sábado, 8 de setembro de 2012

Crónica Benzodiazepina


Patchwork

A minha vida - se calhar como todas as vidas - é feita de retalhos, um patchwork nem sempre perfeito mas repleto de momentos que certamente me dão muitas razões para sorrir.
Pequenos almoços de nan e laci em terras da Índia, as ruelas de Udaipur atravessadas por elefantes, as cores e cheiros de Jaipur, o mistério do Ganges em Varanasi, o Outono em Londres, deambular pelos mercados de Portobello e Camdem, percorrer as ruas de Oxford, entrar nas suas muitas livrarias, ver teatro em Stratford-Upon-Avon, perder-me em Nova Iorque, ver nevar no Central park, horas perdidas em Manhattan, o fim do ano no Hogmanay de Edimburgo com muitos kilts à minha volta e onde a tradição ainda é o que era (nada por debaixo dos kilts), as danças índias na Cidade do México, o sol do Olodum em São Salvador da Baía, a beleza estonteante do Rio de Janeiro, as pontes de Praga, os bares e música cigana de Buda e de Peste, os bombons de chocolate Mozart de Viena de Aústria, a música de Salzburg, as gentes de Cuba e os seus sorrisos, um café na Bodeguita del Medio em Havana, os cachimbos de água fumados no Cairo, o Khan Al Kha-lili, o deserto de Siwa, a biblioteca de Alexandria, atravessar o Atlas de carro em Marrocos, jantar por 50 cêntimos na praça Jam Al Fna em Marrakesh, perder-me na medina de Fes. Fazer um passeio de bibicleta em Amesterdão, o ferragosto na Sicília, uma "spaguetada" com uma família siciliana, percorrer os canais de Veneza a ouvir a banda sonora do filme "O Piano", uma bebida numa esplanada da praça S. Marcos, conduzir em Nápoles, o Coliseu de Roma, a Torre de Pizza, as ruínas de Pompeia, o mar revolto de Génova, a arte pelas ruas em Barcelona, os canais de Bruges, as ilhas gregas, compras em Atenas, as praias do Mar das Caraíbas, o Oceano Pacífico ou o Índico... banhar-me em Saona e não querer voltar, percorrer de barco os locais das filmagens do "Platoon", um hamam na Turquia, o "Hotel Pêra Palas" e o quarto de Agatha Christie, navegar rios e canais na selva silenciosa da Costa Rica, ver os navios passar o Canal do Panamá, a colorida Sidi bou Said na Tunísia e Palolem, sempre sempre Palolem...


Carmo Miranda Machado

sexta-feira, 7 de setembro de 2012

TIBI - BLOGONOVELA EM CINCO EPISÓDIOS (V)



TIBI, O BARBEIRO DA CARVALHOSA

 V

Sentada a tomar o pequeno almoço, na mesa da cozinha, ainda dorida do sexo, Susana ouviu a campainha tocar. Arranjou-se o melhor que pôde e foi ver quem era.
Quando abriu a porta e deu de caras com Jacinta em lágrimas sentiu as pernas tremerem. Não disse nada. Jacinta também não estava em estado de dizer o que quer que fosse. Olharam-se, sem saber o que fazer, até Susana se afastar da porta e Jacinta entender o movimento como um convite para entrar. E assim ficaram, mal paradas, ao fundo das escadas, logo a seguir ao pequeno hall da porta de entrada.
- Que se passa?
- O Joaquim anda a trair-me.

Toda a vila de Alfarelos sabia. Susana não era a única depositária do sémen de Joaquim mas sentiu-se como a única atingida. Ficou calada perante aquela confissão e mais calada ficou quando Jacinta a abraçou num pranto.
- Então, mulher, recompõe-te. Sabes quem é?
Aquelas palavras soaram-lhe tão mal, tão falsas, mas tão práticas.
- Sei. É por isso que estou aqui.
Susana afastou-se meio passo, rechaçada pelas palavras de Jacinta - "Está louca!" – pensou.
- Preciso da tua ajuda. Não tenho coragem para ir lá sozinha.


DuArte

quinta-feira, 6 de setembro de 2012


O segredo

O segredo (ou parte dele) está em aceitar que existem dentro de mim tantas contradições, que não sou perfeita (a perfeição é uma seca), que nem sempre me entendo, que nem sempre estou de acordo comigo própria, mas que gosto de mim. E aceitar os outros como são, com os seus medos, fraquezas, fantasmas, contradições e também com o seu lado solar. E perceber igualmente que não posso gostar de toda a gente (há pessoas que não gosto porque sim e pronto), nem achar que toda a gente tem de gostar de mim (como é óbvio, nem toda a gente tem assim tão bom gosto). Quem agrada a gregos e a troianos tem forçosamente de ser falso.


Missanga

quarta-feira, 5 de setembro de 2012


As estações só existem fora de casa

Com esta idade, ainda não sei dizer qual a estação do ano de que mais gosto. Isto pode dizer muito de uma pessoa. Gosto das quatro como as conheço. São belas e à sua maneira todas conseguem ser insuportáveis. Não há ninguém que maldiga das chuvas de Verão. Sabem tão bem. Há tempos ouvi maltratar a Primavera, porque lhe despenteava os cabelos e pingava quando não se está à espera... O Outono é doce, é a estação da marmelada e da geleia de marmelo, mas às vezes isso enjoa. Gosto da secura do Verão, é difícil o Verão e isso cheira bem, mas não imagino ninguém a escrever poesia ou filosofia no Verão. Como são deliciosas as sombras do Verão. O Inverno sabe muito bem em duas ou três situações: logo no início e quando se está fora dele, ou o vemos passar à janela. Gosto da expressão 'os rigores do Inverno' e parecendo o contrário, é uma estação muito calorosa. Custa-me um bocadinho grafá-la sem maiúscula, é a que mais me custa. Lembro-me de ir para a faculdade de gola alta e casaco e agora há ar condicionado em todo o lado.Quem se atreve a usar gola alta, fora das estepes da Mongólia? A verdade é que as estações quase só existem na rua. Vivem pelas ruas, sem abrigo, que é como deve ser, mas é uma perda não as deixarmos entrar pela casa, nem nas casas por onde andamos, nem nos carros ou nos transportes. Ficam à porta. Saímos da rua e mudamos para um ambiente que não é nada, porque não é o morno ou o fresco que fazem as estações. A temperatura é apenas o mote. Entra, Verão, entra! Bebes alguma coisa? Quero que te sintas em tua casa!


Iolanda Bárria

terça-feira, 4 de setembro de 2012

Palavras Versadas


Na casa das palavras 

A palavra é a nossa casa comum
como pode ser uma mala cheia de tudo e nada
onde ficam retidos todos os sentidos
todo o afecto que nunca pressentimos
todo o medo que temos guardado
um momento mudo e cego insoletrável
o amor que transpira das bocas consternadas
o calar de segredos obscenos numa língua rara
uma língua fechada sem chave de acesso
uma pronúncia ao avesso do signo
um dado inacessível a quem não sente peito
um espaço aberto ao sentir sem chave nem casa
nem significado onde morar


Joshua Magellan

domingo, 2 de setembro de 2012

Provocatio


É um fato, quer dizer, facto! 

Certos livros só os consigo ler enquanto faço o pino. Vou passando as páginas com a ajuda do sopro, ou da língua, o que é uma porcaria bem sei, mas tenho as duas mãos ocupadas. Certos livros só com o cérebro deveras oxigenado.


Iolanda Bárria

sábado, 1 de setembro de 2012

Crónica Benzodiazepina


Circular é morrer

Morre-se muito nas estradas portuguesas, sendo diversos e distintos os factores que contribuem para este grave problema nacional. A grande maioria dos acidentes rodoviários são provocados por erro humano, nomeadamente por velocidade excessiva, manobras perigosas, condução sob efeito de álcool ou drogas, falta de civismo, entre outros. A não utilização dos sistemas de segurança obrigatórios (cintos, capacetes, cadeiras infantis) é um outro factor que faz aumentar exponencialmente o número de vítimas mortais em sinistros rodoviários. Há, no entanto, acidentes que têm a sua origem no mau estado ou má concepção das estradas e na sua deficiente ou inexistente sinalização. Não será pois justo imputar as culpas dos números negros de acidentes rodoviários somente aos condutores, cabendo-lhes, no entanto, a fatia mais grossa de responsabilidade. A actuação dos organismos competentes deveria pautar-se por um desempenho muito diverso do que tem vindo a ser feito, não se demitindo das suas responsabilidades e fazendo campanhas adequadas e agressivas, que mostrem, brutalmente e sem rodeios, os efeitos nefastos dos acidentes. As multas podem influenciar o comportamento de alguns condutores, mas não são suficientes para mudar toda uma cultura de condução (mal) implementada, devendo a punição para pessoas condenadas criminalmente neste cenário, passar pelo trabalho cívico com sobreviventes mutilados de acidentes. É difícil mudar mentalidades e hábitos (mal) adquiridos mas, tendo em conta os benefícios que poderiam ocorrer ao serem postas em prática algumas medidas mais agressivas, certamente valerá a pena o esforço. 


Missanga


sexta-feira, 31 de agosto de 2012

BLOGONOVELA EM CINCO EPISÓDIOS (IV)



TIBI

 IV

Não muito longe da barbearia Portista, do lado oposto do quarteirão, Tibi esfrega energicamente o baixo rosto de Laurindo, camionista sem importância para o desenrolar do conto. Para Tibi, só há dois tipos de pensamentos. Quando pensa em Nela e quando não pensa em Nela. Neste momento, enquanto esfrega o rosto acabado de barbear, é nas coxas dela que ele pensa. Enlouquece-o vê-la vestida com calções de futebolista. As pernas fortes e firmes da Nela. Tudo é firme naquela mulher. Firme e resoluto. “Que bom seria ser atropelado por ela, esfregar-me nela, mergulhar nos pêlos húmidos do seu sexo.”
Sempre que Nela se cruza com Tibi e Susana, e apenas na presença dos dois, ela tenta-o sem pudor pelo que Susana possa pensar. Engano tolo de Tibi, porque Nela escancarava-se sempre, mas à sua mulher, como um macho pavoneia os músculos diante da fragilidade feminina.
- Tibi! Tenho a cara a ferver, homem! A ideia é refrescar a pele, não é esfregar até esfolar!


DuArte
 



quinta-feira, 30 de agosto de 2012


Gastronomia molecular

Agora me lembro da boa da dona Fifi que, ao levantar voo, perdeu a dentadura e só a encontrou no dia seguinte, na cozinha, colada aos dentes de um bife-sola caseiro. A festa do reencontro foi larga e demorada, um beijo em cada dentada; a comezaina foi farta e prolongada, com a prótese dentária sentada à mesa do rei. Num dos cantos da sala, jazia um copo redondo onde ainda se podiam ver estilhaços de um bolo de um rei-presidencial meio salivado no bordo da fronteira. O destroço teria sido cuspido na altura do acidente por instinto fatal. Dizem as testemunhas que foi sem peso na consciência, só para agredir um certo biltre traidor à mátria em fuga para Leste. À dona do copo de água até lhe saltou uma mola de aço inolvidável, quando sentiu do amargo da notícia. O valete de copas ficou tão altruísta com a situação que, se tivesse ali uma pistola, não hesitaria em doá-la aos amigos dos inimigos do alheio, que a usariam para intimidar os assaltados por dúvidas. As armas têm uma grande pontaria, na ponta são boas amantes porque resultam de uma plasticidade razoável, segundo a filosofia de Sun Tzu. Por isso, todos os amigos da sabedoria se sentem sábios, quando têm uma arma na mão – é como que se vivessem num estado afectivo de concubinato duradouro, pacífico e auto-infligido, numa relação com um karma letal. Todos os amigos da ciência têm a palavra técnica nos lábios roxos de provar o sabor da cisão do átomo e os efeitos colaterais das bombas de hidrogénio.


Joshua Magellan

quarta-feira, 29 de agosto de 2012


EDIMBURGO 

Desde a faculdade que me recordo de querer conhecer Edimburgo, cidade literária por excelência. Talvez por me remeter para autores que escolhi ler, como Conan Doyle ou Stevenson, ou para outros que me foram impostos. Sir Walter Scott é um desses casos. Ainda que lhe chamem o pai do romance histórico, Waverley, nunca fez as minhas delícias. O que verdadeiramente me delicia é Edimburgo. O seu castelo saído do um conto de fadas, os calmos parques (meio jardins, meio cemitérios) com os seus bancos a pedir descanso, as inúmeras lojas de roupa vintage e as muitas vielas e becos com histórias de casas assombradas. Não me surpreende pois que tenha sido esta a escolha de J.K. Rowling para as aventuras de Harry Potter. E, em momentos de melancolia, imagino-me a percorrer a Royal Mille uma e outra vez ou a tomar um coffee cream num desses dias cinzentos na Prince's Street enquanto me preparo para me perder numa das muitas livrarias. E quase me sinto feliz.


 Carmo Miranda Machado

terça-feira, 28 de agosto de 2012

Palavras Versadas



O teu candeeiro fugiu
deixou apenas os murmúrios das conversas
que a meio demitimos.

Deixou a água podre dos
nossos corpos suados

O teu candeeiro
deixou-nos em fuga
da nossa própria luz.

Abandonou a carne fria, nua, louca

Fez-nos alquimistas :

- a cantar fogueiras no fundo do mar
- a plantar montanhas inacessíveis
- a sangrar dos lábios que diziam sim
- a lançar pedras ao azul infinito
- a lamber baloiços estáticos
no eco da escuridão

Mas,
mesmo assim, paremos...

eu compro-to outro
e ilumino-nos

uma e outra vez


Mguel Barroso

domingo, 26 de agosto de 2012

sábado, 25 de agosto de 2012

Crónica Benzodiazepina


Pessoas para todos os gostos

Não me cativam as pessoas certinhas que nunca pisam o risco, incapazes de um gesto mais ousado e que passam a vida a tentar reprimir os outros. Do mesmo modo, não gosto dos arrogantes que sabem sempre tudo sobre qualquer assunto. É ouvi-los falar doutamente sobre todos os temas com igual determinação e, tantas vezes, dizendo uma sucessão de asneiras. Estas pessoas gostam tanto de se ouvir que jamais conseguem escutar os outros.
Irritam-me também as pessoas que se acham perfeitas e que tratam os outros abaixo de cão.Gosto de pessoas normais que tenham dentro de si medos, fragilidades, forças, dúvidas, certezas, sonhos, pesadelos, sombras, luz, bondade, maldade, riso, choro, contradições. Gosto de pessoas bonitas, feias, altas, baixas, que falem, que ouçam, que façam merda, que tenham capacidade para se rir de si mesmas e que não sejam sempre tão boazinhas que até enjoa ou tão filhas da mãe que até chateia.
Porque ninguém é simplesmente preto ou branco. Somos uma mistura de tantos sentimentos que é impossível não haver dualidades e hesitações dentro de nós.


Missanga

sexta-feira, 24 de agosto de 2012

TIBI - BLOGONOVELA EM CINCO EPISÓDIOS (III)



TIBI, O BARBEIRO DA CARVALHOSA

 III

 - Gonçalves! Grande noite! Se não fosse aquele filho da puta do árbitro, os gajos mijavam-se em campo.
Gonçalves não podia responder. Aquela risca estava a trocar-lhe as voltas. Sentados no sofá, em fila, à espera de tosquia, três crianças da obra do senhor Padre aguardam. José é funcionário da Obra e todas as quartas-feiras leva os meninos necessitados para uma aparadela ao Gonçalves. Irritava-o a figura de Joaquim o pinante. Aquela linguagem perante as crianças era um excelente motivo para meter conversa.
 - Agradecia que tivesse mais tento na língua. Se não for pelos outros, ao menos porque está na presença de crianças.
 - Ai foda-se! – disse Jacinto, ainda antes de José ter terminado a última frase - Só me faltava esta! Queira desculpar-me mas as caralhadas também fazem parte da criação. Pergunte ao senhor Padre!
Os miúdos riam à socapa, sob o olhar grave de José. “Esqueceste-te dos demónios, cabrão” – Disse José para dentro, mais que arrependido por antes o ter dito para fora.
Gonçalves não estava ali. Muito curvado, parecendo ainda mais baixo do que aquilo que já é, de secador numa mão e pente na outra, batia-se com o cabelo rebelde de Francisco, filho bastardo de Ofélia, a única prostituta de Alfarelos.


DuArte

quinta-feira, 23 de agosto de 2012



Passadas

Suas mãos silenciadas abrigavam jacintos perfumados, Jacinta sentia, a cada passo, a leveza de um tempo perfeito, de estações, de uma flor que renasce em seu esplendor, intocável e alvíssara. Mulher majestosa. O filho enredava brincadeiras, noticiando os boatos da pólis, a ele não lhe passava nada, nesse mundo cão, a impunidade anda de vento em popa e as consequências são bastante tumultuosas. Cidades nascem aqui e acolá, com muitos personagens alvejados. Você bem sabe, madre, confunde-se até fala com prosopopeia, e metem-se os pés pelas mãos. Naquele momento da minha vida, não queria me confessar, nem mesmo fazer a primeira comunhão. Sim, sei que fiz tardiamente, mas jamais me declarei uma ré confessa, não condiz com meu estado de espírito, madre, soa falso, como levantar falso testemunho sobre mim mesma, o mundo pesa nas costas, a alucinação, madre, desafia minha mortal condição, sinto-me como atlas. Atlas existe, madre? Os gregos acreditavam que sim, nós descendemos de romanos e cremos em expiação, tem gente até de reza forte que vende sua mercadoria, madre, paguei até minha dor de existir, a rezadeira disse que era encosto, coisa ruim, moça, esse nome não lhe cai bem, tem de trocar o nome, moça, atrai defunto, assombração, coisa morta, moça, tem que tomar banho de folha, a reza vai ser "braba". Fiquei assustada, madre, quem não se assustaria! Fiz tudo que a dona da reza mandou, as coisas pioraram, meu corpo foi secando feito folha que se desmancha quando pisam, não suportava uma galhofa, madre, fui ficando sisuda e indigesta. Tomei gosto pela vida, madre, uma vida distinta, distante de tudo; alheia ao mundo, alienei-me. Esse gosto insípido é meu remédio para o nada, por onde passo deixo pegadas, meu filho imaginário comunica minha caminhada e as palavras não saciam minha fome alterada.


Manuela Barreto (Brasil)

quarta-feira, 22 de agosto de 2012



Uma tara

Alguns pensamentos, depois de ler White Jazz:

Dave tem uma tara pela Glenda. O termo foi usado pelo próprio Ellroy, na noite das filmagens, quando Dave a viu pela primeira vez, ao longe. -"Uma tara", repetiu Ellroy, noutras ocasiões.
A Glenda e o Dave em conversas, no apartamento de Los Angeles, noite dentro. (sexo).
Dave é advogado, é tenente do LAPD , é corrupto. Tão corrupto...
Tem pinta, sabe falar. Pensa muitas vezes na Glenda. Tantas, que nos leva a imaginar que ela também pensa nele.
Já provou de tudo e não receia grande coisa.
Teme, isso sim, que Glenda deite tudo a perder, que é o que pode acontecer se se puser com futilidades grosseiras e previsíveis, do género: "Amo-te, Dave"!


Iolanda Bárria

terça-feira, 21 de agosto de 2012

Palavras Versadas


CIDADE-RAPAZ 

quero viver contigo
numa cidade-rapaz
e jantar num restaurante situado no ombro
talvez mais tarde um passeio pelo peito
esconder-me contigo na floresta do peito
oh mas nunca conhecer
esse rapaz que é cidade
nem o seu coração que bate como trovoada
a sua insanidade saudável
mas no final do dia
quero deitar-me contigo
ouvindo a sua respiração suave
{entrando na sua respiração aí suave}
e falar para esta cidade
em forma de corpo indecente
esperando suas reacções mais espontâneas
seus sonhos mais nefastos
e quando a cidade acordar
fingir-nos-emos
mitológicos como a dissolução
dos cúmplices
e viveremos atrás dos olhos
num interstício da alma.


Sylvia Beirute

domingo, 19 de agosto de 2012

sábado, 18 de agosto de 2012

Crónica Benzodiazepina



Adeus tristeza

Não me lembro se já escrevi sobre ele, mas a verdade é que tenho por ele uma enorme admiração. Ele, neste caso, é o Professor Júlio Machado Vaz. Já tive oportunidade de falar com ele, numa tertúlia, e a admiração que já sentia, aumentou. Gosto do seu riso franco e bem-disposto, da maneira como coloca as questões e as desmistifica. Simplicidade é o termo que me ocorre. De vez em quando espreito o seu blogue e é sempre um prazer. Hoje encontrei um post antigo, onde escreve: A tristeza tornou-se obscena (…) numa sociedade que abomina a angústia e a degola à força de pastilhas…
Não posso deixar de pensar sobre isto. Estar sempre triste pode ser um indício de algo mais grave. Estar triste de vez em quando faz parte. Quando a tristeza chega – e, inevitavelmente, ela acaba sempre por chegar - por vezes tento enganá-la, não com a pastilhinha mágica, mas nas lojas. Faz bem à alma (e mal à carteira). Há alturas em que funciona. Quando é uma tristeza maior, acabo por me render e deixá-la ficar uns tempos, sabendo sempre que está de passagem. Não lhe dou confiança para se instalar definitivamente. Se tenho de senti-la, sinto-a, vivo-a, e depois deixo-a ir. Há sentimentos que não podemos evitar e só nos resta aprender a melhor forma de lidar com eles. E isso só se aprende vivenciando-os.


Missanga

sexta-feira, 17 de agosto de 2012

TIBI - BLOGONOVELA EM CINCO EPISÓDIOS (II)


TIBI, O BARBEIRO DA CARVALHOSA

II

O argumento desenrola-se deste modo: Tibi gosta de Nela, Nela gosta de mulheres. Nem de propósito, apaixonou-se por Susana, mulher de Tibi. De baixo para cima, mal Tibi sai para a barbearia, depois de deixar os filhos na escola, mal o portão se fecha, Joaquim, marido de Jacinta, faz a visita matinal a casa de Susana para “aliviar os tomates”, como gosta de pensar, de si para si, mal a deixa ao seu abandono. A mulher de Joaquim, a Jacinta, não gosta de ninguém. Vive para o filho, Hugo, mas nem por isso se sente menos infeliz. É assim há anos e não se espera que mude tão cedo.
Joaquim é conhecido como “o pinante” do alto da Carvalhosa. Toda a gente o sabe, principalmente Gonçalves, dono da barbearia “Pedroto”. Dantes só havia uma barbearia em Alfarelos, a “Barbearia Portista”. Depois da grande zanga de 89, por causa de uma substituição mal conseguida por parte do treinador Ivic, o monopólio, das barbas e dos cortes de cabelo, dividiu-se. Gonçalves é o Rei da risca ao lado, Tibi é o príncipe da risca ao meio. A Vila também se dividiu, nos cortes e na apreciação da arte de cada um. Joaquim é cliente de Gonçalves e é para lá que se desloca depois da visita a casa de Tibi.


DuArte

quinta-feira, 16 de agosto de 2012



But... Why?

A ligação directa entre esta pergunta e o reino animal começa a fustigar-me. É abusivo. Já chega. Já percebi a ideia. Os animais permanecem na idade dos porquês e os humanos conseguem prever o futuro. Porreiro. Primeiro foi o desgraçado do sapo de uma fábula do meu imaginário infantil que, picado pelo raio do escorpião que tem tanto de falso na sua retórica como de verdadeiro na sua natureza, se encheu de dúvidas. «Mas, porquê?» Porquê o quê? Como porquê? Como haveria de acabar uma fábula que mete um sapo e um escorpião? Com juras de amor eterno? Com romance inter-espécies? Até bastava dizer «Era uma vez um sapo e um escorpião». E pronto. É essa a sua natureza. Ponto.

Depois foi um tigre no Ismael do Daniel Quinn que passava os dias às voltas na jaula a perguntar: «Mas porquê? Porquê? Porquê? Porquê? Porquê? Ele não consegue analisar a pergunta nem alargar-lhe o âmbito. Fica interminavelmente a perguntar o mesmo. «Se fosse possível perguntar à criatura: Porquê o quê?, ela não seria capaz de responder. E no entanto, a pergunta arde na sua mente como uma chama inextinguível». Que foi o que me aconteceu a meio do visionamento de "Encounters at the end of the World" durante a sessão de abertura do "IndieLisboa". Estava eu para ali sossegado a deleitar-me com o tom da narração e com as personagens do documentário e lá vai disto. Apesar do Werner Herzog sossegar as hostes logo de início, assumindo que não ia fazer um filme sobre pinguins, o sarcástico germânico não resistiu e lá aparecem uns quantos. E se mete bichinhos, estava mais que visto, tinha de meter a "stalker question", pois claro. Um baralhado pinguim captou a atenção do realizador quando se afastou do seu grupo e seguiu rumo às «distant mountains, to certain death, with a singular determination. But... Why?», e fica a questão em suspenso. O Herzog que me perdoe, que eu cá delirei com o documentário. Mas daí para a frente, o raio da questão ardeu na minha mente com a chama inextinguível do tigre do Ismael. O que é certo é que a pergunta me persegue. But... Why?


Bruno Vilão

quarta-feira, 15 de agosto de 2012



Pinga-amor!

Romeu Sem-Elles, 38, ao Diário de Cuiabá: "Toda a vida fui um pinga-amor e isso prejudicou-me deveras. É uma doença corrosiva, que me impede de seguir um percurso normal e me atira, há anos a fio, para desgastantes sessões de análise. Lutar contra a condição de pinga-amor tem sido a grande batalha da minha existência".

- Desassombrado, este Sem-Elles, não? Isto é praticamente uma lição de vida! Quantos pinga-amor sairão do armário depois de ler isto?

- É! Certos apelidos não condizem mesmo nada com quem os carrega. Por outro lado…, o que explica que esta criatura tenha decidido ir viver para os trópicos?


Iolanda Bárria

terça-feira, 14 de agosto de 2012

Palavras Versadas


urgência permanente

eu não quero que te demores a saber por que estou aqui.
eu não quero que explores segredos que nunca encobri.
eu não quero que decores a casa nova que nos construí.
eu não quero que me mostres cores que nunca descobri.
eu não quero que me mostres as cores que eu já esqueci.
eu não quero que te compares com o que eu já vi.
eu não quero que me dês flores na data em que nasci.
eu não quero desses amores que dissecam a vida que vivi.

eu só quero ser urgente em ti.
eu só quero ser urgente em ti.


Renato Filipe Cardoso

sábado, 11 de agosto de 2012

Crónica Benzodiazepina


FEIRA DAS ALMAS

Sim. Gosto de ir. Aos sábados menos. Às terças mais. E de lá veio a minha mala vintage de pele castanha que tanto adoro e que as minhas amigas tanto invejam. Ou o meu chapéu anos 30 que uso em momentos de loucura.
A Feira da Ladra é o único sítio em Lisboa que me transporta para Portobello Road ou Camdem, locais a que me habituei a visitar quando vivi em Londres ou sempre que lá volto. Embora o ar por cá seja assustadoramente decadente em vez de "trendy", a verdade é que não deixa de ser um toque irreal nesta cidade de centros comerciais à pinha, ou pior, de supermercados gigantes onde já se pode comprar tudo.
Chamavam-lhe Feira das Almas, por causa dos muitos sapatos que por lá se vendiam. E os sapatos têm alma, eu que o diga. Mas parece que agora já ninguém compra sapatos na feira, dizem-me algumas velhotas vendedeiras que ali vendem há mais de vinte anos. Agora, na ordem do dia estão os telemóveis, os carregadores e outros acessórios, as pilhas e cartões de todo o género e os cds.
Mesmo assim, não consigo deixar de lá ir saborear. Há por ali uma sensação estranha que resulta da amálgama do novo com o velho, numa decadência reconfortante que só se encontra no Campo de Santa Clara, com a cidade a acordar e os passeios repletos de coisas do outro mundo, de outras gentes, à mistura com coisas e gentes deste mundo.


Carmo Miranda Machado

sexta-feira, 10 de agosto de 2012

TIBI - BLOGONOVELA EM CINCO EPISÓDIOS (I)



TIBI, O BARBEIRO DA CARVALHOSA

I

Tibi é barbeiro e anda sempre com o nariz vermelho. Gonçalves, o irmão, também é barbeiro mas tem o nariz de cor normal. Tibi tem problemas com o sangue que só muito a custo lhe chega às extremidades. Todos os dias, antes de se deitar, Tibi esfrega vinagre nas pernas, nos braços e no nariz. A mulher de Tibi detesta o cheiro a vinagre. À noite, quando se deitam, há sempre motivo para banzé. Nela, a vizinha, detesta barulho. Queixa-se por ser solteira, por ter um quarto paredes meias com o deles. Vivem todos numa casa antiga dividida em três partes: na parte da frente, incluindo a fachada da casa, vive Tibi, a mulher e mais dois filhos. As traseiras da casa, onde vive Nela, são mais ou menos do mesmo tamanho, mas tiveram direito a um tanque de pedra e um jardim. Na parte debaixo ou cave, um casal, Joaquim e Jacinta, mais o filho Hugo, partilham uma minúscula cozinha, uma saleta e um quarto sem roupeiro. As roupas de vestir têm-nas pousadas nas cadeiras da sala. São poucas as roupas e, quando se sentam para comer, pousam-nas aos pés da cama. Em frente à porta de Joaquim existe um pequeno terraço, onde se cruzam todos os habitantes da casa para entrarem e saírem do condomínio.


DuArte

quinta-feira, 9 de agosto de 2012



Corpo Dócil

Não há quem imagine tal cena da vida cotidiana. Uma criança linda, com formação física perfeita a observar a alegria da família diante de sua chegada. Não entendia nada, nem sabia onde estava. O branco lhe excedia. Uma sombra envergava-lhe a alma. Deram-lhe o nome Zofar. Seu choro era contido, similar a um gemido, o corpo se contraía no ato, tamanha sua força. O berço estremecia. Nos primeiros dias, a mãe sentia muitas dores ao dar a mama, algumas vezes, desfalecia. Após o nascimento dos primeiros dentes, precisaram mudar a alimentação. Os primeiros brinquedos, dilacerados, terminavam no lixo. À medida que Zofar crescia, sua força se intensificava e sua mente se esvaía. Não se relacionava com as outras crianças, suas vontades próprias se sobrepunham às regras de convívio social. Os brinquedos foram substituídos, tudo se tornara o inanimado destrutível. Zofar não falava, grunhia. O que mais impressionava nele era a sua beleza, digna de divinização, um ser que incorporava símbolos opostos. A história de Zofar similava à estória de “a bela e a fera”. O espelho refletia a face límpida de uma prisão absoluta. Conter tais características como uma anomalia irreparável não era nenhum conto de fadas. Após exames médicos e pesquisas, nenhuma resposta foi encontrada. Ainda na infância, a triste criança fora acorrentada em prol da segurança de seus familiares, os quais, mesmo em tais circunstâncias, dispunham de tamanho amor por aquele estranho particular. Assim fora a existência de Zó, apelido dado por seus entes queridos. Há histórias que findam numa página, mas ninguém pode prever a temporalidade de uma realidade amarga. Este narrador compadecido diante dos fatos testemunhados retoma o fôlego para continuar a prosa.
Com as mãos e os pés atados, Zó recebia os cuidados de uma assistente, a qual lhe dava banho, trocava-lhe as roupas e lhe satisfazia fome e sede. De viver, de liberdade. Palavra esta que o sonho humano alimenta, não há ninguém que explique e ninguém que não entenda. Zofar não desvendou o mistério de tal vocábulo, apesar de representá-lo muito bem em condição adversa. Cresceu. Tornou-se um adolescente solitário, isolado do mundo. Acredita-se que ele tinha o seu modo de expressão, entretanto, este não condizia com os costumes da sociedade contemporânea. No período primitivo, seria cultuado como um deus ou fariam dele um caçador nato para saciar as necessidades dos mais fracos. Fruía nele o absurdo, um Sísifo às avessas. Não adquirira as astúcias para driblar o destino, o vazio da lucidez instalara-se na parte mais indecifrável do organismo humano, através do qual se transita pelo corpo social. Optou-se pela retirada das correntes. Eis o contraste que permeia o absurdo. Zofar ficava num quarto trancado e recebia toda a atenção necessária, mas rejeitava qualquer tipo de afeto mais íntimo. Há momentos em que a sina se personifica no sujeito de forma tal a não haver finitude de sofrimento. Diria o imortal Albert Camus, onde reina a lucidez, a escala de valores torna-se inútil. No homem absurdo, a loucura e a morte são aspectos irremediáveis. Ele não escolhe. Zofar, com voracidade do seu vigor, destruíra todo o quarto. Aos quinze anos de idade, fora inserido numa jaula, qual um leão absorto em meio à selva de pedra. Domesticá-lo seria um ato vil. Vivera assim até completar a maioridade, nascera desenganado, morrera tranquilo em berço de aço.


Manuela Barreto (Brasil)

quarta-feira, 8 de agosto de 2012



A vida é uma festa

Há dias em que acordo com a convicção absoluta que o mundo é uma festa, que a vida é uma dádiva preciosa e que tenho o dever de ser o mais feliz possível. Habituei-me, desde cedo, a não depositar nos outros a responsabilidade da minha felicidade. Nem sempre é fácil. Nem sempre quero admitir que se as coisas me correm mal, talvez seja porque não me esforcei tanto como podia. Nem sempre me apetece aceitar que, na maioria das vezes, quando alguém me trata com menos consideração, foi porque eu o fui permitindo. É sempre mais fácil colocar as culpas nos outros, no azar, na vida, no acaso. Todas as acções, mesmo as passivas, provocam reacções. A vida, os outros, retribuem-me exactamente aquilo que eu dou, aquilo que eu permito. É verdade que há verdadeiros azares e pessoas com má índole. Como também existem golpes de sorte e anjos no meu caminho. Uns contrabalançam os outros. O resto, o dia-a-dia, é o reflexo das minhas escolhas, das minhas vontades conscientes ou inconscientes. Pesando tudo, tenho muitos anjos junto de mim e a vida é realmente uma festa.


Missanga

terça-feira, 7 de agosto de 2012

Palavras Versadas



Viagens num plano inclinado

Sempre vi o mundo
ao contrário do que devia ser visto
sem ver o que para lá do meu olhar se evade
o mundo inteiro em volta de si mesmo a busca
da razão no aroma de um cravo perdido na aragem
seguindo viagem para nos levar daqui
para chegar mais longe do que apenas ficar
a viajar sem sair do mesmo lugar.

Sei ir ao Brasil e nadar o mar inteiro
porque enquanto nado penso e nado pensando
eu queria mesmo era viajar num comboio
numa locomotiva a vapor de carvão negro
com passageiros de primeira na terceira classe
e chegar ao fim de cada viagem e dizer 
altifalante a toda a gente:

Sempre vi o futuro do mundo claramente
visto a partir destas linhas paralelas.


Joshua Magellan