sexta-feira, 23 de novembro de 2012

PALAVRA EXPERIMENTAL (V)


euromilhões

precisamente às vinte horas e trinta e um minutos de sexta feira o planeta inteiro assiste placidamente à formidável extracção do euromilhões enquanto é invadido por maçãs adúlteras assadas no corno e por tangerinas que se declaram doces, muito mais doces... do que aquilo que as más-línguas apregoam por pura maldade adstringente sensivelmente a essa hora uma horda de pirralhos clinicamente obesos e estereotipadamente ranhosos renuncia ao direito fundamental de comer fruta extraterrestre após o jantar abandonando a mesa sem negociações para se dedicar convulsivamente à extracção de macacos não-hidráulicos do nariz metido onde não foi chamado também a essa hora fatídica a parelha de amigos de infância e do alheio carlinhos «flecha» e alípio «dedos leves» dedica fervorosa e carinhosa a mente ao aperfeiçoamento da extracção de identidade aos transeuntes incautos de ruas escuras recorrendo ao método artesanal de esticão que viram aplicar na tv por uma certa classe média-baixa e baixa de políticos a essa mesma hora um dentista efectua a extracção do último dente do dia mas que felizmente não é o último da paciente uma polaca bacteriana e fúngica que afirma que gosta muito de cá estar enquanto na maternidade está praticamente no fim a extracção com fórceps de uma criança antes do tempo ao útero esgotado da mãe depois do tempo que já antes incorreu noutra extracção ainda nessa mesmíssima hora piadas e risos a circulam no afã esterilizado dos corredores da urgência do hospital provocados pelo gás saboroso e tóxico de uma vítrea garrafa de coca-cola marca afamada e conspícua que insolitamente quis deixar a sua marca no ânus de mais um cliente satisfeito e cuja extracção já não tarda nessa altura numa velha mina do chile um humilde mineiro do chile há 11 meses submerso na extracção do minério do chile e desde há um mês soterrado pela terra do chile acaba de ser salvo alvo de extracção da mina reencontra a mulher que traz nos braços um fruto de extracção inexplicável ou mais improvável que a chave do euromilhões olha para o céu sobranceiro e agradece a deus por já nem saber de que terra é ao mesmo tempo termina noutro canal de tv o apreciado episódio diário da série do costumeiro jogo de sorte e azar só ao alcance de testas de ferro peles de galinha e nervos de aço em que um adivinho aparvalhado de fato e gravata e pó-de-arroz na desgraça se dedica à extracção de bolas de um saco incolor onde estão inscritas notícias que canta e que quer sejam quer não sejam nos retiram prémios à mesma hora tomo café mexo com a colher e tomo consciência de que nunca acertei em nada, verdadeiramente, que fosse digno de extracção nem alguma vez me favoreceram os jogos e que do lado de fora da sorte a minha verdade é sobretudo dedos a quererem tocar dentro desde que a minha mãe me disse agarra no coração pelas asas e vai à tua vida


Renato Filipe Cardoso

quinta-feira, 22 de novembro de 2012


Caminhante, tu és o caminho! 

Depois de morrer o homem ergueu-se do cadáver e caminhou direito ao imo de si próprio. Titubeou inicialmente como se aprendesse o controlo dos músculos mas traçou sem receios, com a segurança de um cartógrafo judeu, os seus passos objectivos. Afinal a vida que acabara de perder não era mais que uma vida. Ela estava lá ao fundo. Lá junto à luz que o guiava e lhe alimentava a esperança e o esforço. Era preciso seguir o trilho sinuoso e imprevisível do labirinto. O enigma do caminho estava na dúvida que animava os seus próprios actos. Ele sabia que não havia outra maneira de continuar vivendo: teria de morrer e perder tudo para poder ganhar a eternidade. Ele teria que tentar. Teria que vencer tentando a sua paz pútrida. Teria de fazer correr pelo corpo inteiro todo o sangue, sem lutar contra o destino traçado pelas as artérias da alma.

Só ao caminhar se libertaria das cadeias da morte que a vida lhe garante. Só o cumprir desse caminho lhe aportaria a alegria redentora de um viver urgente e intenso. Só o movimento lhe fazia abrir o coração. Por força das circunstâncias executava passos rápidos, acompanhados por sístoles abertas e diástoles com pressa de viver. Só a corrida lhe aportava a paz completa de uma libertação. As correntes que arrastava, ferros pesados que lhe empecilhavam os passos, iam caindo desfeitas em ferralha. Iam ficando deixadas por terra como marcas indeléveis de um árduo trajecto cumprido em busca da uma vida. E para se libertar caminhou sem sentido até que deixou de se sentir no corpo e a sua alma se iluminou. Ao despertar, uma pomba branca e outra negra voavam por entre a névoa dos seus sonhos, ensinavam-lhe com palavras novas um mundo renascido. 


Joshua Magellan

quarta-feira, 21 de novembro de 2012


Sonhou demais...

Sonhou demais. Queria que fosse seu. Imaginou os dois juntos. Ambicionou entregas, trocas, partilhas, fidelidades... Sabe que teria feito dele um ser seguro, feliz e completo porque ela sabe amar desmesuradamente. Chegou até a imaginar um futuro. Sonhou demais... e com a sua ajuda. A ele, faltou-lhe honestidade. Não foi por mal... É superior a ele próprio ser inverdadeiro mas até isso lhe perdoava porque lhe perdoou tudo. Adeus, meu amor... Irá sempre recordá-lo com carinho porque sabe que não lhe deseja qualquer mal. E agora chora por si própria, pela perda. Chora por ele, por não aceitar o que a vida por vezes nos oferece uma vez só: um amor verdadeiro.


Carmo Miranda Machado

terça-feira, 20 de novembro de 2012

Palavras Versadas


Um cabide nas nuvens

Está um cabide na nossa nuvem.
pendura as tuas lutas
que eu canto nu entre os ouvidos dos joelhos da cidade
que eu canto nu a quem respira o perder
na solidão imensa do ser igual.
queria dizer-te porém que sou quem digo à lua
onde se pode lavar.

- sou o cheiro que nunca se sentou a teu lado
a encosta pálida que nunca escutaste
uma espécie de vinho extra - sensorial
sou o mago das coisas simples
o maestro das florestas quando choram

Agora que já sabes podes adoecer os sóis.


Miguel Barroso

domingo, 18 de novembro de 2012

Provocatio


Culinária de voo livre

A oratória de certas gaivotas impressiona. uma espécie de wikipédia ruidosa, ruinosa, ruim. peço um rim e faço arroz de pombo? 


Miguel Barroso


sábado, 17 de novembro de 2012

Crónica Benzodiazepina


Péssimos amantes

No fundo, e pensando bem, à distância de algumas boas doses de lágrimas, nós mulheres, somos as verdadeiras e únicas culpadas do sofrimento que os homens nos infligem. Porque, se o mundo está tão cheio de péssimos amantes, a culpa é nossa, é da imensidão de mulheres porque, na maioria das vezes, não nos atrevemos a dizer-lhes onde é que eles falham e que o sexo com eles é uma verdadeira merda, e que já tivemos amantes fantásticos juntos dos quais eles não têm absolutamente valor nenhum. Mas não... Somos peritas em enganá-los, iludi-los, fazendo-os acreditar que, com um pénis vergonhosamente ridículo, são os maiores amantes do planeta. Estúpidas... estúpidas e grandes cabras, que nós somos.


Carmo Miranda Machado


sexta-feira, 16 de novembro de 2012

PALAVRA EXPERIMENTAL (IV)


MORTE NUMA LISBOA REVISITADA

A vida, é certo, / não vale a sua perda, /
mas os jovens pensam que vale, / E nós éramos jovens.

A. E. Housman

se o amor é um poeta obscuro, é a sabedoria de uma equação mal resolvida, pouco importa para nós; nós que passamos para depois do lucro divino da mão docemente sinistra, maneira de arrombar o espírito familiarmente anunciado com a alegria de agarrar o medo e tomá-lo voluntariamente como comprimido, como morte pensada, como avistamento próprio na retórica de uma cidade que soluça às portas do seu dinheiro.

e muito para além de tudo está o nosso sonho em voz alta entre febre e frio, o sonho eléctrico de uma lisboa mal revisitada, passeio para depois da semi-eficácia da morte.

e nós ainda respiramos. respiramos como se toda a respiração fosse uma pergunta. respiramos como se nos absorvêssemos.


Sylvia Beirute

quinta-feira, 15 de novembro de 2012



Vida dupla

Anota na agenda, vai fazer. Mais atroz, ainda: pensa, lima as ideias, passa para a agenda, vai fazer. Volta à agenda e risca, já está feito. Ai que me esqueci de apontar na agenda, volta à agenda, alinhava as tarefas, vai fazer.... Amanhã há mais...

Mas que raio de vida dupla é esta? E que perda de tempo e duplicação de tarefas! Quantas horas são despendidas, por esse mundo civilizado, diariamente, a apontar na agenda aquilo que se vai fazer e dizer de seguida? (ou nem uma coisa nem outra, que ainda é mais grave?)


Iolanda Bárria

quarta-feira, 14 de novembro de 2012



O grande escape da mente

Sonhos são sonhos. Sonhos alimentam outros sonhos. Também sabemos onde todos acabam. Diz-se que o sonho comanda a vida, mas sabe-se bem para onde os sonhos nos mandam. É da sabedoria do povo que a morte é a única certeza de quem nasce. Corre-se para longe desse destino, inventando razões e mais razões. Tenta-se esquecê-lo de todas as maneiras e feitios. Mas, vida e morte garantem-se e garantem o sonho que as anima. É por isso que ninguém abre mão de morrer. Sonha-se que se morre para poder alimentar o sonho de que se vive.
Pela mesma lógica da ilusão dualista, quando adormecemos, está-nos destinado que um dia também haveremos de acordar. E é precisamente nessa brecha estreita entre o adormecer e o despertar que se encontram os sonhos, a vida como a conhecemos. A função dos sonhos é manter-nos a dormir. Os sonhos são uma espécie de compromisso conciliador. Eles temperam os desejos mais absurdos, a culpa e os medos mais profundos, adocicando-os, formatando-os nos limites do aceitável, impedindo-nos de despertar todos suados, aos gritos, por causa das ideias loucas a que nos permitimos.
Sonha-se para fugir à realidade dos sonhos.


DuArte

terça-feira, 13 de novembro de 2012

Palavras Versadas


Não é nada disso

A poesia não é nada disso a poesia
é o corpo em maresia
é o fogo que arde e pode queimar
em tal vez o amor
a poesia é tudo isto que já foi visto
e o que além está por ver a poesia
é o filosofo com letras de fanfarrão
a fanfarronice
a querer ser uma lição de filosofia

a poesia é tudo isto e muito mais
contém letras fortes e tretas de alquimia.

Vão ler o que diz a sabedoria!


Joshua Magellan

domingo, 11 de novembro de 2012

sábado, 10 de novembro de 2012

Crónica Benzodiazepina


Hoje acordei com o sangue a jorrar na guelra!

Desde muito miúda que me sinto muito orgulhosa do meu país! De ser portuguesa!
Recordo-me como se fosse hoje, o dia em que na escola me disseram que Portugal tinha sido o 1º país a abolir a pena de morte!
Senti-me tão Grande, tão Grande! Que orgulho que eu senti no meu país!
Perdoem-me os mais aventureiros! Mas confesso que sempre me orgulhei muito mais de pertencer a um país que foi o primeiro a abolir a pena de morte, do que pertencer ao país dos grandes exploradores!
O país que teve a grandeza de abolir a pena de morte é um país de Almas Grandes!
Um país que derruba um regime fascista com uma revolução como a nossa é um Grande País!
Tento sempre evitar utilizar palavras ofensivas ou menos correctas para falar seja de quem for!
Mas chega! Chega de permanecermos atentos às graças e às desgraças e nada fazermos!
Já não existe nem delicadeza nem educação, nem porra nenhuma, que aguente o que se está a passar neste país! No meu país! No nosso país! No primeiro país a abolir a pena de morte!
Amiúde ouvimos as mais variadas dissertações sobre a origem da crise!
E hoje acordo a pensar em que é que esta cambada de (des)governantes incompetentes e ignorantes do alto da sua arrogância estão a transformar o meu país?
Num bordel de diversões?
Sim! Nunca na minha vida pensei voltar a ver a censura a espreitar as nossas conversas, os meios de comunicação, as nossas atitudes!
Eu que desde miúda sempre me orgulhei tanto dos nossos cravos, não suporto ver novamente o povo a ser censurado pelo que fala, pelas manifestações que desenvolve!
Porque será que tenho a sensação que estas medidas do governo são uma injecção letal sem agulha?
Porque será que agora temos como porta-voz do cinismo, da desfaçatez e da mediocridade dos nossos políticos o Sr. Fernando Ulrich?
Porque será que o povo está com tanto medo de se manifestar?
O que é que nos escondem?
Querem transformar-nos em escravos!
Como?
Criando estas medidas que destroem as nossas vidas! Que destroem as nossas esperanças!
Assusta-me pensar no que vai acontecer em Janeiro de 2013 se nada for feito!
Estamos a ser governados por pessoas paranóicas e desgovernadas!
Alguém me consegue explicar o que se passa?
Vamos lutar! Não podemos deixar que os nossos ideais desapareçam!
Os nossos filhos têm que se orgulhar de nós!
Não podemos permitir que nos roubem novamente os nossos filhos! Sim! Desta vez não é para as colónias! Mas é um roubo na mesma!
Um roubo na esperança; um roubo nos vínculos; um roubo na afectividade; na partilha; no mimo; nos momentos de afecto!

 
Maria Paula Elvas

sexta-feira, 9 de novembro de 2012

PALAVRA EXPERIMENTAL (III)


Deixa-me pintar a Estação

Deixa-me pintar a Estação da cor que tu mais gostas e saltar de uma palavra para a outra como se não houvesse gravidade e dá-me um guarda-chuva para flutuar quando tiver de cair torna-te temerária e deixa-me torcer a realidade como quem grita e murmura por mais mas dá-me a liberdade para inverter o curso de um rio qualquer um qualquer mesmo mesmo aquele que menos te interessar quero rebentar como um fogo de artifício a preto e branco que era o que eu sempre devia ter feito rebentar como um fogo de artifício a preto e branco com um estrondo de outra dimensão e sussurrar muito baixo eu não quero implodir quero explodir quero explodir quero explodir para depois desatar a correr a correr a correr a correr a correr até os músculos estalarem e deixa-me fechar os olhos para ver mais claro do que sempre como naquele dia em que nos desvendámos todos os dias me deito sobre mim e todos as noites relembro Outonos daqueles cheios de nevoeiro e de chamas em estalactites a perfurarem os sentidos os mesmo que me obrigam a encenar uma falsa calma enquanto danço de testa franzida à espera de um milagre qualquer e todas as noites adormeço apreensivo ao som do bater dos relógios da minha mente deixa-me agora mergulhar numa palavra escrita a tinta permanente e borrar o papiro chinês como naquele filme sem argumento e sem palavra e sem imagem que é a maior lição da minha vida não pensar em argumentos palavras e imagens e apenas correr até ficar cansado e beber um copo de martini para matar a sede e continuar a correr a correr a correr a correr de um lado para o outro para baixo da cama onde há astros desalinhados e por mais que corra não sei se sou capaz só quero um pouco de paz


Bruno Vilão

quinta-feira, 8 de novembro de 2012


Correr ou não correr...

Temos seguros momentos em que tudo flui, corremos pela vida como vento forte vindo do Norte. Noutros, um nada inseguros, somos simplesmente brisa a passar morna e lenta, a correr breve e a cair onde calha, onde não cair, a morrer nos braços das árvores. Noutros ainda, somos tempestade, furor do céu em terra, ascensor em força adejando sobre todas as barreiras direito ao topo do mundo. Somos isto e aquilo e mais qualquer coisa sobre a qual nem sequer sabemos. Ou, andamos no vamos ou não vamos. Ou, não nos controlamos completamente descontrolados e nos estatelamos no disparate, por vezes. No desperdício, outras.
Apenas o tempo. Apenas o astro exercendo o mando do que somos. Sempre o podíamos ter sido. Sempre o podíamos ter feito. E não fazermos nada (do concreto inadiável): porque temos de saber de cor todas aquelas celestiais criaturas de asas e vôos irregulares; porque temos de apagar algum fogo fátuo no purgatório; porque temos de telefonar a pagar no destinatário para o tal inferno. É verticalmente, nesse interim, que cai sobre nós a hora pesada e sobrepesada – e não nos conseguimos mexer. De tal forma assim, que ficamos inermes, sem forças para lutas vitais. Sem pinga nem ensejo para o mais ténue golpe de asa. Catatónicos, no limte.
Tudo e sempre com todos os anjos mais rebeldes esbracejando ditames a nosso lado. Enquanto nós resistimos religiosamente prostrados à espera que o mundo resolva absolver-nos destes nossos pecados cruciais e nos faça um futuro. 


Joshua Magellan

quarta-feira, 7 de novembro de 2012


Tristes tempos

A tristeza duradoura é um veneno poderoso. De início, mal se nota. Depois vai-se entranhando na pele e na alma. O olhar perde a chama que temos quando queremos beber a vida de um trago, quando temos esperança, quando amamos, quando somos meninos e descobrimos o mundo. A tristeza chega sempre e todos devemos ter um tempo para vivê-la. Mas nunca a poderemos deixar instalar-se definitivamente, nunca poderemos deixar que nos roube a chama do olhar e o brilho da alma. Por vezes, recuperá-la é extremamente difícil. Mas é, apesar disso, essencial para vivermos além da simples existência.
Hoje vive-se a mil à hora. Acontece tudo demasiado depressa. É o tudo ou nada. Já não há espaço para os sentimentos crescerem naturalmente. É tudo desmesurado. O bom e o mau. Há princípios e fins e pelo meio quase nada, porque nunca há tempo para o que fica entre os dois acontecimentos.


Missanga

terça-feira, 6 de novembro de 2012

Palavras Versadas


ORAÇÃO DE GRATIDÃO

há toda uma gratidão em aceitar o universo.
todas as pequenas coisas formam uma grande coisa.
há um parentesco desconhecido entre todo o conhecido.
o meu mundo tem ligação directa aos deuses.
há uma força da natureza que age na raiz das constelações.
há um erro que me pensa a fim de me construir.
há uma maneira de aproximar e que me dá todas as matérias.
e todas as matérias são feitas de paz, luz e bons espíritos.
há um compromisso e uma responsabilidade de mim para mim.
o meu dia é a minha caneta, o meu papel.
e no final do dia o universo requer um pensamento
que absorve palavras absolutamente inteligentes
e que o resumem na noite brilhante.
esse pensamento é a devolução do dia em forma
de energia para o sonho seguinte, o dia seguinte,
um novo passo, um novo começo.
há uma renovação constante em mim
na maneira de me dar e de me devolver. 


Sylvia Beirute

domingo, 4 de novembro de 2012

Provocatio


soldado desconhecido

tenho uma pena de morte do desconhecido:
um soldado condenado a herói neste poema
morreu de heroicidade sem nunca ter existido.


Joshua Magellan

sábado, 3 de novembro de 2012

Crónica Benzodiazepina

 

O RISO DE DEUS 

Talvez a principal aventura a ser vivida seja a da descoberta. A descoberta diária de nós próprios e de nós próprios nos outros, que isto de descobrirmos os outros não me convence. Creio que ninguém se deixa descobrir/conhecer totalmente, pela simples razão de que não me parece que nesta azáfama em que vivemos, alguém tenha tido já tempo para se conhecer a si próprio.
Descobri Alçada Baptista. Descobri-o, na medida em que me reflicto nas suas palavras. E dos muitos autores que vou associando à minha lista, este transformou-se na minha última grande paixão. Experimentem “O Riso de Deus”!


Carmo Miranda Machado
 

sexta-feira, 2 de novembro de 2012

PALAVRA EXPERIMENTAL (II)


O caso que não vou escrever

Não vou escrever agora, tomo a liberdade de quererem ouvir o psicadelismo do som e do senhor que os músicos gravaram na rua:) - ouvir Alto.

caso seja possviel um dislxecico pstoar:

Crime passional: estripo a teaser.

Sou um anestesista simples. só uso medronho.

Para degustarem do nosso primeiro filho, eu e a noiva decidimos que os direitos de autor prevalecem sobre a utilização comercial do mesmo

O véu da noiva será translúcido e inodoro, mas feito de gelado de chocolate para eu a poder comer antes de dizer que sim, que a comerei para o resto da vida

Eu e a noiva, durante o copo de vinho... o copo de água, poderemos sortear entre os convidados a saliva dos nossos beijos.

A noiva não vai de branco, vai de rato óptico

Rockets Fall on Rocket Falls. E uns biombos esquartejam as esquinas puídas do teu corpo. mitos e joelhos nadam dos tectos e a mesa que roda lambe-te as sombras. há um hiato na digestão de deus. E de amor embutido nos mamilos perguntas se é tempo.

Um túmulo expectante feito de cinza e osso enevoa perfeições. NASA de um relógio qualquer. Fora, fumo uma cigarra, cheio de formigueiro.

entre as zonas erógenas do tear do ronronismo....................


Miguel Barroso

quinta-feira, 1 de novembro de 2012



Amor 

Não é fácil conservar a frescura do basílico, mas Júlia consegue-o, como ninguém. Usa um gesto treinado e preciso para sacudir os raminhos, um a um. Separadas delicadamente as folhas, liberta-se o aroma...
Não lhes toca! Nem cheira ostensivamente, como muitos fazem.
O basílico é da família do manjerico. Ambos vivem sob ameaça de morte súbita!

(Júlia sabe muito bem que o basílico não sabe a nada)


Iolanda Bárria

quarta-feira, 31 de outubro de 2012


Na paz dos anjos

E dito isto o anjo desce à Terra e pergunta-me porque o chamei.
 - Quero ser feliz. Quero ter paz.
Equilibrando-se a custo no peitoril da varanda, o anjo estende-me uma asa.
 - Para onde me levas? – Pergunto.
 - Para onde serás feliz.
 - Mas eu quero ser feliz aqui.
Abanado pela resposta, o anjo recua a asa para se reequilibrar ou então para reconsiderar o convite.
 - Como queres ser feliz neste mundo, quando foi este mundo que te trouxe a infelicidade e te fez chamar por mim?
 - Não sei, diz-me tu. Os génios da lâmpada, ao menos, não fazem perguntas. Concedem desejos.
 - Pois não fazem. Mas no último desejo voltam a tirar tudo e é apenas isso que acontece no teu mundo. Vives e morres para poder de novo tentar, perpetuando o ciclo da impossibilidade. O teu génio vende ilusões; ilusões que não resistem ao tempo; outra ilusão. Pedes o impossível e ele oferece-te o que não existe. Faz-te correr de slogan em slogan até ao dia em que descobres o engano. O que ele te oferece são fumos coloridos que só servem para esconder a verdade, essa sim, a tua realidade. É isso que queres? Continuar a tentar?
 - Eu só quero ser feliz.
Este corpo de luz e asas brilhantes a esconderem o Sol por trás, salta da varanda para o chão da sala para me abraçar.
 - E os outros? Os outros tal como tu, nunca estiveram aqui. Esperam que despertes, para também eles poderem despertar.
 - Tens a certeza?
 - Para ter a certeza, era preciso que antes existissem dúvidas.
Muito fixe esta resposta. Tão fixe que me deixei ir. 


DuArte

terça-feira, 30 de outubro de 2012

Palavras Versadas


poema do filho

quero dizer-te como é doce o amor
porque há palavras que rangem como um degrau
e se adivinham no peito mesmo antes de as pisarmos

quero dar-te a ventura de um signo ascendente
guardando apenas a contemplação velada da descoberta
quando nas tuas ondas houver terra nova

onde cairão os meus dobrões de ouro
ao desabar o entardecer da maré no galeão
com a vida sentada à proa, aguardando o naufrágio?

quero acreditar que te darei ainda um derradeiro beijo
em apneia, quero acreditar seres tu num mergulho
e que, doravante, serei eu o teu tesouro
ocultando o meu orgulho no brilho coralífero


Renato Filipe Cardoso

domingo, 28 de outubro de 2012

Provocatio


SEXO?

E foi assim que ele lhe disse que tinha uma namorada, que até gostava dela, mas que tinha saudades do sexo que faziam juntos e que era boa ideia voltarem a encontrar-se...


Carmo Miranda Machado

sábado, 27 de outubro de 2012

Crónica Benzodiazepina


Sem título

Tenho um problema com os títulos. Um problema abrangente porque inclui deste títulos académicos a títulos de patentes militares e, o que mais me desagrada, os títulos a dar aos textos que escrevo. Se professores, doutores, brigadeiros e coronéis não me chateiam nada, já o mesmo não posso dizer do vazio que se instala no meu cérebro cada vez que preciso de nomear um texto. Logo eu, que sou capaz de comprar um livro só porque o nome me seduz. O pior é que em inglês me surge imediatamente o título perfeito. São títulos na língua de Shakespeare, é certo, mas devem ler-se com acento americano, claro. Anda uma criatura há anos a defender as culturas lusófonas e a lusofonia para depois ser assim, despudoradamente, traída por títulos pouco cooperantes.


Missanga

sexta-feira, 26 de outubro de 2012

PALAVRA EXPERIMENTAL (I)


não sejas criança! correr para quê, se podes perceber?

desatar a correr pelo poema fora sem tentar perceber onde começa e onde termina cada estrofe ou qual é a hora de terminar o que não tem meio nem conteúdo ou final feliz em que as vizinhas choram no fim do casamento agarradas ao avental de trazer por casa de passe “éle-xis cento e vinte e três” que serve para a carris e para todas as carruagens da "cê-pê" se não houver metropolitano serve também para o doutor de toga e cambão e para o matemático aplicado e para o aldrabão encartado ou mesmo para um retornado ou um senhor enigmático ou um imigrante ilegal (vindo das índias ou das áfricas) negro ou mulato ou chinês ou jogador de futebol ou um qualquer artista francês ou uma troika instalada de urinol com exibições horárias quotidianas no parque eduardo sétimo o inglês à espera da visita da catherine de novo que está agora no estrangeiro a negociar submersíveis e só volta para mamar à conta do contribuinte trabalhador que não passa de um sem nada desregrado com mulher de esquina e prole de ranhosos que se mata a trabalhar para comprar um "tê-zero" com uma letra de câmbio sacada ao banco de sangue frio no cemitério dos prazeres onde morre acanhado por não se poder esticar senão mete os pés na tumba do vizinho ou as visitas do dia de finados passam por uma vida de morte a pisar-lhe as extremidades das ossadas tibio-társicas quando vão levar flores aos infiéis defuntos que se reúnem à noite em amena cavaqueira em redor de um fogo fátuo onde assam chouriços caseiros e bebem vinho e cantam músicas do padre borga e põem a mão na mão do senhor e na mão uns dos outros e noutros sítios assinalados como proibidos pelos desígnios do tal senhor segundo o qual só devem ser usados depois de comer uma maçã pecaminosa e de a serpente ter fornecido os respectivos preservativos e toalhas com que se protegerem e limparem de pecados menos originais e assim poderem chegar à altura do céu quando este desce à cota de terreno mais baixa para ficar na horizontal de estar com ganas de fazer amor com estrelas decadentes toda a noite a ver nascer a lua e o sol e a fazer um poema que termina com o amor feito ad hoc no clímax quando este andava perdido num mar de rimas e de estrofes sem saber como e para onde redigir sem parar até ao fim do fundo de um mundo intestino lá no limiar da realidade virtual em que se avista a linha da meta-poesia onde finalmente se solta uma criança radioactiva dentro de nós e só nos apetece desatar a correr pela humidade do poema afora sem tentar perceber...


Joshua Magellan

quinta-feira, 25 de outubro de 2012


Confundir o amor

Por vezes as pessoas só necessitam de se sentir amadas, de sentir que existe alguém sempre ali a cuidar delas. E quando se sentem cuidadas confundem isso com amor. Não amam ninguém, amam apenas o que essa pessoa lhes proporciona. Amam-se a si mesmas e amam sentirem-se amadas. E andam nisto uma vida inteira, a trocar as voltas aos amores, a confundir sentimentos dispersos. E a culpa nunca é delas. A culpa é toda do amor, do amor que se deixa confundir assim.


Joana Santos

quarta-feira, 24 de outubro de 2012

  
Esquadros de por-do-sol

Quando me disse a novidade fomos juntos provar o sorvete, pedi uma bola de brownie, você quis a de frutas vermelhas. Sentamos no banco e vimos o nascer do sol, após longo tempo conversando sobre sorvetes, bolos, chicletes e sonoridades. O dia começou calmo, as folhas inertes e a brisa ecoando o infinito. Você perguntou:
- Não acha que a cidade está silenciosa?
- Sim, uma sensação de calma.
- Não seria de paz?
- Não, de calma!
- Calma não é um estado?
- Só estou sentindo, não sei.
- O sorvete estava gostoso, e agora, essa brisa morna.
- Sim.
- Você disse que não gostava de doce.
- Às vezes tenho desejos, de alguns, são poucos, os menos açucarados.
- Escutou a música daquele carro com o som alto?
- Péssima.
- Ele diminuiu a velocidade quando passou por você.
- Deixa p'ra lá!
- Sabe, cidade ocupa anseios, são todas iguais por dentro.
- Por dentro?!
- Quero dizer que, por mais organizada que sejam, são cidades sempre em desenvolvimento, assim o querem, todas elas.
- Você se expressa de uma maneira que não entendo.
- Como?
- Não entendo algumas coisas que você fala!
- Deixa p'ra lá então!
- Mas eu quero entender.
- Deixa.
- Deixa o quê?
- Esquece.
- Como?
- Olhe bem, está vendo aquele quadro?
- Qual?
- À sua frente, defronte, em frente, ao longe.
...
- É o infinito!


Manuela Barreto (Brasil)

terça-feira, 23 de outubro de 2012

Palavras Versadas


dentro de nós

sei que algures dentro de nós existe uma biblioteca
em prateleiras de mel que escorrem para quem amamos
e de dentro das sedas que lambem os livros respiras tu
em eternos sopros de dádiva e saber
em cascos húmidos de humanidade

sei que algures dentro de nós existe uma biblioteca
com livros livres de lombadas e paginação
perto das memórias intemporais do amor
em que se cedem cópulas alquímicas e misteriosas

sei que algures dentro de nós existe uma biblioteca
em que se a cuidas, casa-alma, dita-la para mim
e o graal surge, em forma de beijo
imponente, cristalino, honesto e unicelular


Miguel Barroso


domingo, 21 de outubro de 2012

Provocatio


A Memória

Há momentos e pessoas e lugares que nos marcam para sempre. E há momentos e pessoas e lugares de onde apetece fugir. Penso que é nesta triagem que reside a nossa capacidade de avançar. Como escreve Alçada Baptista, em "O Riso de Deus":

"A gente só deve guardar na memória o essencial, que o resto faz parte do peso do mundo."


Carmo Miranda Machado


sábado, 20 de outubro de 2012

Crónica Benzodiazepina


mer, fo e c...

Não consigo um bom relacionamento com palavrões. Na minha boca uma vulgar e singela  mer  fica grosseira, até parece um desenvergonhado fo ou um avassalador  c que, a meu ver, é o supra sumo da batata de todos os palavrões. Tenho enorme dificuldade  em dizer c até quando estou sozinha, como agora. É que nem o consigo grafar, sai-me diferente do que tenho na cabeça, sinto-o excessivo,uma agressão, uma guerra mundial.
Conheço pessoas que usam e abusam de palavrões e aquilo flui, até com graciosidade como acontece com a Vi, toda a gente acha normal e no fim da conversa ninguém se lembra que ela disse uns valentes. Rio-me muito com isto.  Já em mim, toda a gente repara, aterram uns segundos de silêncio quando digo mer, que é o máximo que digo.  Por mais vontade que tenha de os soltar, parecem tirados a ferros, contra natura até e isso dá nas vistas, incomoda quem ouve e quem diz.
No dia a dia das conversas mundanas os palavrões abundam, mas são murchos, pobres em intenção e sentido, que é como são usados na maior parte das vezes. 
Entre os palavrões mais vulgares, fo é, naturalmente, o menos interessante, e não é por ser grosseiro, mas porque não inspira grande coisa, é um palavrão muito massacrado e gasto de tão usado e sem motivo. Metem-no pelo meio das outras palavras, vá-se lá saber porquê! Isto não é bom para a reputação do fo , porque o seu uso indistinto suja a língua de uns e os ouvidos de outros, pouco mais do que isso. Bem diferente é a sua música quando bem contextualizado: " -que se fo as contas da Zon e da EDP e das Águas e do seguro do carro e raio que os parta".  Ganha logo outra vida!
Já mer, embora corrente marca a sua presença marota e, sem parecer, até diz muito do que se quer dizer sem querer. Mesmo quando aparece ligeira, despercebida e sem maldades, que é o que acontece na maior parte das ocorrências. Todo o povo aprecia palavrões e vice versa, mas o mais acarinhado é mer: do mais novo, ao mais velho, do instruído ou ignorante, rico ou remediado, ninguém lhe escapa.
O mais genuíno de todos os palavrões é c. Nenhuma camuflagem lhe serve. Tenho pena quando as pessoas o utilizam em vão, por exemplo: - "estava p'rali a falar e o c ...",  é desnecessário, cai em saco roto, apesar do rasto que deixa. Um rasto áspero, às vezes amargo!
Quando devidamente utilizado c tem uma força brutal, eu até estremeço quando ouço, fico embaraçada, - ouvi bem? disse mesmo c? é preciso coragem! C nunca é totalmente inócuo. Isso explica bastante do seu poder.
A mim, incomoda-me sempre, mas nem por isso no sentido negativo, é um misto de desagrado e enorme respeito. À entrada do metro dos Restauradores grafitaram umas coisas, entre as quais está isto: "Austeridade o c". É um grito poderoso, é aquilo mesmo e não é outra coisa. Estava a tentar explicar isso lá no trabalho, mas não o consigo reproduzir... Isto explica muito da sua força! 


Iolanda Bárria