o primigénio, um líder dos sindicatos, um aguerrido deputado do contra, ou um activo agitador, era um sempre um Numeral. É óbvio que ninguém queria ser um pobre Zero, um dígito indigente. Quando eram apanhados pela “polícia contabilística”, estes engavetavam-nos à direita de um número qualquer, inscreviam-nos na coluna das receitas ao lado direito de um Numeral solitário e desciam-no de categoria. Por isso havia cada menos Zeros sem-abrigo, a maior parte deles contribuíam como dígitos de valor para a economia nacional regular e paralela, e passaram a acompanhar com Numerais de vários dígitos. Foi uma grande vitória, a do Dez, quando conseguiu a integração social do primeiro Zero. Porém, foi também neste momento que começou a exploração desenfreada dos Zeros, isto é, a exploração do Número pelo Número. O mundo dos números conheceu uma grande expansão económica e foi a partir de então que os “Números primos” se tornaram vitais para construir pontes e fábricas e estradas e edifícios... Que o “Número de ouro” serviu aos arquitectos para achar a beleza das coisas, para encontrar a medida certa do universo e para traçar a medida do espaço ideal das nossas vidas. E que se distinguiram toda uma série de Numerais, em todos os espaços de actividade, matemática ou filosófica: ele são os místicos, os cabalísticos, os holísticos, os bíblicos, os dos graus etílicos.
Antes de se dar o colapso global dos Números, provocado pela vingança expansiva do neo-liberalismo económico, os Numerais haviam ganho uma nova expressão social, sobretudo desde que surgira o $upernúmero, (fruto de um caso fortuito entre um Numeral da despesa falhado e um magro Ordinal das receitas, num orçamento de $uperavit). Era o $upernúmero que influenciava decisivamente a troika executiva, era ele que na realidade governava todos os Numerais, que coordenava e dirigia os Ordinais proeminentes, mercê da sua posição no capital circulante, dos seus conhecimentos na banca e nos mercados financeiros.
Joshua Magellan
quinta-feira, 2 de fevereiro de 2012
Nem uma palavra
Acabada de chegar ao cemitério, a velhinha contornou a campa do marido até ao lugar onde pousara o pequeno novelo desenrolado. Não trouxe flores nem velas. Por baixo do braço, como é costume, traz uma pequena cadeira de praia que arma com esforço para se sentar e respirar fundo. Mal recupera as forças, verga-se e pega a linha coberta de gotículas de orvalho.
Pega no fio como lhe pegou na mão durante os infindáveis anos de dor e de doença; com as duas mãos, sussurrando o seu nome. Encostando-o à face, aliviada, certa de que o fio enterrado ainda está atado às mãos do marido.
Contou-lhe da noite: de como sem ele na cama não consegue aquecer os pés. Relatou-lhe as notícias que memorizara à pressa no quiosque junto à paragem do autocarro. Falou-lhe dos filhos. Falou até não ter mais o que dizer. Depois, deixou-se ficar sentada, muito calada, com as mãos pousadas no colo a desfiar o que ele tinha para lhe dizer.
DuArte
quarta-feira, 1 de fevereiro de 2012
On the run
Tenho muita prática em fugir. Fugi durante imenso tempo, durante demasiado tempo. Fugi de paixões intensas que me pudessem magoar, fugi de sentimentos, de laços mais fortes, fugi sempre que senti que alguém me poderia aprisionar. Tornei-me livre de laços inoportunos que só servem para amarrar as pessoas umas às outras. Andei pelo mundo, livre. Nunca ninguém me esperou. Nunca esperei ninguém. Percebo agora, tarde demais, que fugi sempre de mim, que nunca fui livre, que sempre me aprisionou o medo de criar afectos, o pavor de amar alguém e com isso sofrer. Andei a vida toda a monte da própria vida.
Missanga
terça-feira, 31 de janeiro de 2012
Palavras Versadas
FUTURISTA
Todos os dias um belo soneto
Dedica o poeta à nação
Nação que é o mundo bom completo
Soneto que é em forma de oração
Faz amor o poeta quer amor
E bela forma quer de liberdade
Quer justiça o poeta a maior
A mais grande justiça é a equidade
Aos outros reconhece ele talento
Haja respeito em todos bom respeito
Que esta vida seja o bem possível
Que cada artista tenha o seu sustento
Conte mais a virtude que o defeito
E que venha o Céu apetecível
João Belo
domingo, 29 de janeiro de 2012
Provocatio
A ilusão do tempo
Quando, há muitos anos, nos encontrámos e aparentemente nos revelámos um ao outro, sem sabermos estávamos já a recordar, por exemplo, este momento.
DuArte
sábado, 28 de janeiro de 2012
Crónica Benzodiazepina
A erva quando nasce...
Anda uma ovelha entre as outras ovelhas, por andar, por ser Ser de acompanhar desde o seu primórdio selvagem mais que gregário. A ovelha é um animal que só, por si, não se sente bem, por só se sentir bem sendo em rebanho. Comparte tudo com o seu semelhante. E com a cabra. A cabra é muito importante, é um elemento essencial do rebanho, pois, é a cabra que escolhe o pasto e conduz o rebanho. A ovelha vai atrás, deixa-se conduzir, a cabra não, necessita de ser coagida pelos cães a não se arrojar fora do rebanho. Lidera, conduz, protesta, não se emenda, e fá-lo até ao limte das suas canelas mordidas. Dificilmente se perde do rebanho, gosta de escolher, de descobrir, fareja à légua na humidade do trilho a abundância. Sabe distinguir as ervas e os fungos, os que envenenam, os que amarujam, os que aguilhoam, os que se colam ao ruminar dos dentes, mas, de resto, come tudo o que cresce do solo sem repulsa. Quando deixa de ouvir os guizos, volta atrás, procura o rebanho e integra-se, mistura-se com o seu séquito e condu-lo por outro rasto de verde. Por sua vez, a ovelha pode ficar parada no mesmo local, comendo durante horas, até se esquecer por completo que o rebanho se foi embora e, ao ocaso do dia, não saber sequer como retornar ao bardo sem ser conduzida. Eu já vi muitas ovelhas e algumas cabras, menos pastores, e algumas pessoas tão parecidas com as primeiras.
Joshua M.
sexta-feira, 27 de janeiro de 2012
J. D. Salinger - 1 de Janeiro de 1919 / 27 de Janeiro de 2011
Desaparecer
A propósito da morte de J.D.Salinger (por estes dias), retornei ao Dr. Pasavento - um clássico, entre as minhas fixações.
Ambos recusam obstinadamente a ideia de qualquer reconhecimento por via das suas obras mas, ao contrário de Salinger que, sem nunca ter abdicado do direito de não ser famoso, optou por uma vida recolhida, Pasavento tem a obsessão do próprio desaparecimento e da obra que produz.
O desvanecimento da sua escrita seria também o seu, convence-se, a dada altura.
Exercita nova caligrafia, reduzindo drasticamente o corpo da letra e substitui a impressão forte da caneta pela leveza da marca do carvão. Desaprende o encaixe dos dedos, soltando ligeiramente o lápis enquanto escreve.
Quer dizer, enquanto... já não escreve!
(À parte:)
Não, isto não é 'piretecnia'.
Iolanda Bárria
quinta-feira, 26 de janeiro de 2012
Diz que é do tempo
Mas não é. Do tempo. É das coisas. Assim no geral. Das coisas que acontecem de forma inesperada. Dos scones que não foram porque um estranho ensaiava saxofone. De janela aberta. No primeiro andar de um prédio de traça antiga. Paralisando-me os músculos. É da magia do bosque que se perdeu, atraindo a magia da cidade em dia de castanhas assadas. É de quem cruza a esquinas de forma destemida. É dos receios insondáveis. Dos perigos que não são. E dos tremores. Dos ardores. Dos destemores...
Bruno Vilão
quarta-feira, 25 de janeiro de 2012
EXCÊNTRICO
O meu pai era um homem alto, magro, de olhos azuis cristalinos e rosto perfeito. Era um homem estranhamente elegante que me habituei a ver à distância nos seus espaços de eleição: a sua secretária, onde lia e escrevia avidamente, e o canto do quintal, sob aquela imensa amendoeira que nunca, que me lembre, deu algum fruto.
Era um homem excêntrico, de uma excentricidade que me incomodava. Na forma de agir, de falar, de viver. Os seus hábitos escandalizavam. As suas palavras, sempre novas, deixavam-me inquieta. Era demasiado diferente dos demais para não me incomodar. Mas as suas leituras, os seus livros, os seus poemas permanecem em mim. Sinto saudades de o ver. Acordo todas as noites a olhar para os seus olhos azuis a devolverem-me um sorriso.
Não o vi morrer. Morreu sozinho. Só espero que tenha sido devagarinho, como se estivesse a adormecer.
Carmo Miranda Machado
terça-feira, 24 de janeiro de 2012
matematicamente
o que eu gosto mesmo
não é de me deitar com a gramática
o que eu gosto mesmo
é de foder a matemática
passar as tardes a contar homens múltiplos
passar as noites a contar orgasmos múltiplos
passar as manhãs a contar mentiras
a contar a todos o quanto ganho
a gabar-me de mundos e fundos que digo que tenho
omitindo o tanto que me tiras
o que eu gosto mesmo
não é de ter o jeito o dom ou a perfeição
nem a subtileza da poesia
o que eu gosto mesmo
é de ser tão hábil na minha ilusão
que dois mais dois somam sempre a minha fantasia
o que eu gosto mesmo
é de mentir cirurgicamente sem anestesia
e de acreditar como profissão
o que eu gosto mesmo
é de só contar petas
aldrabar no que quer que diga
a fingir ser uma rosa perfumada
ladeada pelas costumeiras enfadonhas borboletas
a espinhosa raiz quadrada
da faca que me plantaram na barriga
Renato Filipe Cardoso
domingo, 22 de janeiro de 2012
Provocatio
pan et circenses
entre o espaço
que vai da careta
de um palhaço
ao sorriso lareta
do petiz atento
vive o mundo
em contratempo
preso ao fundo
dum absurdo ideal
tenuíssimo fio
entre o virtual
e o desvario
Joshua M.
sábado, 21 de janeiro de 2012
Crónica Benzodiazepina
can't buy me love
Se eu escrevesse numa revista feminina e a minha cara andasse a passear de autocarro, como na América, este texto chamar-se-ia muito provavelmente: “Como fazer vida de rica sem dinheiro” ou “Dez maneiras para viver à grande sem dinheiro”. Se fosse escrito em inglês, começaria por How to…, esse estilo de incomparável utilidade que tanto nos pode ajudar a perder dez quilos numa semana, como a conquistar o marido da amiga.
Mas como a escrita tem andado escassa, tal como o dinheiro na maioria das carteiras dos nossos empresários e publishers, decidi investir nas mágoas de grandeza - a doença que invadiu as artérias desta cidade, Lisboa que é a que melhor conheço, e das vidas dos pequenos urbanos, que são os que mais sofrem e riem em cima de si mesmos e das suas desgraças, e nos quais eu me incluo. Andamos cheios de mazelas, calos na criatividade de tanto caminharmos, nódoas negras dos encontrões e atropelos aos nossos caracteres escritos, às nossas devoções e paixões. Os mais afortunados têm empregos, os mais aflitos têm trabalhos no regime de cargas e descargas pesadas, e os mais desenrascados têm ambos. (Não vou falar dos desempregados, porque quebra-se a futilidade deste texto). Todos nós ainda estamos para saber como vivemos e chegamos ao fim do mês sem necessidade de voltarmos para casa dos pais. Mas andamos felizes e contentes ainda assim. Não somos muito normais. Ainda agora no facebook “disse” que ia a mais uma festa de abertura de um bar no Cais do Sodré. A vida é bela. No outro dia fui jantar sushi e bebi cosmopolitan. Claro que no dia anterior tingi o cabelo com tinta do supermercado, descansada porque há uma actriz linda e boa, da série Lost, que mente magnificamente na publicidade a dizer que também o faz. Dez euros e noventa cêntimos, em vez dos cento e tal que gastava há uns anos a fazer highlights, dá para fazer uns estragos de cosmopolitans de vez em quando e, a bem dizer, só o olhar clínico de um profissional perceberá que o castanho chocolate que trago ao vento não é igual aos tons que a expert em fashion color me aplicava no Toni & Guy.
Mas este texto começou há uma semana e tal quando um amigo pequeno urbano, recentemente migrado para a capital, me confidenciou: “Gostava de ter dinheiro para a vida que levo”. Eu acho que este início de texto, escrito na rua, à esquina de uma festa, diz tudo.
Para não estragar a frase, "se ele morrer primeiro eu gostaria de escrever no seu obituário", resta-me pedir desculpa a todos os que ao ler este texto pensavam que iam encontrar dez maneiras de fazer vida de rico sem dinheiro. Mas é simples. Substituam neste texto, à medida das vossas tentações, a tinta do cabelo por outras coisas das quais em tempos achavam que não conseguiam abdicar, e os cosmopolitans e o sushi por outras tantas de que gostem ainda mais, e têm o segredo. É a New Age dos pobres de ouro, mas ricos em sonhos. Só não percam é o espírito.
Ana Santiago
sexta-feira, 20 de janeiro de 2012
POEMA DE TERNURA
Ela pegava nos bichos com as duas mãos e depois vinha-mos mostrar com um sorriso traquino de gaiata nunca convencida de que o Sol brilhava nos seus olhos. Um dia eu fui à livraria da cidade e comprei-lhe um livro muito grande com estampas de animais domésticos que haviam de alegrar a sua juventude. Depois de lho oferecer ela apenas me perguntou por que é que tinham posto letras nos animais e lhes haviam chamado de domésticos e eu não soube que lhe responder. Fiquei muito sério a olhar para ela e um sorriso iluminou os nossos lábios. O Universo que tínhamos nas nossas mãos era o mundo colorido da nossa imaginação. E hoje que crescemos os dois eu nunca posso esquecer aquela linda menina loura que nasceu no campo para ser gaiata, forrar as minhas paredes de um azul muito claro e brincar com os meus cabelos chamando-me Papá.
Paulo Brito e Abreu
quinta-feira, 19 de janeiro de 2012
Bang Bang
Por breves instantes desviei-me do arbusto que me resguardava os sentidos. Não totalmente, que isso de passar da total camuflagem emocional para nu no deserto vai uma distância tão díspar como do Bang Bang da Nancy Sinatra para o original da Cher. Desvendei-me um pouco apenas. O suficiente para pensar: “Eu devia saber melhor”. E devia. Mas o impulso é sempre mais intenso, mais mágico e mais profético (e por que não dizer mais sonhador) do que o espartilho que amestra as acções.
Suavizo-me por sentir ter conseguido reavivar um furor que julgava perdido algures no tempo e por ter consentido que conquistasse o direito a expressar-se, da forma excessiva e por vezes intimidante que me escorre dos dedos, da pele e de um certo indistinto instinto. E esta ínfima distracção valeu-me um infalível Bang Bang que me implode no peito.
Bruno Vilão
quarta-feira, 18 de janeiro de 2012
Todos os actos de uma farsa
Sou uma fraude. Tudo em mim é falso. O eterno sorriso, a conversa fácil, a segurança, o belo marido. Tudo, menos esta dor de viver.
Nada, nem ninguém me toca o coração. Não consigo sentir alegria nem prazer. Apenas um aperto no coração que me tira o fôlego. Ah, mas sei fingir com perfeição. Faço o papel da esposa perfeita, da nora ideal, da amiga que todos gostariam de ter. Se eles soubessem, se eles olhassem para além da minha imagem, se olhassem bem dentro da minha alma, veriam a escuridão e o abismo, a ausência de sentimentos por quem quer que seja. Os dramas dos outros não me afectam, nem mesmo daqueles a quem supostamente eu amo. A morte, as desgraças alheias? Sou invulnerável a tudo isso. Apenas o que sinto me importa, me angustia. E o que sinto é por mim, por mais ninguém.
Às vezes penso que poderia ter sido uma belíssima actriz. Represento a minha vida feliz e pacata com todo o requinte. O turbilhão dentro de mim é invisível para os outros.
E tenho inveja, uma inveja doentia de todos aqueles que me parecem felizes, daqueles que têm riso fácil, a capacidade de achar graça a qualquer disparate, tenho inveja dos que se riem da sua própria desgraça. Tenho inveja dos que sofrem por amor ou por perda.
Fui a criança modelo, a menina bem comportada, a aluna brilhante, a adolescente bonita e ajuizada, a filha perfeita, a jovem adulta consciente. Nunca fiz nada que surpreendesse os outros pela negativa. Fui sempre tudo aquilo que esperavam que eu fosse. Nunca tomei uma atitude que não fosse adequada e esperada. Nunca desiludi ninguém, além de mim própria. Hoje sinto o meu coração cheio de raivas antigas, fúrias acumuladas, atitudes contidas, palavras engasgadas e não sei o que fazer com elas. Sinto que a qualquer momento a farsa vai, por fim, acabar.
Missanga
terça-feira, 17 de janeiro de 2012
Palavras Versadas
UNS OUTROS DEDOS, TÃO ÍNTIMOS
uns outros dedos, tão íntimos
e a partir daqui liberto-me, nada
é um espírito
por mais de um segundo.
parte de mim
parte para representar
a marcha lenta
do meu dilúvio crescente
e periódico.
e eu ligo à minha mãe
e ao meu pai
mas é um tempo passado, um passado
remoto que vejo a partir
de um futuro também remoto, um futuro
sem imagens, embora com sons,
sons que são o picotado do silêncio.
uns outros dedos, tão íntimos,
recortam pelo picotado, dizem
agora, comparam a cinza e o medo.
Sylvia Beirute
domingo, 15 de janeiro de 2012
Provocatio
Nunca ou estar mesmo a pedi-las
Os puristas da liguagem emocional dizem que nunca se diz "nunca". Que o "nunca" atrai o que nunca, sabemos nós, queríamos.
Viver no campo. Correr. Andar de bicicleta. Dedicar-me à agricultura. Não trabalhar. Ter três anos de licença de maternidade. Acampar. Ser vegetariana. Fazer depilação em casa. Não sair à noite. Ver documentários sobre bichos. Ser fã futebol. Costurar. Coser meias. Bordar. Pescar. Escalar. Deixar ver os cabelos brancos. Falar com as plantas.
Que Deus não permita e me tire o "nunca" da boca.
Ana Santiago
sábado, 14 de janeiro de 2012
Crónica Benzodiazepina
Crónica feminina
Um dia, reparei numa mulher que vendia peixe, havia qualquer coisa de peculiar nela. Desde esse dia, quando por acaso passava pela porta do mercado, detinha-me sempre por alguns instantes a admirar aquela rara criatura . Certa vez, adiei-me num olhar, num olhar de mirada certeira e clínica. Observando a marchante das delícias de Poseidon extasiado: a forma breve como amanhava e embrulhava o peixe; a convicção com que dizia cada caralhada; a suavidade ríspida com que escamava, tanto a corvina como a pescada. Estava, sem dúvida, perante uma mulher de pêlo na venta e desenvoltura na língua. Cheguei a temer que reparasse no meu silêncio investigador, não queria ser notado, não queria interferir no objecto da minha observação, limitava-me a examinar discretamente. Lá estava ela, de mangas arregaçadas, lenço à cabeça, ora a limpar as mãos a um farrapo, ora deitando mão da sacola de estopa onde guardava o pecúlio das vendas. Olhava em redor, desconfiada, de todos, de tudo, a cada vez que deitava mão à sacola do dinheiro. Depois cuspia no lenço, que voltava a enrodilhar no bolso – onde guardava também as chaves, alguns trocos, toda a sorte de escória. Finalizava a higiene nasal com a parte exterior do antebraço, erguia a cabeça, e descansava a mão na anca armada em pose de varina. Olh'ó cabrão... Q'antos são eles? Ólh'ó tenrinho! Tens picha p'ra mim, ó quê? Soltava graciosamente, quando à boca pequena lhe pediam descontos, ou em surdina suspiravam pelo favor dos seus encantos. Era ela, a mulher comum, a Mulher em toda a sua plenitude e genuinidade, em toda a sua feminilidade de Eva original. Era ela, ainda, mãe de três filhos e avó de dois netos.
Guardo nostalgicamente a sua imagem na memória: a cuspir no lenço, a apregoar, aos pontapés às cabeças de pargo e de goraz, perdidas pelo chão vermelho da velha praça. Era ela, esplendorosamente ela, em toda a sua graça e delicadeza. Uma vez, dizem, agarrou pelos colarinhos a um mau pagador, encostou-lhe a faca aos ditos e jurou deixá-lo istérilico... se o carcanhol não morasse em casa dela no dia seguinte. E morou, afirmam algumas testemunhas, vendedeiras das bancas vizinhas. Contam outros que, antes de tudo, pegou num farrapo encardido e limpou a faca tanto quanto a bodeguice do pano a deixou. E tudo por bem, porque se não assustasse verdadeiramente o relapso devedor ainda teria de o riscar do "rol dos caloteiros" à faca, o que resultaria num triplo prejuízo – sujidade, tempo e dinheiro.
De salientar que, naquele momento de emoção violenta, onde qualquer homem perderia a cabeça, esta mulher manteve a frieza, a presença de espírito, distinguindo-se dos demais nos meros detalhes de puro asseio e respeito pela vida humana. Comovem qualquer um: a sensibilidade, o espírito compreensivo, o amor (quase fraternal), a magnanimidade com que adoçou o pagante. Porque esta mulher representa todas as peixeiras, esta mulher representa todas as mulheres, esta mulher representa todos os homens, os que pescam o peixe e os outros.
Subjugado pelo seu magnetismo, comentava comigo mesmo, como era bom que... Momento em que fui atingido por um polvo com odor a três dias de banca (em degelo acelerado), alvo da sua ira. Ao recuperar da pancada, apercebi-me que a mulher, em alvoroço, vociferava contra mim: Aquel cabrão, estavá'li prantado a olhar p'ra mim há mai d'um quarto d'hora! Sem outra saída, que não a da fuga, precipitei-me numa correria em direcção à porta da praça e segui o trilho do amarelo do “eléctrico”. Estava atrasado para a reunião, tresandava a peixe, tinha de me apressar. “ – Táxi, táaaaxi!!!” Já tinham visto alguma varina de calças? Nem em Alcântara, a Rosa Agulhas...! Ah, quase me esquecia, quando fui atingido pelo pescado sentia uma estranha tranquilidade, animado pela certeza de que "a mulher de sonho" em nada se assemelhava à minha varonil heroína. Para bem delas, para nosso bem, para bem da humanidade. Parabém, a ela! Parabéns, a todas elas!
Joshua M.
sexta-feira, 13 de janeiro de 2012
Sinceramente, quero que sofras. Sim, quero que sofras (intensamente). Quero que te contorças no chão de tanta angústia que te consome, quero que desesperes, quero que te julgues morrer aos poucos, quero que pese em ti todo o mal impingido e quero que sintas a lucidez fugir-te por entre os dedos das mãos já frias. Enxerga-te, diz-me o que vês. Conheço em ti um rosto velho e vazio, sem vida. Um rosto que não sabe sentir, não sabe chorar, não sabe ver, não sabe viver.
Sim, quero que sofras (profundamente) e que lamentes tudo o que foste, tudo o que és, tudo o que serás. Porque no fundo... No fundo tu bem sabes que vagueias por aí e invejas e roubas tudo o que não tens, tudo o que não és, e tudo o que és incapaz de ser.
Sinceramente, eu quero que sofras...
quinta-feira, 12 de janeiro de 2012
Desabafo
Estou exausta. Há pessoas que têm a capacidade de nos sugar a energia vital. São óptimas a tentar culpar os outros pela sua infelicidade, por não agirmos do modo que esperavam, por não correspondermos a determinados sentimentos. Há pessoas que nunca se sentem responsáveis pelo modo como vivem a vida. São os outros que as condicionam, que as fazem sentir miseráveis. Há pessoas que vestem a pele de vítimas e nunca são elas que estão mal, são sempre os outros que não percebem como são desgraçadas. Ando cansada destas pessoas, dos sentimentos mesquinhos, de dar por mim a sentir que talvez pudesse ter mais paciência, de, involuntariamente, sentir culpa por situações que nada têm a ver comigo. E sinto pena. E raiva por sentir pena. E sei que preciso de me afastar. Não se suplicam sentimentos. E também não se exigem.
Missanga
quarta-feira, 11 de janeiro de 2012
No 44 é assim
Lisboa.
Viagem no 44, até aos Cais do Sodré.
Desfocada, sim, mas o meu LG GS290 não dá para mais. E eu também não quero mais. Já a revi por diversas vezes (com som, sem som, a partir do meio, só o fim...) e consigo encontrar sempre elementos novos. Já para não dizer que isso me dá sempre novas perspectivas da viagem e dos locais. Desconfio que tanta fartura derive do esforço que eu faço.
A minha perdição é aquilo que, até onde a vista alcança, não aparenta qualquer interesse.
Porque pode não ter mesmo interesse nenhum.
Iolanda Bárria
terça-feira, 10 de janeiro de 2012
Palavras Versadas
SÉTIMO SALMO
Amor, que homílias unes e adunas
Por veredas da casa, eclesial,
Acidália pousada sobre as dunas
Ou nas águas do tálamo Ideal...
Amor, que és o almagre e sumaúma,
Amor, em tom cereja d'organdi,
Penso em Ti, na alvorada que ressuma
E à Noute, madrugada, penso em Ti.
Ericina do Eros, Citereia,
Divisa aqui o divo e o dilecto:
Que farta fonte serve uma sereia!!!
Que de mirto, em Arcano e Arquitecto!!!
Amor, em cujas aras eu sou crente,
Menina, que és Maria, ou que és matina,
Tu olha-me do nicho, sorridente,
E seja o Teu sinal a minha sina.
Paulo Brito e Abreu
domingo, 8 de janeiro de 2012
Provocatio
Out of focus
A grande dificuldade, o cabo mais difícil de dobrar, é aceitar que todo o significado do mundo fui eu que lho dei, e achando-me também a mim nesse ponto de vista único, acabei por perder a noção da sua causa, quebrando o elo que me permitiria voltar atrás e mudar a definição.
DuArte
sábado, 7 de janeiro de 2012
Crónica Benzodiazepina
Homens temporariamente sós
A vida não está fácil para os homens trintões. Tenho uma série de amigos que vivem sós, com existências intercaladas por encontros sexuais fugazes e relações que deixam mágoas e conduzem a um ateísmo amoroso de que não há memória. No outro dia um deles desabafou: o que raio querem as mulheres? Eu, que tenho sempre qualquer coisa a dizer, fiquei sem resposta. Nem as mulheres sabem o que querem. Essa é a verdade. Ou, pelo menos, nem sempre sabem o que querem. Umas vezes queremos umas coisas, outras vezes o contrário dessas... A única resposta cabal que ouvi nos últimos tempos foi somente esta: gosto de um homem que me faça rir todos os dias! Sinceramente não a compreendi... Mas isso fica para outra altura. Ontem disse a outro amigo (que acredita que um amor a sério nunca se repete e que a oportunidade dele já passou) uma coisa verdadeiramente estúpida: os homens não podem tratar as mulheres bem demais. Que grande parvoíce esta. Nem sei o que queria dizer com isto. Só sei que, mais cedo ou mais tarde, a maioria dos meus amigos trintões solitários vai acabar por casar com alguém que está à mão de preencher um vazio, compôr a casa, constituir família, etc., sem glória, sem paixão, sem um pingo de desilusão sequer... Aquela que sempre advém de um grande amor!
Ana Santiago
sexta-feira, 6 de janeiro de 2012
Vidas Vencidas
Para me vencer, passei por ser vulto moldado à imagem do velho mundo que inventaste para nós. Andei parado e tanso como um lapuz, andei incapaz de soltar a voz cativa. Mas, como sempre estive preso à rebeldia das revoluções, fui lambendo as feridas desertas susurrando a mim mesmo que um dia teria de acontecer um dia outro. Relembro agora o teu sacrário de dogmas sentimentais revisto e banalizado que me condenava nos nossos melhores dias de tédio. As tuas orações a um idealizado imobilismo passional davam-me a fé de acreditar que existia além outra vida, onde me bastaria viver a recordação para lá de tudo o que fomos, sentindo apenas o látego da consciência a fustigar-me a memória.
Não, nós não estávamos sós, nunca estivemos sós. A vida acontecia num palco à escala global de um salão: havia cadeiras vazias, havia cadeiras ocupadas por corpos ausentes e presentes, havia espectadores ensaiando uma conversação ao canto da sala. Representavam, displicentemente sentados em poltronas de atalaia, fumando uma pausa de conversa. Eram gente perdida na circunstância de estar apenas a ver passar a vida dos outros, só para se sentirem felizes com o menos-mal que eles próprios sofrem quando vêem alguém sofrer outro tanto ou mais. Às vezes, sentíamos pedaços de olhares, como cabelos intrometidos entre os beijos que emprestávamos ao carinho prometido e nunca incondicionalmente dado.
Afinal não estávamos afastados, estávamos ambos sós, lado a lado, seguíamos juntos e muito separados por vidas nada convergentes, por vivências muito paralelas. Sempre ao lado um do outro, sempre agarrados à esperança de não nos voltarmos a descobrir num qualquer cruzamento da estrada depois de nos perdermos do caminho um do outro.
Joshua M.
quinta-feira, 5 de janeiro de 2012
Ao cair do pudor
O comentário da sua amiga não lhe saía da cabeça. Nessa noite não conseguiu pregar olho. Faltava-lhe muito pouco tempo para acabar a universidade com excelentes notas e sem perspectiva de emprego. Queria sair da casa dos pais e não via como. De madrugada desistiu do sono e levantou-se. Deteve-se em frente ao espelho. Era alta, bonita e dona de um corpo em excelente forma. Não seria uma top model mas sabia que os homens se viravam à sua passagem. E sabia seduzir. Gostava de seduzir. Não tinha namorado. Ia somando aventuras de curta duração umas atrás das outras. Gostava de variar. Ter sempre o mesmo namorado parecia-lhe tremendamente enfadonho. Sabia perfeitamente que, na universidade e entre o seu grupo de amigos/conhecidos, tinha fama de “puta”. Não a incomodava. Gostava de sexo, muito. E gostava de mudar de parceiro cada vez que lhe apetecia. Mas agora aquele comentário da sua amiga tinha-lhe tirado o sossego: “Se eu gostasse tanto de sexo como tu fazia render a coisa.”
Alguns anos tinham passado desde essa noite. E agora, no percurso de táxi até ao aeroporto, voltara a lembrar-se da sua amiga e daquela frase. Não podia, contudo, deter-se em recordações. O táxi parou. Ela apeou-se, acomodou-se no seu caro casaco de peles e foi ao encontro do cliente com quem iria numa viagem de negócios.
Missanga
Subscrever:
Mensagens (Atom)





























